Em tempos de neo-conservadorismo, neo-homofobia, neo-burrice, enfim, em tempos onde o mundo (e o Brasil, claro) parece retroceder e regredir de forma inacreditável, ainda surgem (e talvez por isso mesmo) projetos artísticos corajosos e dispostos a combater os preconceitos e crueldades da sociedade. BR-Trans é um deles.

O espetáculo teatral é um monólogo escrito e interpretado pelo ator cearense Silvero Pereira, 32 anos, a partir de histórias reais vividas por transexuais, travestis e transformistas do Nordeste ao Sul do país.

Através dessa pesquisa, a peça mergulha no universo trans e aborda seus estigmas sociais, medos, preconceitos e anseios, compondo um mosaico da sigla “T” no Brasil, e expondo aquilo que a gente já sabia: dentro da sigla LGBT, o T continua sendo o mais discriminado, agredido e assassinado.

Br-Trans faz parte do Coletivo As Travestidas, fundado por Silvero em Fortaleza. A peça está em cartaz em São Paulo até 18 de outubro, no Sesc Pompeia, e tem apresentação extra nesta segunda (12), no feriado. O Virgula conversou com Silvero, e o resultado está na entrevista a seguir.

Silvero, você se considera trans? Como você se classificaria, se é que você se classifica? O que acha dessa questão dos rótulos para definir as identidades de gênero das pessoas?
Eu sou gay enquanto identidade de gênero. Enquanto artista me considero ator/trans. Meu trabalho na arte hoje transcende o palco e se estende para o cotidiano, interferindo socialmente sem a necessidade da proteção do edifício teatral, de modo que, de maneira performativa, consigo penetrar nesse cotidiano para provocar questões para além do palco. Sobre a questão dos rótulos, creio que a sociedade em que vivemos ainda está longe de enxergar o ser humano na sua essência. Assim, acho os rótulos importantes para, nesse momento, esclarecer as diferenças e promover, no futuro, um ambiente de igualdade.

Por que o segmento T continua sendo o mais discriminado, agredido e assassinado entre os LGBT, no Brasil?
Acredito que o seguimento T é um dos mais transgressores na sociedade machista, religiosa, conservadora e patriarcal em que estamos inseridos. Assim, essa sociedade não aceita a possibilidade de mudança enquanto lugar de aceitação e identidade. Alguns segmentos ainda conseguem se inserir porque estão de alguma forma dentro do padrão (gay se vestindo como homem). Já o Trans rompe essa questão e promove a possibilidade de mudança na imagem e na ação.

A peça tem texto do próprio Silvero e direção de Jezebel De Carli

Victor Augusto / Divulgação A peça tem texto do próprio Silvero e direção de Jezebel De Carli

Como foi a experiência de ministrar oficinas no Presídio Central de Porto Alegre? A ideia do espetáculo surgiu a partir daí? Você apresentou o espetáculo para as detentas?
A ideia do espetáculo surgiu de relacionar o norte e o sul do país nas questões convergentes e divergentes sobre o universo Trans no Brasil, na ótica desses dois pólos regionais. Chegando em POA fiquei sabendo da ala de travestis e companheiros no sistema carcerário (o primeiro a implantar foi Belo Horizonte, mas o de POA tornou-se exemplo nacional). Decidi, junto com a ONG Igualdade, me aproximar ofertando oficinas de iniciação teatral e com isso entendendo esse recorte de mundo num presídio. Não havia interesse nos motivos delas estarem ali, mas sim em saber que a identidade de gênero estava sendo respeitada e se tornando exemplo nacional, tanto que hoje temos em Cuiabá, João Pessoa e Ceará. Após a estreia do espetáculo foi possível realizar e debater a obra concluída com as detentas e seus companheiros. Foi um momento ímpar e de extremo significado para minha pesquisa.

Como foi o processo de escolha musical?
As músicas foram sendo absorvidas ao longo do processo de imersão na pesquisa. Decidi realizar uma espécie de pesquisa não só documental dessas histórias, mas também uma pesquisa fonográfica, músicas que tivessem a discussão ou que pudessem transcender o sentido e resignificadas nas situações propostas. Salvo a música “Geni e o Zepelim”, que de fato foi interpretada pela travesti Babi em uma apresentação no Teatro São Pedro (POA), e que foi uma das mais emocionantes descobertas no processo.

Entre as músicas que são cantadas na peça, estão "Geni e o Zepelim" e "Masculino e Feminino"

Lina Sumizono / Divulgação Entre as músicas que são cantadas na peça, estão “Geni e o Zepelim” e “Masculino e Feminino”

Fale sobre a trajetória do Coletivo As Travestidas. Você imaginava e/ou planejava que ele se transformasse num coletivo, desde o início?
Comecei esse trabalho de forma despretensiosa em 2002 com a montagem do espetáculo “Uma Flor de Dama”, como uma inquietação pessoal. Entretanto, esse trabalho foi absorvido pelo movimento LGBT e agregou novos artistas de Fortaleza que também se identificavam e desejavam discutir essas questões. Assim, em 2008 resolvi fundar o que hoje temos como Coletivo Artístico As Travestidas, tendo em vista que não realizamos apenas espetáculos de teatro, mas também em outras áreas como música, dança, audiovisual, fotografia, designer e publicidade.

Qual seu objetivo com “BR-Trans”? Qual você acredita que seja a importância desse espetáculo para nossa sociedade?
“BR-Trans” foi um projeto específico nessa relação do Nordeste e Sul do país, porém ele se mostrou maior ainda e me fazendo entender que ele precisa chegar em outras regiões como Norte e Centro-Oeste, no intuito de mapear e entender melhor o universo Trans na sociedade brasileira. Acredito ser um potente trabalho de questionamento, denúncia e provocação, principalmente sendo o Brasil o primeiro país no mundo entre os que mais matam por homofobia e transfobia. “BR-Trans”, pra mim, é mais que um projeto artístico, mais que um espetáculo. Acredito ser um trabalho artístico-político-social-antropológico que, pelo fato da arte ser um instrumento de identificação e catarse, deveria (deverá num futuro próximo) acontecer não somente nos teatros, mas também nas escolas.

BR-Trans
Sesc Pompeia – Espaço Cênico
Rua Clélia, 93 – Pompeia
Quinta a Sábado às 21h / Domingos e Feriados 19h
R$25 / R$12,50 / R$7,50
16 Anos
Até 18 de Outubro

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