G. tem nove anos, não tem pai, a mãe e a irmã são viciadas em crack. Ele cresceu na rua, nunca foi à escola, não sabe ler nem escrever, não tem casa, não tem documentos. Mas ele entende de bola. E de cestas. Há alguns meses, o menino descobriu o basquete em uma quadra pública no centro de São Paulo. E uma esperança de trilhar uma carreira no esporte. “Eu quero ser igual ao Michael Jordan”, diz o garoto.

Destaque do projeto “Virando o Jogo Sampa”, da Prefeitura de São Paulo, no Largo Coração de Jesus, o menino chamou a atenção dos professores da ação e tem agora a primeira grande oportunidade de sua vida no Círculo Militar. 

“Ele é um menino super coordenado, qualquer estímulo e desafio que a gente fornece, ele vai para cima e enfrenta. É um menino que se relaciona super bem com todo mundo, não tem problema de violência, mesmo dentro dessa realidade e despertou uma habilidade com basquete. Ele faz, naturalmente, coisa que muito adulto não faz”, afirmou Eduardo Nunes, professor de educação física e um dos idealizadores do projeto.

No entanto, a vida cigana levada por sua família pode atrapalhar o sonho do garoto. Os responsáveis pela ação social veem essa rotina nômade como principal desafio.

“Isso é o que é impossível para gente (evitar a mudança da sua família), única coisa que fica fora do nosso alcance. Uma vez eles vão, tchau, acabou. Agora, a coisa ainda não aconteceu. Eles talvez ainda não tenham uma noção, que isso pode ser bacana para a criança”, completou Nunes.

Em contato direto com a mãe do garoto, o responsável pelo projeto conseguiu com que ela fizesse os documentos do menino para ele poder integrar o time do Círculo Militar. No próximo fim de semana, ela tentará providenciar os papéis. Outra dificuldade enfrentada é a educação de G. que nunca estudou e não sabe nem reconhecer os números.

“Se você pegar ele e colocar em quadra, ele vai jogar com camiseta do time. Mas, se você chegar e falar para ele ‘marca o número nove’, ele não saberá identificar o número na camiseta. Tem de falar, é o gordão, o grandão, do tênis amarelo, do tênis preto, vai por característica, por símbolo”, finalizou o educador.

Em seu teste, na última semana no Círculo Militar, G. agradou os treinadores do local. No entanto, a falta de documentos do garoto impede com que ele já acerte com o time. 

O fato de ter perdido o pai quando ainda tinha seis anos, devido ao crack, e ser filho e irmão de usuários de drogas, fez com que o garoto aprendesse o mal que o uso de entorpecentes faz e buscou outro caminho.

“Eu andava ali, sentia cheiro das drogas e vi o professor. Aí, eu fiquei aqui na quadra, comecei a vir todos os dias para jogar e vou ser um atleta”, completou o menino de nove anos, que já possui quatro tatuagens em seu corpo.

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