Ser torcedor de futebol não é uma tarefa fácil. E quando se tem como profissão um trabalho que te coloca muito próximo de seus principais ídolos, a barreira do emocional para o profissional se torna cada vez mais curta, e também complicada de se controlar. Como é o caso dos operadores de áudio de rádio e televisão, vendedores ambulantes, policiais, repórteres, seguranças e funcionários das federações locais, que mesmo estando tão perto, ficam impedidos de dar uma torcida ou secada em determinados times.

João Bellão é um exemplo claro do “sacrifício” que é feito nos estádios espalhados pelo Brasil. Operador de áudio da Rádio Transamérica, ele é torcedor fanático do Palmeiras e tem que se informar através dos gritos dos torcedores e com as narrações de Éder Luís e Oswaldo Maciel para saber se seu time está ganhando ou não, pois sua profissão o obriga a ficar atento durante os 90 minutos de jogo para modular a mesa de som localizada na zona mista, setor onde fica boa parte da aparelhagem das rádios.

“É bem complicado viver esse tipo de situação. Às vezes eu brinco com o pessoal da rádio e entro ao vivo durante as transmissões para dar um pitaco e falar do meu Palmeiras, mas é praticamente impossível assistir o jogo e torcer, pois tenho que ficar ligado o tempo inteiro na mesa de som”, disse o operador, de 54 anos.

E a situação se torna ainda mais complicada quando falamos de um torcedor que é componente do Batalhão de Choque da Policial Militar. Pedindo para não ser identificado à reportagem do Virgula Esporte, um dos soldados da corporação, que trabalhou no clássico entre São Paulo e Santos, válido pelo Campeonato Brasileiro, trocou breves palavras conosco.

“Ficamos o tempo todo atento às reações dos torcedores, e isso é bem estranho no início. Eu torço para o Corinthians, todos os funcionários, ou pelo menos a maioria, tem um time do coração, mas isso não interfere em nada o nosso trabalho”, disse. “Tente você ficar um jogo sequer sem olhar para o gramado. Os 90 minutos, inteiros. É uma sensação absurdamente estranha, mas com o tempo se acostuma”, completou o soldado, que soltou um tímido “Vai, Corinthians” depois do papo.

Torcedor do São Paulo, Marcos Roberto, operador da Super Rádio Tupi há menos de um ano, vive uma situação semelhante. Desde que assumiu a parte técnica das externar ele tentar secar seus rivais e torcer pelo São Paulo entre uma troca de cabo e uma descida pelas escadarias do Morumbi durante o decorrer das partidas.

“Eu sempre brinco com o pessoal da equipe que eu perco uns dois ou três quilos por transmissão. Correr pelos corredores e degraus de Pacaembu, Morumbi e Vila Belmiro não é fácil, ainda mais quando o meu São Paulo tá jogando, que eu fico mais nervoso. Eu penso, estou tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe”, desabafou Marcos, que tem 44 anos.

E olha que Bellão e Marcos são apenas dois dos diversos profissionais que, mesmo estando nos estádios em que seus times ou rivais estão jogando, não conseguem sequer dar uma espiada no decorrer dos 90 minutos de partida.

Atualmente, 11 emissoras de rádio paulistas, juntando AM e FM, transmitem os jogos do Campeonato Brasileiro. São elas: CBN, Rádio Globo, Super Rádio Tupi, Transamérica, Rádio Capital, Joven Pan, Rádio Bandeirantes, Bandnews FM, Rádio Bradesco Esporte, Rádio Estadão/ESPN e Rádio 105FM.

 

 

“Depois na corrida com o Dentinho, fui ver se ele realmente falava no microfone da rádio, por se tratar do veículo oficial do clube, mas eu acabei aparecendo só na TV, atrás dele, que acabou me, falando comigo. Foi um momento atípico, mas se fosse numa rádio convencional, tenho certeza que não teria tido tal atitude, apesar de ter sido muito bom aquele momento”, completou a repórter.

E por falar em rádio, até os repórteres das emissoras, que não passam pelo mesmo “perrengue” que seus respectivos operadores, têm que segurar o coração no decorrer das partidas, o que não aconteceu com a jovem Chris Lima, ex-repórter da Rádio Coringão, veículo de comunicação oficial do Sport Club Corinthians Paulista.

No clássico entre São Paulo e Corinthians, disputado no dia 7 de novembro de 2011, pelo Campeonato Brasileiro, a repórter estava atrás da meta defendida por Bosco no momento em que o atacante Dentinho marcou o segundo gol do time alvinegro, que decretou a vitória por 2 a 0 no Majestoso.  

Porém, durante a comemoração dos jogadores, ela acabou não se contendo e vibrando junto, mas foi flagrada pelas câmeras que transmitiam a partida, ficam em uma situação completamente delicada.

“A transmissão da ‘Rádio Coringão’ era diferente das convencionais. Realmente entravamos no clima da partida, mesmo estando ali para trabalhar. Por se tratar de um clássico, com a possibilidade da equipe conseguir um título naquele ano, pois ainda estávamos na briga, a reação foi mais forte do que eu”, disse.

Ou seja, além de ter o coração forte para acompanhar seu time apenas por sons ou reações alheias, trabalhar no local dos jogos requer também um pouco de auto-controle dos amantes do futebol, caso contrário, a emoção toma conta da razão.

Veja abaixo o gol do Corinthians e a comemoração da repórter ao fundo:

Gol de Dentinho, contra o São Paulo, comemorado por repórter

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