Eu estava meio #chatiado de plantão nesta véspera de Ano Novo quando lembrei que o trajeto da São Silvestre passa perto da minha casa na Barra Funda. Exatamente a 600 metros. Quando vi estava lá, no meio de uma galera de laranja, e eu de azul, correndo por viadutos e ouvindo os gritos de incentivo. “Vamooo”.

Os 90 quilos pesavam e eu lembrava a cada cem metros de como era mais fácil no tempo em que eu pesava 20 a menos, quando comecei e correr e morava em Jundiaí e Sorocaba.

Já passavam das 10h e o sol era inclemente. Muitos andavam pelo caminho, já que eu havia entrado lá pelo quilômetro cinco ou seis, ou seja, quase a metade dos 15 km da São Silvestre. Sempre tive vontade de correr pelo Centro de São Paulo, então essa era a minha meta.

Como os quenianos já haviam passado há horas, a galera na rua dava umas tiradas nos corredores. Impressionava a mistura de gente, de japoneses do Japão aos sem-teto que vivem por ali em ocupações, casais, idosos, bebês, africanos, nordestinos. Diversidade humana. Com a exaustão do quilômetro dez, ilhas de silêncio se formavam transmutando as passadas ritmadas em meditação. 

O clima de fim de ano também forçava a uma reflexão e inevitavelmente você comparava aquela situação com a vida. Os que se tiveram disciplina e treinaram agora já estavam com a medalha no peito. “Ao vencedor, as batatas”, ensinou Machado de Assis.

Eu talvez diria que nem deu para sentir a corrida, mas como um amador diletante, que tem cruzado os cinco km do Minhocão aos domingos em velocidade compatíveis a senhoras e senhores de 70 anos, nessa minha aventura, a coisa apertou. Doeu, mas não sofri. Até pensei em tentar subir a Brigadeiro Luiz Antônio. Nesse momento, sonhei com glórias imaginárias, mas tudo que eu conseguiria seria atrasar meu plantão, talvez ter um ataque cardíaco, um AVC. Entrei na São João e dei de cara com o prédio do Banespa.

Logo após passar a Galeria do Rock, um homem gritava: “Quem é guerreiro não desiste, como é que a gente vai ficar se vocês desistirem?”, provocava. Aquilo parecia ser para mim, que acabara de decidir que apenas faria o contorno do Teatro Municipal e de lá seguiria até o metrô Anhangabaú.

Uma mulher que corria com a amiga retrucou: “Quem aqui vai desistir?”. Eu. Cruzei a barreira e ninguém se importou comigo correndo até a bilheteria do metrô, onde passei minha linha de chegada imaginária, “sem pódio de chegada ou beijo de namorada”, diria Cazuza. 

Ou como nos ensina o escritor Haruki Murakami, em uma passagem de Do que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida (Alfaguara): “Um corredor contou a respeito de um mantra que seu irmão mais velho, também corredor, lhe ensinara, e sobre o qual ele refletia desde que começara a correr. Ei-lo aqui: a dor é inevitável. Sofrer é opcional”.

Correr, viver <3.

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