Era ansiedade que Prozac nenhum resolveria. Abertura da Copa do Mundo no Brasil, a terra do futebol com a seleção brasileira em si no campo. A tensão estava no ar, não só nos estilhaços de bomba e no gás de pimenta que ardia os olhos dos manifestantes anti-Copa a alguns quilômetros do Itaquerão, local do evento, muito menos na cara da presidente da República que foi vaiada e xingada durante a partida contra a Croácia. A tensão estava nos corações e nas mentes dos brasileiros e nenhum estoque de remédios contra a pressão alta para população carente daria jeito. Dez minutos depois de iniciada a partida, uma jogada de Daniel Alves fez com que Paulinho errasse no bote e deixasse livre o espaço para Olic cruzar e… pegar no pé esquerdo do lateral Marcelo para acontecer uma tragédia inesperada. Gol contra.

Sem trocadilhos, a seleção entrou com o pé esquerdo na partida. E, neste momento, traumas como a derrota para o Uruguai, na Copa de 1950, ou o pênalti perdido por Zico, na de 1986, no México, vieram carregadas de neurose. Porém, mais do que o futebol, veio também o valor simbólico do brasileiro sempre fazer gol contra o Brasil. Foi o gol que enterrou na rede algo muito profundo da alma brasileira. Nosso complexo que nunca daremos certo, só em um futuro distante, ou que tudo o que fazemos dará errado ou será meia-boca como nossos estádios, o show ginasiano da abertura da Copa ou mesmo no número reduzido de manifestantes contra o evento e a violência exagerada da polícia, tudo isto simbolicamente estava naquele pé esquerdo de Marcelo.

O gol contra, que nós brasileiros fazemos diariamente contra o Brasil, seja nas urnas (em quem elegemos e em quem não elegemos), seja no trânsito, seja em ações mínimas de falta de civilidade, estava vislumbrado naquele momento. E também nosso complexo de vira-lata, no pior dos sentidos, copiando o racismo europeu. Imediatamente depois do gol contra, Marcelo começou a ser xingado nas redes sociais com ofensas racistas e, como a banana de Daniel Alves, derrapamos no pior cópia dos chamados países civilizados.

Entretanto, o jogo continua. Logo após o gol, o goleiro Júlio César passou a mão na cabeça de Marcelo, de maneira afetiva, como que o consolando, como que querendo tirar os pensamentos ruins que devem tê-lo invadido naquele instante de tragédia grega, como uma espécie de benção, de remédio espiritual. De rendenção para alem da tragédia. E a torcida gritou seu nome como evocando um ritual xamânico de cura, mostrando o outro lado do Brasil. A dos brasileiros que são solidários, que dividem o pouco que não tem (no caso, naquele momento, eram gols). Surge luminoso este brasileiro de alma profunda que divide o erro que nem é dele. Depois da doença, a cura, e, para o brasileiro, ela só acontece de forma coletiva como os rituais indígenas da floresta.         

E vieram os gols. Dois de Neymar e um golaço de Oscar que também no fundo foram gols simbólicos da equipe, de Marcelo também. O gol contra de Marcelo e a sua superação nos mostram quantas possibilidades o país tem de virar a mesa. Somos todos Marcelo!

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