Responsável por revelar diversos jogadores profissionais e até mesmo craques que se destacaram ou ainda brilham com a camisa da seleção brasileira, o futebol de várzea, além de ser um celeiro de craques, é um terreno fértil de boas e inusitadas histórias. Atletas federados, de final de semana, de todas as idades, crenças e etnias podem ser encontrados pelos terrões e agora também gramados iluminados e sintéticos espalhados pela cidade.

A reportagem do Virgula Esporte foi até o bairro Parque Pinheiros, em Taboão da Serra, zona sul de São Paulo, para acompanhar uma partida da tradicional várzea paulistana. Lá, conhecemos Geraldo de Souza, de 53 anos de idade.

Comerciante ambulante durante a semana, Souza apita os jogos de futebol de final de semana das equipes do Estrela FC e do Sem Chance FC por hobby e é conhecido por todos como Simon, em alusão a Carlos Eugênio Simon, árbitro aposentado que possui características físicas semelhantes a dele.

Porém, ao contrário do que vemos em boa parte dos campos de várzea espalhados pelo Brasil e algumas vezes em jogos profissionais, “Simon da várzea” não cai na pressão do time da casa, e ajudar o mandante por estar jogando em seus domínios é algo que não se encaixa em sua conduta. Ao contrário. Ele é conhecido nos terrões de Taboão da Serra por sempre favorecer os clubes visitantes.

Quem confirma a informação é Alexandre de Jesus, presidente e atacante do Estrela FC, um dos times que jogam todos os domingos no campo do Parque Pinheiros. Ele explicou como é disputar uma partida apitada por um juiz que é conhecido por favorecer o adversário.

“Normalmente os árbitros da várzea favorecem os times da casa, arrastando o jogo até o time caseiro empatar, marcando pênaltis duvidosos etc. Para fugir dessa característica e apresentar um caráter de justiça, nosso Simon acaba fazendo vistas grossas em lances duvidosos, inverte falta, enfim, passa uma insegurança e normalmente acaba por desagradar as duas equipes”, explicou.

Sem confirmar se favorece ou não os visitantes, Geraldo “Simon”, que não recebe nada para apitar as partidas, culpa a falta de recursos em jogos da várzea por possíveis e sucessivos erros durante uma partida. 

“A diferença entre um juiz varzeano e os profissionais está no recurso. Os profissionais têm segurança, bandeirinhas, mesários e afins, coisas que faltam para a maioria dos árbitros”, resumiu “Simon”, na beira do gramado, minutos antes de iniciar o jogo.

Já para o atacante Alexandre de Jesus as atitudes do árbitro não chegam a ser de má-fé, mas muitas vezes o fato de ele ser uma pessoa conhecida e, mesmo assim, desfavorecer os times locais, faz com que o descontentamento seja geral. Tanto é que o juiz varzeano é um dos responsáveis pelo atacante-presidente não alcançar sua meta de 30 gols em 2013.

“Temos uma previsão de 49 jogos nesta temporada. No ano passado, com menos partidas, eu consegui marcar 18 gols e terminei o ano como artilheiro. Este ano, brinquei com o pessoal no vestiário que, com a expectativa de mais confrontos, a meta poderia ser ampliada para 30 gols. Porém, só no primeiro jogo o ‘Simon’ anulou três gols meus, sendo dois de falta, sem explicação. Até hoje eu pergunto pra ele o motivo pela anulação, e ele não soube explicar”, disse.

Além das dificuldades dentro de campo, Alexandre de Jesus explica as dificuldades de administrar um time de várzea fora das quatro linhas e ao mesmo tempo ter que atuar e fazer gols.
 
“Não é fácil. Primeiramente, como presidente, eu tento servir a equipe de todos os recursos necessários para só assim cobrar de cada um sua responsabilidade. Na verdade acaba sendo uma troca entre a fidelidade e a responsabilidade. Eu assumo a responsabilidade e eles se comprometem comigo. Por fim, atuar como atacante é o meu ofício, uma vez que cumpro dentro de campo um papel de finalizador com experiência e também uma liderança para os mais novos, acredito que faço o meu papel na medida do possível e necessário”, disse.

“O mais difícil é você conseguiu reunir 10 ou 15 pais de famílias ou jovens, todos os domingos, às 8h da manhã, em busca de um mesmo objetivo. Além disso, temos um compromisso mensal com a Liga Taboanense, que cobra R$ 80 por equipe para que os jogos sejam marcados com frequência”, completou.

Os jogos apitados por Geraldo “Simon” acontecem todos os domingos, a partir das 8h da manhã, no campo do Parque Pinheiro, localizado na Rua Helena Moraes de Oliveira, na cidade de Taboão da Serra, São Paulo. Um belo programa para os amantes da várzea.

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