Atrás de cada linha do horóscopo, existe alguém que a escreveu. Oscar Quiroga, argentino de 56 anos, é um deles e ocupa essa posição desde 1986, psicólogo de formação, ele nunca chegou a exercer a profissão, pois seu ofício de astrólogo já tinha tomado sua vida ao terminar a faculdade. E para quem dúvida de seu trabalho, ele avisa que prefere os céticos aos supersticiosos.

Em entrevista exclusiva ao Virgula Famosos, Quiroga, que previu o acidente na construção da linha amarela do metrô em 2007, falou sobre como descobriu sua vocação, como é a sua rotina de trabalho e outras curiosidades que cercam o seu ofício.

Leia abaixo a entrevista exclusiva do Virgula Famosos com Oscar Quiroga.

Virgula Famosos – Você é argentino. Por que você veio viver no Brasil?

Oscar Quiroga – Era uma época muito difícil no ano de 1978 (o país vivia sob ditadura militar comandada pelo general Jorge Rafael Videla). Havia muita paranoia, eu era jovem (21 anos), cabeludo; eu era um alvo muito específico para a época. Então, eu achei por bem dar um tempo da Argentina. Eu pensei em ir para a Alemanha e continuar meus estudos em medicina por lá, mas acabei vindo para São Paulo, onde estou até hoje.

Como você descobriu sua vocação para a astrologia?

Bem, primeiro eu queria dizer que ninguém se organiza para ser astrólogo. Não é algo que você diz quando os teus pais te perguntam o que você quer ser quando crescer. Astrologia é um tipo de ofício que vai sendo imposto pela vida. Eu te digo isso porque vocação eu descobri foi pelo conhecimento, um conhecimento geral, uma vontade de saber como o universo funciona. Então, eu comecei a estudar ioga, filosofia oriental e a astrologia; isso em 1978. No entanto, eu só fui praticar astrologia em 1985, que foi quando eu comecei a estudar psicologia na PUC-SP e eu não tinha dinheiro para pagar a faculdade. Então, comecei a fazer uns mapas astrais, umas oficinas sobre o tema e, quando eu me formei, o ofício de astrólogo já tinha grudado em mim.

O seus pais tinham familiaridade com a astrologia?

De jeito nenhum, eu sou filho de militar. Não era um militar clássico, como a gente pode imaginar, porque ele era contra a revolução. A maior parte da minha infância ele foi preso político. Então eu tive uma infância meio de ponta cabeça.

Como foi a reação de seus pais quando você contou que estava escrevendo sobre astrologia?

No início todo mundo torce o nariz, porque uma coluna de astrologia tem essa aura de ser charlatanice e, durante muito tempo, era mesmo. Eu soube através de um amigo meu jornalista que em algumas redações o horóscopo era a punição para jornalista que chegava atrasado. Então era uma coisa menosprezada, mas para mim foi a oportunidade de ocupar um lugar e fazer alguma coisa nesse lugar. Depois de alguns anos, a astrologia começou a ser mais apreciada e agora é um espaço que todo mundo cobiça.

Como é a sua rotina de trabalho?

Eu acordo muito cedo, às 4h30, para meditar e fico até umas 6h30. A partir deste momento eu começo a escrever as minhas colunas para jornal. Então as manhãs são destinadas a escrever e à elaboração dos mapas das pessoas que eu vou atender no período da tarde.

Como você faz para escrever uma coluna que é lida por tantas pessoas?

A gente tem uma mania de fazer valer o que nos torna únicos e originais em vez do que nossas semelhanças. No entanto, nós temos muito mais características em comum do que diferenças. E eu escrevo para esta dimensão. Eu escrevo de uma forma que cada pessoa consiga colocar nas entrelinhas o seu assunto particular, que eu, como astrólogo, desconheço. Eu conheço o espírito do que está acontecendo, os detalhes particulares, cada um tem que ter o trabalho de lê-los nas entrelinhas.

No seu ofício, quanto é intuição e quanto é estudo?

Uma coisa está ligada a outra, pois é tudo junto que se consolida uma percepção. Não é sentir apenas, é uma percepção do que está em movimento. E foram muitos anos de estudo até essa percepção se consolidar. O trabalho de escrever uma coluna de horóscopo tem um desenho matemático do céu com as órbitas dos planetas, a percepção, e uma outra parte que é literária, que é a tradução dessa percepção.

Quais são os grandes mitos em relação à astrologia?

Quando a pessoa tem tendência a ser supersticiosa, ela é supersticiosa com todas as coisas e a astrologia se torna apenas um elemento a mais dessa visão. Eu particularmente aprecio mais os céticos, porque têm uma leitura mais apurada dos fatos e, para mim, é muito mais satisfatório receber pessoas que são céticas, mas ao lerem minha coluna encontram algo que faz sentido e, depois de uma consulta, elas saem daqui com uma ideia mais esclarecida do que é astrologia. Tem também um conceito muito equivocado do que é a astrologia, além de todos os preconceitos bíblicos. O próprio conceito enciclopédico, que a define como o estudo da influência dos astros sobre a vida humana, é ruim. Não é uma relação de causa e efeito, é um existir integrado a uma ordem, que, apesar de não podermos explica-la, ela existe e se deixa entrever através de algumas pistas.

E o retorno de Saturno?

A gente precisa fazer algumas coisas em nossas vidas e é para isso que a gente nasce. O nosso problema é que não sabemos quais são essas coisas. Nós temos pressentimentos, suspeitas, vocações, impulsos, mas a regra do jogo no mundo é o livre arbítrio e isso embaralha tudo. Então, de tempos em tempos, para que a gente não se desvie muito, ocorre o retorno de Saturno, que tem a função de lembrar definições um pouco mais aproximadas do que seria o projeto de cada um. Então, quando Saturno dá uma volta completa no teu horóscopo e retorna ao ponto em que estava quando você nasceu, se dá o retorno de Saturno, que ocorre a cada 28, 29 anos. Então, eles são importantes porque dão uma atualizada na consciência das pessoas.

Como é o seu convívio familiar? Você já consultou a astrologia para deixar seus filhos irem ou não a uma festa?

Não (risos). Eu não sou tão frenético assim. Quando a gente começa a praticar o ofício, a gente fica muito frenético, muito monotemático. Eu, com o tempo, tento desenvolver mais uma percepção. Eu vou ver matematicamente algum acontecido depois dele ocorrer, não antes. Então, quando acontece algo com meu filho, ou alguma pessoa próxima, eu olho o mapa para ver o que está em andamento, mas não antes.

Você chegou a morar na rua por dez dias porque estava sem dinheiro. Como foi essa experiência?

Foi uma merda (risos). O que mais que eu posso dizer? Não é recomendável para ninguém. Era uma época muito dura, eu ainda não conhecia ninguém em São Paulo.

Você previu o incidente no show dos Racionais na Virada Cultural e o acidente na construção da linha amarela do metrô, ambos ocorridos em 2007. Como foi isso?

Eu fazia uma coluna, que não existe mais, no jornal O Estado de São Paulo que era bem mais matemática e ortodoxa do que a que eu tenho hoje no Caderno 2 (no mesmo jornal). E teve essas duas coisas que eu acertei bem em cheio.

É verdade que José Serra (governador do estado de São Paulo entre 2007 e 2010) começou a consultar com você depois destes acontecimentos?

Não foi por conta desses acontecimentos. Ele começou a me consultar como muitas outras pessoas o fazem, mas ele fez isso também só no início. Não tem como acompanhar político, eles são muito desobedientes (risos)…


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‘Aprecio mais os céticos do que os supersticiosos’, diz o astrólogo Oscar Quiroga