Carlos Alberto de Nóbrega, de 77 anos, é filho de Manuel de Nóbrega que criou o humorístico A Praça da Alegria. Nos moldes do pai, ele comanda há 26 anos o programa A Praça É Nossa, atualmente dirigido por seu filho. Entretanto, sua carreira começou antes do hoje considerado um clássico do humor que ainda está no ar. Nomes como Ronald Golias e Chico Anysio foram seus amigos e colegas de trabalho.

Em entrevista exclusiva ao Virgula Famosos, ele contou sobre como é fazer o programa, sobre sua amizade com Chico Anysio que ligava às 3h da manhã para falar de trabalho, seu método para conseguir o que quer com Silvio Santos e sua relação com Hebe Camargo, que morreu em 2012.

Leia abaixo a entrevista exclusiva com Carlos Alberto de Nóbrega.

Virgula Famosos – Como é fazer A Praça É Nossa, depois de 26 anos no ar?

Carlos Alberto de Nóbrega – Ficou uma coisa meio automática. É como você acordar, escovar os dentes, lavar o rosto, tomar banho. Depois de tantos anos, aquilo passa a fazer parte do seu cotidiano. Eu não fico ansioso ou nervoso, eu decoro com muita facilidade. É muito tranquilo.

Você consegue se surpreender nas gravações?

Não, se eu disser que sim estarei mentindo. Não é irresponsabilidade não, é certeza do que estou fazendo, é como pegar um carro e sair dirigindo depois de 30 anos de carteira de motorista. Eu tenho 59 anos de carreira. Tem artista que fala: “Cada dia é um dia, cada programa é uma estreia”. Entretanto, lá (n’A Praça É Nossa) não tem disso. Tem nos jovens humoristas, que estão começando agora. Às vezes, eu passo a mão no braço deles e está gelado, mas isso é natural. Comigo não, é bem tranquilo fazer. E quero continuar fazendo, por mais quatro anos no mínimo.

Você se imagina fazendo outra coisa que não A Praça É Nossa?

Não. Não imagino. Eu adoro fazer, a terça-feira (dia de gravação) é o meu domingo. Eu nunca fui apresentador. A Praça É Nossa é o único programa no mundo em que o “escada” é que é a estrela, é quem comanda a atração, normalmente quem faz isso é o humorista. Eu não sou humorista. Aliás, eu sou, mas escrevendo. Eu escrevo coisas que eu espero que sejam engraçadas, mas eu não sou engraçado, eu não sou comediante.

Dos 26 anos de existência do programa, tem algum quadro ou comediante que você sente mais falta?

Sim, o (RonaldGolias. Sem dúvida alguma ele é de quem eu mais sinto falta, como amigo e como colega de trabalho. Ele era um gênio, não surgirá outro tão cedo. Quando o Marcelo (de Nóbrega), meu filho, estava começando a dirigir o programa, o Golias falou uma palavra, que a inflexão que ele deu, fez todo mundo rir. Eu falei baixo no ouvido do Marcelo: “Essa é a diferença entre um comediante e um gênio”. O Golias falava: “O que foi?” e era engraçado. Trabalhei com ele quase 50 anos e não me lembro dele chegar um dia sem ter decorado o texto. Tem também a Velha Surda, que foi o quadro que mais marcou, não só A Praça É Nossa, como A Praça da Alegria.

Uma vez você afirmou, em uma entrevista, que tinha um acordo de troca de humoristas com o Chico Anysio. Como era isso?

Nós éramos muito amigos. O que acontecia era que, às vezes, ele ligava para mim e dizia: “Carlinhos, eu estava precisando tirar fulano, porque ele mora em São Paulo e a Globo não quer mais pagar avião e hotel para ele, vê se você não consegue encaixá-lo na Praça…”. E a recíproca era verdadeira. Por exemplo, o Walter D’Ávila. Ele já estava bem idoso e já não podia mais vir para São Paulo porque cansava. Eu falei: “Chico, eu vou ter que abrir mão dele. Você não quer pegar ele para botar na Escolinha…”.

Como era sua relação com o Chico Anysio?

Tem dois colegas pelos quais eu tenho um profundo respeito. Um é o Carlos Manga, que me ensinou a dirigir, e o outro é o Chico Anysio, pela versatilidade, pela inteligência, pela rapidez de raciocínio. Era um sujeito dez anos à frente da gente. Às vezes, ele ligava para mim de madrugada para conversar, 2h da manhã, 3h da manhã, porque ele não dormia. Eu tinha filho adolescente que estava na rua, eu acordava apavorado com o telefone tocando e era o Chico. Ele dizia: “Carlinhos, aquele quadro está chato, tira aquilo”, ou: “Carlinhos, tem um quadro que eu estou querendo fazer, que eu abro a bolsa de uma mulher e começo a tirar coisas lá de dentro, coisas engraçadas. Você não pode escrever para mim?”.

Você era bastante amigo de Hebe Camargo. O que você mais sente falta?

Eu sinto falta das conversas noturnas, porque essa gente não dorme e liga para mim (risos). Eu e a Hebe éramos confidentes, tanto que ela foi madrinha do meu primeiro casamento, em 1956. Ela me ajudou muito quando me separei há quatro anos (de Andréa de Nóbrega). Quando ela saiu do SBT, eu falei muito para ela não fazer isso, mas ela quis ir. Depois, ela voltou e quem fez a Hebe voltar foi o Jassa (cabeleireiro de Silvio Santos]. Então, o que eu sinto é o vazio que ela deixou. Ninguém é insubstituível, mas não apareceu ninguém para ocupar o lugar dela. E não se fala em Hebe Camargo, é impressionante. Não tem uma sala no SBT com o nome dela. Eu tentei fazer isso, mas televisão é muito fria sabe…

Você falou da sua amizade com Golias, com o Chico Anysio, com a Hebe Camargo. Essa camaradagem que existia na TV acabou?

Acabou. Isso não existe mais. Antigamente, quando eu estava na Record, por exemplo, a gente gravava A Família Trapo na segunda-feira. Acabava a gravação, a gente saía para jantar juntos. Toda semana. A gente se frequentava. Isso acabou. Recentemente, morreu um colega e faltava mão para carregar o caixão. São seis alças no caixão e não tinha mão para carregar, só porque ele morreu de Aids. Deve ser isso, eu não sei. É uma coisa revoltante, essa frieza. Existia a camaradagem na hora que está gravando, mas acaba e cada um vai embora. O Marcelo (de Nóbrega) até tenta reunir o pessoal para um churrasco, mas só vai figurante. Entretanto, a vida ficou assim, em casa é a mesma coisa. Antes, depois de um jantar, a família ficava reunida, conversando. Hoje os filhos ficam no iPad, no computador. Isso é péssimo.

Você acompanha os humoristas?

Todos eles, e dou oportunidade. Outro dia foi um garoto, chamado Thiago Gonçalo, gravar pela segunda vez porque eu acredito muito nele. É um menino, tem 20, 21 anos. Ele foi ao programa do Silvio Santos fazer umas imitações e quando vi, falei: “Esse cara é bom”. No dia seguinte, eu peguei o telefone e liguei para ele chamando para A Praça É Nossa. A Marlei Cevada, que faz a Nina n’A Praça É Nossa, foi a mesma coisa. O Silvio fez um concurso de humorista e ela ficou em terceiro lugar, mas eu gostei dela e falei para o Marcelo chamá-la. Ela ficou encabulada: “Mas Carlos, eu perdi”. Eu respondi: “Perdeu nada, você era a única boa dali”.

Como é sua relação com Silvio Santos?

Profissional. Ele tem um respeito e um carinho por mim. Eu não sei se é fraternal ou paternal. No entanto, a gente quase não se fala, porque ele é muito ocupado. No dia que ele está ensaiando, não entra ninguém no estúdio, e se você chega para pedir algo, ele já te olha de cara feia porque você está pedindo um favor. Então, eu aprendi a falar com ele por bilhetes. Eu escrevo bilhetinhos e entrego. Ele vai ler e não vai dar bola, mas o papel continua lá, ele não vai rasgar. E eu consigo tudo o que eu quero com os meus bilhetinhos (risos). Outro dia ele, me parou no estacionamento (Carlos Alberto de Nóbrega, ao lado de Eliana, são os únicos funcionários do SBT, além de Silvio, que tem vaga coberta no estacionamento) e perguntou: “Quantos carros você tem?”. Eu adoro automóvel, tenho três Mercedes, e ele não. Ele tem um Passat do século passado e outro carro velho. Como eu estava para renovar contrato no SBT, eu disse: “Não, esse daí é do Marcelo…” (risos).

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