O Reino Unido (contra) da Era Thatcher

Margaret Thatcher em frente da 10 Downing Street, a casa dos primeiros-ministros, em 1979. Ela moraria por lá até 1990 e sua passagem pelo poder ficou conhecida como Era Thatcher

Por essas ironias do destino, nesta quarta-feira (13), enquanto os mineiros da Mina São José, no deserto do Atacama, no Chile, são resgatados como heróis, Margaret Thatcher, a mulher responsável por submergir e silenciar os mineradores e os sindicatos do Reino Unido na década de 80, faz 85 anos.

Uma das mulheres mais importantes do século 20, ela foi líder do Partido Conservador Inglês e Primeira-Ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, a chamada Era Thatcher. Além disso, foi difusora de boa parte das políticas econômicas empregadas nos países capitalistas até hoje, inclusive o Brasil de Lula. Ficou conhecida como Dama de Ferro e não foi impunemente.

Retirou benefícios de aposentados, acabou com o salário mínimo, privatizou estatais e fechou minas de carvão, por considerar que davam prejuízo. Essa medida foi a gota d’água para o poderoso Sindicato dos Mineradores, que carregava a tradição da Revolução Industrial e da luta operária em suas costas, entrar em confronto com Thatcher. Porém, ela não arredou um milímetro frente às reinvindicações dos mineiros, que entraram em greve em 1984. Um ano depois, eles estavam completamente derrotados, nem a opinião pública, que no início os apoiava com 70%, estava do seu lado. O movimento operário do mundo todo sofre uma drástica mudança com essa derrota, e os sindicatos ingleses ficam a mercê da mulher mais poderosa do mundo.

Vídeo em inglês sobre a importante greve:

Na política externa, ela também não se mostra fácil. Entra em guerra com a Argentina, pela retomada das Ilhas Malvinas, assim como é uma das responsáveis pelo desmoronamento do bloco soviético.

Claro que tamanho conservadorismo resultou em uma crítica acirrada dentro da própria Inglaterra ao seu governo. E, involuntariamente, ao deixar de financiar projetos culturais Thatcher acabou criando uma rica cena cultural que se opôs a ela e soube se impôr sem sua ajuda.

Na música, surgiram os selos independentes e Morrissey, vocalista do The Smiths e uma das vozes dos jovens da época, declarou em 1984: “Ela é apenas uma pessoa. Ela pode ser destruída, é o único remédio para este país no momento…”. E no seu primeiro álbum solo, Viva Hate, compôs Margaret on the Guillotine [Margaret na Guilhotina].

Assim como a cena musical floresceu criticando e sem o respaldo de Thatcher, no cinema acontece algo inédito e que também irá influenciar o mundo posteriormente. Cineastas se associam à televisão para fazer filmes. O canal de TV Channel Four ajuda a propagar um novo cinema vindo das terras da Rainha. Nomes como Peter Greenaway, Stephen Frears e Derek Jarman começam a entrar no circuito de festivais com excelentes críticas.

A força das mudanças feitas por Margaret Thatcher obteve respostas e críticas que só fortaleceram a tal cultura britânica e elas só puderam vir à tona porque, por mais conservadora que fosse, Thatcher nunca desafiou a democracia, mesmo na data de hoje, enquanto os mineiros do Chile quase nos fizeram esquecer de seu aniversário.

Criadora involuntária de uma rica cena cultural no Reino Unido, Thatcher faz 85 anos hoje

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