O nome do momento, sem dúvida, é Valesca Popozuda. Mas diferentemente de outras celebridades que ficaram no auge durante um tempo e que vieram de áreas que não são consideradas nem da elite econômica nem cultural, a funkeira vem sofrendo uma espécie de glamourização. Algo muito semelhante ao que o dramaturgo Bernard Shaw escreveu em sua peça Pigmalião (no cinema, a história recebeu o nome de My Fair Lady), sobre uma mulher simples, que um cultíssimo professor resolve transformá-la em uma dama da alta sociedade.

Em certo sentido, este professor, em parte, é a própria imprensa que vem noticiando, mesmo que às vezes os boatos sejam falsos, cada passo da mudança de estilo e comportamento da funkeira. E tudo isto aconteceu depois que seu clipe Beijinho no Ombro, que ela garante que gastou de seu próprio bolso R$ 437 mil reais, virou sucesso absoluto.

Com um hit nas mãos e um clipe super bem produzido, começou, então, uma espécie de lipoaspiração da imagem de funkeira para alguém mais “elegante”. Antes mesmo do Carnaval, ela declarou que tinha parado com a malhação para não ficar com o corpo muito grande (a famosa “gostosa”) e, por fim, ficar com uma aparência mais fashion.

E os fashionistas e o mundo da moda (a outra metade que também banca o professor de Valesca) entenderam o recado, tanto que foi a presença mais que comemorada e tietada nos dois eventos de moda mais importantes do Brasil: o SPFW e o Fashion Rio. No primeiro, furou o sempre forte bloqueio que cerca a presença da top Gisele Bündchen e conseguiu tirar uma foto com a übermodel fazendo o gesto de beijinho do ombro.

No melhor estilo funk ostentação, ela apareceu no evento de moda carioca com uma bolsa caríssima, uma clutch Chanel de nada menos que R$ 20 mil. Ela fez a encomenda para um amigo que mora em Londres. “Eu mereço um carinho desses”.

Reconhecendo seu potencial fashion, a revista Joyce Pascowitch a remodelou e a trouxe na edição de abril muito diva, com os looks da tendência masculino-feminino, tirando o ar sexy que até então rondava a funkeira. Além disso, ela também realizou um ensaio para a Vogue Brasil em março.

Mas tudo tem um limite, a notícia que tiraria o silicone do bumbum para ficar mais elegante, foi desmentida pela própria Valesca. 

Com todo este namoro com o universo fashion e a imprensa, Valesca acabou parando em uma prova do ensino público. A questão: “Segundo a grande pensadora contemporânea Valesca Popozuda, se bater de frente é: A – tiro, porrada e bomba; B – é só beijinho no ombro; C – recalque; D – é vida longa”. Isto é, virou citação “intelectual”, outro fator de status.

A glamourização da funkeira se dá em um momento da queda da ascensão econômica da classe C e D. Valesca representa a pessoa mais simples (não que ela seja simples ou pobre, apenas representa) que investiu (dinheiro), gastou (dinheiro), consumiu e consume (bens e produtos) e assim consegue algo na vida. É um sinal social (da elite) para que o esforço continue sendo feito, apesar de todas as dificuldades atuais. Se tais classes querem alcançar a fama, o sucesso e o paraíso dos bens de consumo, continuem comprando, investindo. Independente do talento ou não da funkeira, outro fator de sua glamourização é que, diferente de uma Deize Tigresa ou Tati Quebra-Barraco, ela é loira (tingida ou não, pouco importa) e branca. Enfim, nada de novo no front. Beijim no ombro!

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