Talvez poucos saibam, mas Miguel Pereira, município do centro-sul fluminense, foi escolhido por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, como residência de fim de semana, onde revivia a paz e tranquilidade das suas origens nordestinas ao lado da família, incluindo o filho, Gonzaguinha, já nascido no Rio. Um dos principais guardiões desta história é Sebastião Deister, atual sub-secretário municipal de Educação, Cultura e Esporte, que ao longo de doze anos pesquisou a história do Vale do Paraíba e é autor de uma coleção de sete livros sobre o tema, dedicando especial atenção à cidade de Miguel Pereira, de onde é natural.

Sebastião conta que, em 1957, o músico nordestino mais aclamado do país, morador do Rio de Janeiro, estava cansado de viajar pelo Brasil para fazer shows e da sua relação conflituosa com o filho adolescente rebelde – que viria a se tornar o famoso cantor e compositor Gonzaguinha – e decidiu se instalar em um lugar perto da capital, onde pudesse reencontrar a paz do sertão. Miguel Pereira, a cerca de 150 km, foi a cidade escolhida, onde passou a administrar uma fazenda na estrada de Ferreiros, batizada de Asa Branca, em homenagem à sua canção mais popular. “Acredita-se que ele tenha feito isso para trazer o filho rebelde para o convívio simplório e tranquilo de amigos do interior, que pudessem conquistá-lo e fazê-lo esquecer as companhias perigosas do morro do São Carlos”, conta Deister, em referência à vida marginal que Gonzaguinha levava no Rio. “Aqui, ele estudou um tempo em um colégio no distrito de Conrado”, diz.

Rapidamente o Rei do Baião se enturmou entre os moradores da pequena cidade fluminense e criou estreita relação com os seus personagens mais influentes, como o então prefeito, Frederico Wangler. “Nas festas de Santo Antônio realizadas entre 1957 e 1960, Gonzagão conduzia uma inusitada caravana pela cidade. Chegava ao largo da Igreja com um grande lençol e pedia aos cidadãos que o sustentassem pelas extremidades e o carregassem aberto à sua frente. Atrás, ele vinha com seus trajes nordestinos característicos, tocando sua sanfona branca e cantado seus sucessos a plenos pulmões”, conta o professor.

Quando o município celebrou sua emancipação e alguns cidadãos começaram a se reunir em torno da ideia de construir um hospital, em 1957, rapidamente o artista se juntou ao grupo e se moveu para alcançar o objetivo, segundo Deister. Passou a participar de shows populares na cidade para arrecadar dinheiro e incentivar as pessoas a participarem da construção do Hospital da Fundação. “A campanha teve muito êxito. Com a participação da prefeitura e graças à chegada de generosas contribuições do Estado, doações dos sócios fundadores e da população miguelense, em julho de 1958 foi lançada a pedra fundamental do Hospital Santo Antônio da Estiva, da Fundação Miguel Pereira, inaugurado dois anos depois”, conta Deister. No mesmo ano, Helena Gonzaga, mulher do Rei do Baião, foi eleita vereadora em Miguel Pereira em 1958, pela hoje extinta UDN (União Democrática Nacional).

Outro episódio marcante da passagem de Luiz Gonzaga por Miguel Pereira foi um acidente rodoviário, em 1961, numa das viagens entre o Rio e o interior, que lhe valeu uma cicatriz no olho direito. Gonzaguinha e o músico Catamilho seguiam no mesmo carro, mas não sofreram ferimentos graves.

Em 1964, Gonzagão realizou o sonho de comprar um terreno em Exu, sua terra natal, no sertão de Pernambuco, e na mesma época se desfez da fazenda Asa Branca. Não partiu sem antes deixar duas músicas compostas sob a inspiração de Miguel Pereira e de seus personagens: “Forró de Cabo a Rabo”, que cita o ex-prefeito Zé Nabo, e “Boi Bumbá ou A Partilha do Boi”, na qual fala de um boi enviado a Miguel Pereira que teve a carne dividida entre famílias abastadas da cidade.

“Hoje a passagem de Luiz Gonzaga é um marco muito importante para o município. Ele morou por seis anos na casa de uma de minhas irmãs, razão pela qual mantive vários contatos com ele, com Helena e os filhos Gonzaguinha e Rosinha. Na época, eu tinha apenas 17 anos e não tinha condições de medir a importância e densidade daquele notável artista”, lembra o sub-secretário. “Lembro bem do Gonzagão no quintal da casa, com chinelão nordestino, gibão de couro e sua indefectível sanfona, às vezes tocando, às vezes compondo. Uma característica sua que nunca esqueci foi o sorriso, nunca o vi aborrecido. Ele estava sempre sorrindo, parecia um homem feliz e apaixonado”, relembra Deister. O neto Daniel, filho de Gonzaguinha, ainda mora na cidade, assim como os sobrinhos Luís Alberto e Adriana.

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