O filme Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, tem causado polêmica devido a alguns espectadores que ficaram chocados com as cenas de sexo gay do longa e outros que se indignaram, por sua vez, com a postura do cinema em advertir o espectador sobre o conteúdo do filme. Nada que faça o ator Jesuíta Barbosa, de 22 anos, se arrepender de ter participado do projeto.

Ele não protagoniza as tais cenas de sexo gay do filme, mas poderia tê-las feito, como já fez em Tatuagem, seu longa anterior, dirigido por Hilton Lacerda. E sua opinião sobre o assunto é clara: a polêmica é em si triste, mas boa por gerar uma discussão sobre um tema que está mais do que na hora de ser assumido.

Em entrevista exclusiva ao Virgula Famosos, Jesuíta Barbosa falou sobre a polêmica de Praia do Futuro, sobre o universo gay no cinema brasileiro, sobre o grupo de teatro que ele faz parte e que investiga a transexualidade e sobre o remake da novela O Rebu, em que ele interpreta o personagem que ficou a cargo de Lima Duarte no original.

Veja abaixo a entrevista do Virgula Famosos com Jesuíta Barbosa.

Virgula Famosos – Como foi fazer o filme Praia do Futuro?

Jesuíta Barbosa – Foi uma experiência muito reveladora. Foi o meu segundo longa e o primeiro que me fez viajar, eu nunca tinha saído de Fortaleza. O Ayrton (seu personagem no longa) é bem diferente de mim, eu acho que ele tem mais chão do que eu, ele tem uma força que eu não tenho.

A preparadora de elenco de Praia do Futuro foi Fátima Toledo, que exerce essa função desde Pixote, A Lei do Mais Fraco, de 1981, já trabalhou em filmes como Tropa de Elite, Cidade de Deus e que acredita que “ator tem que se sentir inseguro” para atuar. Como foi a preparação para o papel?

A Fátima trabalha com o íntimo do ator, o mais difícil é você se entregar, ficar disponível para o método. O ser humano tem muitas barreiras, mas eu acho que foi muito importante para mim, para eu descobrir quem era o meu personagem.

Um espectador de João Pessoa disse que seu ingresso recebeu um carimbo “avisado” após o funcionário do cinema questioná-lo se ele tinha certeza que desejava ver um filme com cenas de sexo gay…

Eu soube também que teve quem saiu da sala dizendo que ia bater no gerente. A gente está em um momento ainda muito careta. Existe esse discurso de que o Brasil é um país que está melhorando no sentido da aceitação da diversidade sexual, mas quando acontece coisas como essas, nós percebemos que ainda estamos longe. Eu fico triste. Pessoas saindo da sala era algo que eu já esperava, mas sair da sala querendo agredir o gerente… Isso é preconceito, é vergonhoso.

Antes de Praia do Futuro, você fez Tatuagem, que aborda a cultura gay de forma mais escancarada. Como foi a recepção do filme?

Foi incrível, mas é um público menor também do que Praia do Futuro. Desde o começo, nós já esperávamos uma boa recepção do filme, pois ele é muito poético e delicado.

Vocês já esperavam pela polêmica em Praia do Futuro?

O Wagner Moura (protagonista de Praia do Futuro) ainda é muito associado a seu personagem em Tropa de Elite, (Capitão Nascimento que faz o estilo machão) e acho que ele foi bem feliz em fazer Praia do Futuro. Ao mesmo tempo que é vergonhoso que certas coisas aconteçam, elas são positivas porque geram uma discussão.

Em uma entrevista recente você disse que o cinema tinha que se assumir…

Não dá para ficar dividindo as coisas. Eu não entendo isso, são personagens que se apaixonam, que têm suas questões e o fato de ser gay é apenas uma delas. Eu não tenho medo nenhum de ficar marcado por um personagem. Agora, o que eu quis dizer é que nós precisamos abordar essas temáticas, mas elas não podem virar uma questão. O gay tem que ser abordado como uma temática no cinema, não como uma questão, um problema. É isso que devemos assumir, a temática.

O cinema brasileiro é enrustido?

Não mais, nós estamos numa fase de abertura. Nós temos desde personagens caricatos, até aqueles que tem essa temática abordada de outra maneira, como um fato. A diversidade sexual é um fato.

Voltando um pouco na sua carreira, antes do cinema você participou de um grupo de teatro chamado As Travestidas, que investiga, em seus trabalhos, o universo transexual…

Eu ainda me considero parte do grupo, embora não esteja trabalhando com eles agora. Silvero Pereira, o criador do coletivo, trabalha essa questão há mais de dez anos. Eu quero voltar para Fortaleza e fazer algo com eles, a gente continua se falando, eles são meus amigos mais próximos.

Apesar da sua curta carreira você tem recebido muitos elogios de seus colegas de trabalho, além de já ter recebido um prêmio por sua atuação em Tatuagem. Você conseguiu absorver tudo isso?

Eu fico tão feliz de receber elogios, ainda mais de pessoas com carreiras tão consolidadas. O que eu acho é que, a única coisa que eu posso fazer é continuar seguindo o meu caminho do modo que eu tenho feito, do modo que eu acredito, com a força de raiz e a entrega que eu acho que têm que existir. Por isso que eu gosto de voltar para Fortaleza.

Você está gravando O Rebu, remake da novela exibida originalmente em 1974, que será exibido às 23h. O que você pode falar sobre o papel?

Eu faço um personagem, interpretado por Lima Duarte no original, que é marginalizado na trama que é ambientada em uma festa e dura ao todo, cronologicamente falando, apenas 24 horas. O meu personagem consegue um convite para festa em um assalto e vai até o local com intenção de cometer outro delito, mas acaba querendo se divertir.

Quais são seus próximos projetos?

Eu não tenho projeto certo, mas eu estou na cola do Cacá Diegues para fazer seu novo filme O Grande Circo Místico, que tem um roteiro muito bonito, espero que dê certo de eu participar. Também quero voltar a fazer teatro, que é uma das coisas que eu mais sinto falta.

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