Há exatos quatro anos, o primeiro empresário-celebridade da história morria. Malcolm McLaren, muito antes de Steve Jobs, soube como fazer negócios e arte, ou como transformar negócios em arte e, depois, transformar tudo em grana. “Cash to chaos” (“dinheiro a partir do caos”) era seu lema e, apesar da fama de vigarista, trambiqueiro, sempre foi íntegro com esta frase, quase como um grito de guerra. Acontecia então, mesmo morto, a sua última performance pelas ruas de Londres, uma louvação ao movimento punk que ele soube moldar através da banda que criou, o Sex Pistols.

Ele declarou guerra contra o establishment desde cedo. Entusiasmado pelos situacionistas franceses, que foram muito atuantes nas manifestações de Maio de 68, McLaren levou muito de suas teorias, que acreditava nas liberdades individuais para sair da alienação social, para a construção do movimento punk na Inglaterra dos anos 1970.

Claro que antes da bomba terrorista que ia deixar no colo da Rainha da Inglaterra, ele foi beber na fonte americana. É o único inglês muitas vezes citado no Please Kill Me (Mate-me, Por Favor, no Brasil), livro escrito por Larry “Legs” McNeil e Gilliam McCain e que mostra como, de forma pouco organizada, o punk já estava presente nos Estados Unidos antes de sua aparição espetacular (e só é espetacular porque tinha como mentor McLaren) no Reino Unido. No livro, ele aparece já em Nova York empresariando o grupo de glam andrógino New York Dolls e depois fazendo uma turnê (mal sucedida) com eles pelos Estados Unidos.

Como escreveu o jornalista Camilo Rocha:  “O NYD não vingou, apesar do público cult, mas serviu para McLaren aprender algumas coisas sobre táticas de marketing pop baseadas em choque e controvérsia”.

Em 1971, McLaren já tinha aberto em Londres uma loja de roupas com a estilista Vivienne Westwood, então sua mulher na época, chamada Let It Rock (depois rebatizada de Sex e já com os elementos, como alfinetes nas roupas, rasgos e a cultura sadomasoquista, que mais tarde identificaríamos com o vestuário punk).

Mais consciente de sua posição, ele forma a banda The Sex Pistols em sua boutique. Exatamente por isto não existe nada de errado no chamado “punk de boutique”. Em maio de 1977, a banda lançou o God Save the Queen, durante a semana do Jubileu de Prata da Rainha Elizabeth 2ª. McLaren organizou, então, uma viagem de barco pelo Tâmisa, onde os Sex Pistols cantaram suas músicas em frente ao Parlamento britãnico. A polícia invadiu o barco e todos foram presos, estava feita a publicidade do movimento que iria ficar famoso mundialmente como punk.

Depois dos Pistols, McLaren se envolveu com o rap e com outros projetos como Adam and the Ants, Bow Wow Wow e Jimmy The Hoover, Além disso, criou o experimental álbum Paris, nos anos 1990, que teve participação da atriz Catherine Deneuve.

Mas sua última performance foi seu próprio enterro. Com uma carruagem carregando seu corpo para Highgate, o mesmo cemitério que está enterrado o filósofo Karl Marx, e um ônibus de dois andares tocando punk rock, as pessoas, nas ruas de Londres, aplaudiam por onde o cortejo fúnebre passava.

E a mesma indolência punk continuou viva nos discursos fúnebres. Quando Vivienne Westwood falava, alguém gritou do fundo: “Trata-se de Malcolm, não de você. Você é parte do establishment agora!”.

Em um outro discurso, fora do oratório, Bernard Rhodes alertou:  “Se não tivermos cuidado, vamos transformar Malcolm em John Lennon, em um santo. Malcolm não era nenhum santo”. E, ao som de My Way cantada por Sid Vicious, seu corpo foi sepultado.

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