Há exatos 24 anos, no dia 17 de maio de 1990, a OMS (Organização Mundial de Saúde) excluía a homossexualidade da CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde). A data, desde então, foi instituída como o Dia Internacional Contra a Homofobia. Para não deixar a efeméride passar em branco, o Virgula Famosos bateu um papo como ator Ghilherme Lobo.

Lobo, que tem apenas 19 anos, é o protagonista do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que já foi assistido por mais de 150 mil espectadores, além de ter recebido os prêmios FIPRESCI (escolhido pela crítica) e o Teddy Awards (que premia filmes com temática gay) no festival de Berlin deste ano.

Antes do longa, o ator interpretou o mesmo personagem no curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, que, até a publicação desta matéria, contabilizava 3.439.054 visualizações no YouTube. Muitas desses cliques foram impulsionados pela censura que o curta sofreu ao ser confundido com o kit anti-homofobia, no Acre, em 2011.

Para contar estas e outras histórias, ninguém melhor do que Ghilherme Lobo, protagonista delas. Leia abaixo a entrevista exclusiva do Virgula Famosos com o ator.

 

Virgula Famosos – Como você entrou para o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho?

Ghilherme Lobo – Eu entrei no curta por meio de testes. Um amigo meu, que conhecia a preparadora de elenco, me avisou e eu fui fazer. Não sabia muita coisa do projeto, mas as duas cenas que eu recebi para o teste deixavam claro que era um personagem cego que estava se descobrindo homossexual.

O que foi mais difícil para você? Interpretar um cego ou um homossexual?

Com certeza interpretar um cego foi a parte mais difícil. A sexualidade do personagem aparece de uma forma muito sutil e simples. O filme não tem nenhum segredo, não esconde nada de ninguém.

Como você se preparou para fazer um cego?

Eu, o Fábio Audi e a Tess Amorim (atores do curta cujos personagens não são cegos) tivemos aulas de braile com uma senhora cega. Ela também nos mostrou como um cego se porta e como alguém deve guiar um cego.

Você tinha 15 anos quando o curta foi lançado. Como foi a repercussão no colégio?

Na verdade, quando o curta foi lançado quase ninguém viu. Só depois que ele passou por festivais e foi parar no Youtube, que as pessoas viram. A repercussão foi ótima, ninguém chegou para mim e disse que achava que o curta era ruim.

Antes de você interpretar um homossexual no cinema, você é bailarino e já participou de alguns espetáculos. É um ofício que também é alvo de preconceito. Você sentiu esse preconceito? Ou como bailarino ou como interprete de um personagem gay?

Minha família é composta de artistas, meu pai é musico e minha mãe, cantora. Então, eu sempre tive apoio familiar. Agora, no colégio, eu senti um pouco de preconceito com relação ao balé. Eu comecei a fazer balé aos sete anos. Quando eu tinha uns doze anos, alguns alunos mais velhos me sacaneavam associando o balé à homossexualidade, e eu me incomodava. No entanto, eu saquei que se eu não desse importância a isso, as pessoas iriam parar de me encher o saco, e foi o que aconteceu.

Hoje, 17 de maio, é o Dia da Luta contra a Homofobia. Em 2011, o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, que integrava o programa Cine Educação foi censurado no Acre por ser confundido com o “kit anti-homofobia”, apelidado de “kit-gay”, projeto do governo federal que foi abortado. Como você recebeu a notícia, na época?

Eu fiquei intrigado. Depois eu pensei: “Que cagada, né?”. Por que foi uma censura completamente equivocada. Eu não cheguei a conhecer o “kit-gay”, mas se o curta foi confundido com o kit-gay é porque o kit gay era bacana e valia a pena. É triste que o filme foi proibido, mas é inegável que a censura serviu como publicidade. Várias pessoas me disseram que conheceram o curta por causa da proibição.

Qual a importância de um curta como Eu Não Quero Voltar Sozinho passar nas escolas?

Ele questiona a tolerância. A forma como alguém descobre o que deseja é a mesma forma que eu descubro o que desejo? Além disso, não existe um colégio que não tenha um aluno ao menos que seja gay. O tabu da homossexualidade e o preconceito ainda existem. Se as pessoas discutem se o público está preparado para ver um beijo gay na novela, se as pessoas discutem como preparar psicologicamente o público para ver uma cena de beijo gay, é porque o tabu existe, é porque existe o preconceito.

O filme “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” tem ganhado uma legião de fãs. Qual a maior loucura de um fã em relação ao filme que você tomou conhecimento?

A maior loucura, que eu fiquei sabendo, foi de duas pessoas que tatuaram o nome do filme no antebraço. Uma delas, aliás, fez a tatuagem antes de o filme ser lançado, ele só tinha visto o curta. Aí eu fiquei pensando: “E se a pessoa não gosta do filme? O que ela faz?”

Você tem medo de ficar marcado pelo personagem?

Eu acho que eu sou mais como ator do que um adolescente cego que se descobre gay. Quero fazer outros papéis e estou pensando em fazer faculdade de artes cênicas. Agora, é claro que vai ter quem sempre me verá como o cara que fez o papel de um adolescente cego que se descobre gay, mas paciência.

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