Daniel Day-Lewis, que completa 53 anos nesta quinta-feira (29), é um dos poucos atores que me deixam verdadeiramente nervosa de encontrar pessoalmente. Quase torço pra não dar certo cada vez que vou entrevistá-lo. A primeira entrevista foi em Nova York, na época do lançamento de Gangues de Nova York [Gangs of New York, filme de Martin Scorsese, 2002]. Não sei bem por que, mas sempre achei que ele tem um jeito de que não tem a menor paciência com o frufru em volta do lançamento de um filme, e a certeza absoluta que o trabalho dele acabou, aquilo ali é uma perda de tempo. Fora que dá um certo medo, ele tem cara de bravo, jeito de bravo, quase 1m90… E lembram que ele terminou o namoro com Isabelle Adjani por fax nos anos 90? Além de tudo é impulsivo!

Mas não é que é uma flor? Gentilíssimo, do tipo que presta atenção na pergunta, ainda que feita com alguns gaguejos e sotaque de latina. A entrevista mais recente com ele foi em Londres, no dia seguinte à premiere com quase todo o elenco de Nine [filme de Rob Marshall, 2009] seu último longa-metragem, um musical baseado em Oito e Meio, do [Federico] Fellini, a história de um diretor de cinema em crise. Na coletiva do filme, que aconteceu antes da nossa conversa, Sophia Loren fazia careta cada vez que Kate Hudson abria a boca, e o climão era óbvio entre Nicole Kidman e Penélope Cruz, as duas ex-Tom Cruise, que, falsas, ficavam uma sorrindo pra outra o tempo todo.

 

Depois de um almocinho na Harvey Nichols lá fui eu de volta ao hotel da entrevista, pronta para meia hora de Daniel Day-Lewis, com um bloquinho quase cheio de perguntas. Ele tinha tirado o terno e tava de jeans escuro, camiseta branca, cabelo curtinho, braços fortes e tatuados à mostra. A conversa começou, ele foi ficando mais e mais à vontade quando percebeu que eu juntava lé com cré. E eu fui perguntando e reparando como ele é lindo, como olha intensamente para você, como generosamente responde a tudo sem fazer a diva, como é gentil, como é divertido e escapa graciosamente do que não quer responder de verdade, como é isso, como é aquilo…

 Até que uma hora ele se levantou e disse: “Lamento, mas preciso interromper nossa conversa”. Agradeci muitíssimo, e lá fora percebi que a meia hora prometida tinham se transformado em 10 minutos. Mas parecia ter durado mais de horas, de tão intenso que foi. O cara é talentoso mesmo.



Sem mais artigos