Se o Brasil é o melhor no futebol, tem um setor em que a Argentina deixa nosso país no chinelo: o cinema. A prova disso é que os conterrâneos de Maradona foram consagrados com o segundo Oscar de Filme Estrangeiro na história, dessa vez pelo filme O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella.

Atores, diretores de cinema, críticos da telona e a imprensa local repercutiram a vitória da produção hispânico-argentina. A crueza da trama, que narra a resolução de um assassinato após 25 anos de investigação, não é barreira para boas doses de humor.

Ao receber o prêmio, Campanella não poderia ter sido melhor. “Quero agradecer à Academia por não considerar o Na’vi (idioma criado para o filme “Avatar”) uma língua estrangeira”, brincou o diretor, visivelmente nervoso e emocionado.

Em entrevista coletiva após a cerimônia, já mais relaxado, Campanella demonstrou entusiasmo com o empurrão comercial que o filme pode ganhar agora.

O diretor aproveitou a oportunidade para lembrar Darín da promessa que fez caso “O Segredo dos Seus Olhos” levasse a estatueta: dar uma volta olímpica no Obelisco de Buenos Aires sem roupa.

Drama sem perder o humor

Para o protagonista do filme, o argentino Ricardo Darín, a equação foi a chave para que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas escolhesse O Segredo dos Seus Olhos frente a outras quatro nomeações “muito boas”.

“Quando vi os outros filmes, comecei a pensar que podíamos ganhar. Eles ofereceram à nossa história uma brecha através da qual foi possível contar uma história dura e áspera sem perder o humor e a cotidianidade”, destacou Darín.

O longa argentino, baseado em um livro de Eduardo Sacheri, A Pergunta dos Seus Olhos, venceu o alemão e grande favorito A Fita Branca, o hispânico-peruano O Leite da Amargura, o francês Um Profeta e o israelense Ajami.

“Foi milagroso”, sintetizou Darín, que acompanhou a cerimônia em Buenos Aires.

Elogios da presidente

A presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, considerou que o filme é uma produção “extraordinária” e que “vai deslumbrar o mundo inteiro”.

“Estamos contentes porque ganhamos com O Segredo dos Seus Olhos, um filme fantástico que vi duas vezes e que me impactou”, destacou Cristina durante um ato no Ministério da Educação.

Darín contou que, de todas as ligações que recebeu hoje para receber os parabéns pelo Oscar, a que mais lhe surpreendeu foi a da presidente argentina.

“(Cristina Kirchner) ligou para dar os parabéns e para dizer que se sentia muito orgulhosa. Achei que foi um gesto muito lindo. Segundo me contou, viu o filme duas vezes. É um gesto que valorizo muitíssimo”, disse o ator.

Segundo Oscar, recorde na Argentina

Para a atriz argentina Soledad Villamil, também protagonista do filme, o grande merecedor do prêmio é Juan José Campanella, “que foi roteirista, produtor, mentor e diretor” da produção, que bateu recorde de público na Argentina com 2,5 milhões de espectadores.

O primeiro filme argentino a receber um Oscar foi A História Oficial (1985), de Luis Puenzo, que levou ao cinema as experiências das vítimas da ditadura militar do país (1976-1983) e dos milhares de desaparecidos durante o regime.

O Segredo dos Seus Olhos também apresenta um subtexto político: o da violência protagonizada pelo grupo de extrema-direita Aliança Anticomunista Argentina, o chamado “Triplo A”, durante os anos 70.

A atriz Norma Aleandro, protagonista de A História Oficial, disse estar “muito feliz” com o Oscar para o filme de Campanella e que o prêmio “vai fazer muito bem ao cinema argentino”.

A Argentina já havia disputado a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro com os filmes A Trégua (1974), Camila (1984), Tango (1998) e O Filho da Noiva (2001), este último também dirigido por Campanella.

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