Há dez dias, Carrefour, Wal-Mart e Pão de Açúcar anunciaram a suspensão da compra de produtos bovinos de 11 empresas frigoríficas do Pará por não terem garantias de que a carne não vem de áreas desmatadas na Amazônia.

A decisão é resultado da ação civil pública do Ministério Público Federal que encaminhou uma recomendação às grandes redes de supermercados e outros 72 compradores de produtos bovinos para que parem de comprar carne proveniente da destruição da floresta.

A medida dos varejistas também foi resultado de um relatório do Greenpeace que evidenciou a pressão que o gado exerce sobre a Amazônia. Divulgado no início do mês, o documento “A Farra do Boi na Amazônia” apontou, entre outras coisas, para a resposabilidade das grandes empresas internacionais e do governo brasileiro no desmatamento da floresta.

Diante desse quadro, as três maiores redes de supermercado ainda disseram que vão exigir o “Guia de Trânsito Animal” nas notas fiscais e querem a apresentação de um plano de auditoria independente das empresas frigoríficas.

Mas outras questões estão em aberto. Uma prática comum é criar o gado em áreas da Amazônia e deslocá-lo pouco antes do abate para regiões legais. Assim, o boi “pirata” é facilmente confundido com os bois “legais”.

Outro ponto está relacionado aos supermercados que não exigem certificados de procedência do produto. A carne “pirata” tende a ser mais barata e pode ser facilmente escoada em supermercados menores e a preços atraentes.

Por isso, o Bate/Rebate desta semana quer saber: as medidas anunciadas pelas redes de supermercado são suficientes para reduzir o desmatamento?

NÃO, É INEFICAZ
Péricles Salazar, presidente da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos)

“As medidas não são eficientes para combater o desmatamento. Elas são iniciativas puramente demagógicas, puramente retóricas, que não têm nada a ver com a realidade da pecuária e dos frigoríficos do país.

Os frigoríficos compram gado de pecuaristas e compram carnes de outros frigoríficos. São milhares de toneladas em negociação a todo momento. E quem vai garantir se uma troca de produtos entre frigoríficos é ou não procedente de desmatamento ilegal?

Há uma série de procedimentos operacionais e só quem está no meio sabe como a coisa funciona. A medida não tem respaldo e serve apenas para melhorar a imagem das empresas de supermercado. Claramente há um marketing das redes varejistas por trás disso.

Não concordo com o relatório do Greenpeace. Eu gostaria de saber se a equipe técnica deles tem competência legal pra assinar um relatório de tamanha importância. É um trabalho tecnicamente inconsequente.

Depois de tudo o que aconteceu, a situação ficou difícil para os criadores de gado do Pará. Agora, eles estão tendo que se mobilizar para reverter as ações do Greenpeace, do Ministério Público e do Ministério do Meio-Ambiente, um conjunto de órgãos inconsequentes que mexe com um série de questões sem o devido respaldo técnico e a devida competência.

Nós estamos sendo penalizados por causa de uma minoria, de uma questão específica. Se há desmatamento, que seja punido o responsável. E que essa punição seja exemplar. Mas, para isso, é preciso ter vontade política para punir e para corrigir uma série de irregularidades que existem neste país. Para fazer isso corretamente é preciso ter investimento em fiscalização, investimento nas instituições governamentais. Enfim, é preciso reestruturar o atual sistema. E isso ninguém quer fazer.”

SIM, É EFICAZ
Márcio Astrini, coordenador da campanha Desmatamento Zero do Greenpeace

“A iniciativa é exemplar e os supermercados demonstraram que não vão comprar e nem colocar à disposição de seus consumidores produtos que prejudicam a Amazônia. Essa iniciativa é importantissima pra combater o desmatamento já que a pecuária representa 80% da destruição da Amazônia. Não queremos aniquilar ou prejudicar a indústria, mas queremos uma indústria sustentável que não desmate e que não cometa crimes nessa área.

A primeira coisa que se deve fazer é deixar de comprar carne de fazendas que estão nitidamente em áreas indígenas e amazônicas. E o próprio consumidor deve fazer isso ao evitar a carne de empresas suspeitas. Os frigorícos Bertin e Friboi claramente compram bois de áreas embargadas. Há outros que compram de áreas com trabalho escravo…

Além da iniciativa dos supermercados, o governo precisa implementar um sistema que informe para o consumidor qual é a procedência do produto que ele está adquirindo.

O governo deveria expandir o sistema de controle e rastreabilidade
(SISBov) utilizado para a carne destinada à Europa. Coloca esse sistema
pra funcionar para todos os produtores e você consegue rastrear todo o
rebanho do país.

Podemos comparar a questão da carne com a falsificação de CDs. O consumidor precisa ter a informação e o Estado precisa fazer a sua parte. Se você não limpar a cadeia produtiva, o pessoal que produz mal vai penalizar o bom produtor. Além disso, você prejudica uma boa parte da produção do país com a ilegalidade.

Muitos questionam o relatório do Greenpeace. Mas as informações são do governo ou são provenientes de trabalhos de instituições gabaritadas. Se alguem tem dúvidas sobre os danos da agropecuária na Amazônia, basta entrar no site do IBGE e ver o Censo Agropecuário de 2006, por exemplo.

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