Para evitar o aumento da epidemia da gripe A H1N1, também conhecida como gripe suína, quase 13 milhões de estudantes brasileiros de todos os períodos – creche, pré-escola, ensino fundamental e médio, universitários e pós-graduandos – tiveram o início das aulas adiadas.


 


A medida foi determinada nas últimas semanas pelos governos de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná – os quatro Estados com o maior número de casos da doença – para a retomada do funcionamento das escolas. Apesar de adotarem a prevenção por menos tempo, outros estados como Maranhão e Minas Gerais, também optaram pelo prolongamento das férias.


 


As instituições de ensino e os governos estaduais decidiram adiar as aulas apesar das críticas do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que classificou como “disparate” o fato de alunos sem gripe suína ficarem em casa. Para ele, apenas os estudantes que estão com tosse e outros sintomas devem permanecer em repouso. No entanto, o próprio ministério divulgou em nota, que a decisão de adiar ou não o início das aulas como estratégia para conter a disseminação do vírus, cabia a cada Estado.


 


O BATE/REBATE desta semana ouviu dois profissionais da área para saber: Valeu a pena adiar as aulas por causa da gripe?


 


SIM, VALEU A PENA



André Luiz Machado – Infectologista do Hospital Santa Casa de Porto Alegre e servidor do município de Porto Alegre


 


“Concordo com o adiamento do início das aulas em escolas e universidades, pois essa decisão foi tomada pelo governo do Estado em função do comportamento da epidemia nas últimas semanas. A medida é uma maneira de tentar minimizar a disseminação do vírus da gripe numa faixa etária da população. Hoje, 40% das notificações que recebemos são de pessoas com idades entre 15 e 35 anos. Ainda assim, as crianças com idade abaixo de 12 anos eliminam o vírus da Influenza por um período maior de tempo (cerca de 14 dias), logo, mais pessoas podem ser contaminadas quando em contato direto com esse grupo.


 


A ideia do adiamento das aulas, foi de tentar diminuir a aglomeração destas pessoas em idade escolar. Os jovens estão apresentando os sintomas clínicos bem evidentes, ficando mais tempo inativos de suas atividades profissionais e acadêmicas.


 


Não existe motivo para pânico, no entanto, como é tudo muito novo para a comunidade médica é melhor tomarmos atitudes “drásticas” do que ficarmos esperando a disseminação do vírus. Por enquanto, vale mais a pena pecar pelo excesso. Pode ser que daqui algum tempo, podemos perceber que a medida não surtiu o efeito desejado.


 


Estamos aprendendo bastante com a doença e com o comportamento do vírus. Somente após o retorno as aulas, veremos se vão existir surtos nas escolas ou não e acompanhar o comportamento do vírus nesta faixa etária infantil, a partir dai, poderemos ter um panorama mais adequado e verificar se a medida foi, de fato, eficaz.


 


A população precisa se educar, o primeiro passo começa pela lavagem das mãos. Também é preciso evitar contato íntimo, beijos e apertos de mão em demasia, e assim que reconhecer os sintomas, procurar um médico ao invés de ir para o trabalho. Basta obedecer às recomendações médicas e não aproveitar o adiamento das aulas, ou a falta ao trabalho para circular em shoppings ou qualquer lugar sujeito a aglomeração. A conscientização precisa ser em se cuidar e cuidar do próximo”.



NÃO VALEU A PENA


 


Paulo Olzon – Infectologista e chefe da Disciplina de Clinica Médica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)


 


“Eu acredito que essas semanas adiadas foram um desperdício. Teria sido interessante se as escolas tivessem tomado medidas de educação e prevenção da doença durante este período. Professores, funcionários, todos os envolvidos na educação e inclusive os alunos deveriam ter sido treinados.


 


O panorama era previsível, voltamos em uma situação pior do que a de duas semanas atrás. De que adianta paralisar as aulas, se os adolescentes vão para balada, as crianças para o playground do prédio, continuam frequentando os lugares fechados e de aglomeração.Esta medida foi inócua. Se houvesse empenho em educar, ensinar o que fazer quando espirrar, tossir, quando lavar as mãos, teria sido válido.


 


A justificativa era de que com o calor a situação ficaria melhor, já que durante o frio, tendemos a ficar em ambientes mais fechados e isso facilita o contágio entre as pessoas. No entanto, no Texas, EUA, onde faz um calor absurdo, a propagação da doença continua aumentando. Sem contar que hoje, independente de frio ou calor, estamos sujeitos a lugares fechados como metrô, ônibus, ainda mais em uma cidade como São Paulo. Há outras formas da doença se espalhar, a tendência é o número aumentar ainda mais.
 
O surto já está ai, precisamos aprender a enfrentar a realidade e lidar com ela da melhor forma possível. Não tem como parar toda a economia do país senão as pessoas vão morrer de fome. É necessário que se pense em estratégias pra poder enfrentá-la. O acesso aos remédios começa a chegar, a descentralização do atendimento num mesmo lugar, evitando que pessoas sadias fiquem infectadas também é interessante, são algumas das medidas que parecem estar melhorando a situação.”

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