Que alguns fãs são capazes de passar a noite numa fila de ingresso, os episódios da Madonna já confirmaram que sim. Mas alguém imagina que, desde setembro, jovens de São Paulo dão plantão na rua para um evento que vai rolar só dia 29 de novembro?

Pois os motoristas que andam pela movimentada região da zona norte da capital já perceberam que isso também é possível.

É que em pleno canteiro da ponte da Casa Verde, com o barulho e a poluição das centenas de caminhões que passam ali, cerca de vinte apaixonados pelo grupo mexicano RBD se revezam em cobertores e barracas para garantir o melhor lugar na fila do Anhembi, onde acontecerá o derradeiro show do RBD, antes do grupo se desmachar no fim deste ano.

“À noite a gente tem turnos para dormir aqui e cuidar das barracas. Semana retrasada uns mendigos roubaram coisas nossas”, conta Rafaela Patrocínio, que tem 15 anos e aparece escondido dos pais nas reuniões com os colegas. Ela diz que finge ir à escola, mas quase sempre muda o caminho porque já passou de ano.

FAMÍLIA MORUMBI

Cássio Mesquita, 17, também é da “Família Morumbi”. Esse é o nome da turma que anda por ali porque, no mês retrasado, o primeiro acampamento era próximo do estádio Morumbi, na zona oeste. Enquanto a produção do RBD não confirmava se o show aconteceria no estádio do São Paulo, do Palmeiras ou na casa Via Funchal, os fãs mudaram para cada um dos prováveis locais até chegar ao Anhembi.

Cássio comprou ingressos dos mais caros para os espetáculos no Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília: “Estou usando o cartão da minha poupança, mas minha mãe não sabe”. Igual a situação da maioria dos que estão ali, são poucos os parentes que estão a par do acampamento.

Bárbara Camboim, 19 anos, é exceção: “Minha mãe sabe que estou aqui e me chama de louca, mas eu não ligo. Ela não sabe como é ser fã”.

Os carros que cruzam a região também não sabem como é ser fanático. É frequente que os motoristas passem gritando para os jovens que eles são “vagabundos” e “desocupados”. Roberta Vilarinho, que tem 24 anos e organiza o grupo, recolhe dinheiro para comprar mantimentos e monta as barracas, diz que essas pessoas não têm razão. Ela mesma estuda de manhã e trabalha à noite com atendimento telefônico. Ainda assim, dorme na Marginal a cada dois ou três dias: “São bem poucas pessoas que ficam aqui à noite. No final de semana é que enche e tem a chamada”.

LINHA DURA

A “chamada” é a lista que circula no domingo para todos os presentes assinarem. Quem não comparece perde o direito de ficar na fila. Carla Fernandes, 15 anos, não apareceu numa das semanas, mas avisou antes e ficou perdoada.

A preocupação com o lugar na fila é tão forte quanto a vontade deles de encontrar os artistas que interpretam estudantes de um colégio rico na novela Rebelde. Em 2006, quando Anahí (a atriz principal) e seu quinteto estiveram em São Paulo para uma tarde de autógrafos, o tumulto foi tão grande que três pessoas morreram pisoteadas no estacionamento do Extra Supermercados.

Para tranqüilizar os ânimos dos amigos, Roberta diz que conhece bem toda a equipe de segurança do Anhembi e da subprefeitura da região; apesar de se recusar a dar os nomes dos funcionários.

É bom que ela esteja certa. Por enquanto, o acampamento RBD – que foi expulso pelo Anhembi da frente dos portões do complexo – está um quilômetro longe do palco onde o grupo se apresentará. Além do mais, sequer os portões que receberão o numeroso público foi divulgado.

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