Abala tudo, Major Lazer!

Antes da minha viagem para a Califórnia os alarmes soaram: tudo indicava que um terremoto de grande magnitude tremeria o sul do estado, que a falha de San Andréas abriria sua bocarra e tragaria a legião de pagãos que povoa esta Babilônia. De alguma maneira isso realmente aconteceu: quando entrei na tenda onde se apresentava Major Lazer me foi administrada uma injeção de adrenalina diretamente na jugular, minha boca adquiriu a umidade da areia que pisava e fui acometido por uma taquicardia irrefreável.

O projeto de Diplo foi capaz de criar um dos poucos momentos de histeria coletiva que presenciei no festival. A saraivada de timbres sujos do grimme, electro, funk, dubstep e marchas militares criou uma parede sólida de bass projetada pelo soundsystem da tenda onde Diplo se apresentou, muralha que poderia ser rasgada com uma britadeira azeitada tal a espessura que o ar adquiriu quando empurrado pelo soundsystem de Major.

Essa parede de som, uma ultrapassagem esperta e de alta octanagem do funk, foi grafitada com tinta flúor, a lisergia do trance e, como não, por uma histeria de lasers e em dado momento o palco caiu, quase que literalmente, invadido que foi pela audiência, artista e público em comunhão, um duplo indissociável que comungava na hóstia oferecida pelo MPC fumegante de Diplo. Se o chão do Coachella realmente tremesse no momento do show, garanto que ninguém daria um passo que fosse em direção à saída da tenda, confundidos pela apresentação do Major Lazer. Nunca aquelas caixas de subgrave trabalharam tanto pelo seu ganha-pão.

Flying Lotus e os replicantes negros.

Depois do tapa na orelha que recebi de Diplo, me dirigi à tenda ao lado, onde Flying Lotus começava sua apresentação. Foi instrutivo ver Flying Lotus na sequência de Major Lazer: os irmãos, tão poucas eram as semelhanças que tinham entre si, pareciam saídos de pais diferentes. Um histérico e carente de amor dos pais, caçula que faz tudo para chamar a atenção e se sentir amado. Este maduro, bem resolvido, inteligente, emancipado.

Flying Lotus nos ofereceu um hip hop sci-fi, de matiz steampunk e matriz arquitetada por dezenas de camadas e de canais, um hip hop imperfeito, sujo, analógico e humano. Em alguns momentos soava como jungle e DB desconstruído e remontado por dezenas de operações complexas e algoritmos inclassificáveis, com os BPMs reduzidíssimos, na cadência da batida do coração humano, mas ainda assim com a mesma potência do bass de Diplo. Música oferecida em sacrifício aos neurônios e não tanto ao molejo das cadeiras, música negra filtrada por Harvard, que evocava Replicantes de Blade Runner, animês caribenhos e, porque não, Radiohead.

Praticamente uma pós-graduação em música em apenas uma hora, a apresentação teve o efeito de aumentar em pelo menos 20 pontos o QI de todos aqueles que estavam na platéia, blindou meus ouvidos e me fez sentir tão seguro que me lancei sem pestanejar no palco do meu, do seu, do nosso Tiësto.

Tiësto: a pochete da música eletrônica

Antes de ser criticado pela minha escolha, quero deixar bem claro que eu nunca tinha chegado sequer a centenas de quilômetros do palco dessa espécie de Enya pós-moderna. Mas, como bom intelectualóde e metido a besta que sou, adorava jogar pedras nesta Geni. Fui para o palco principal determinado a dar uma chance ao bem apanhado Tiësto, pensando que ele não poderia me fazer mal nenhum depois da apresentação linda que tinha acabado de presenciar e que talvez nunca mais na minha vida teria a chance de conhecê-lo.

Ledo engano: mal cheguei ao palco principal e um odor nauseabundo de queijo cheddar e bacon rançoso me baqueou as narinas. Meus olhos presenciaram uma auto-idolatria que faria Imelda Marcos arrebentar um dos saltos de sua coleção de sapatos, tamanha a inveja que ela teria do ególatra Tiesto: nos telões gigantescos que flutuavam sobre a cabeça de nosso reizinho seu nome piscava em letras garrafais de corpo 4800 e o enorme palco principal do Coachella ficou pequeno para o homem, o mito e seu ego descomunal.

Me desculpem as 30 mil pessoas que transbordavam a arena de Tiesto, mas sua má-fama entre os apreciadores de música eletrônica foi arduamente adquirida ao longo de anos de trabalho e é devida até o último chocho. Que o Darth Vader da música eletrônica volte a ocupar o lugar que lhe é destinado: o bode-expiatório sobre o qual poderemos descarregar todo o nosso azedume e a quem poderemos culpar pelo fim dos tempos. Vade retro, Tiësto.

No último dia me senti absolutamente profissional e seguro do que estava fazendo em Indio: terreno reconhecido, pança cheia e familiarizado com toda a estrutura do festival, a ponto de apontar pela direção do sol de fazer camelo pedir arrego onde ficava cada uma das tendas do Coachella, este dia ficou reservado para a fruição sem culpa do que ainda estava no horizonte.

De qualquer maneira, apenas a experiência de um dia de Coachella é suficiente para justificar qualquer tipo de esforço investido. Com a placidez de um monge beneditino e a sensação de jogo vencido me dirigi à tenda de Talvin Singh, apenas para verificar que um dos meus heróis dos anos 90 envelheceu mal, entrou na crise da meia idade e me deu na cara com um set datado e tosco, de causar vergonha alheia. RIP, Talvin Singh, e avante, que o Coachella não te permite sequer velar um defunto.

Tararã & Tararã

King Khan & the Shrines confirmou a impressão de que qualquer banda de nome “tararã & tararã” tem grandes chances de ser boa (apud Erika): sonoridade setenta e mais metais no palco do que a banda de acompanhamento do Ray Conniff, o funk do King Khan agradou a todos com seus paetês dourados, piadinhas espertas, vocais à la James Brown e enormes bichos de pelúcia esquisitíssimos no palco. Uma banda de sonoridade mulata, nem preta ou branca, de branquelos redneck devoradores de hambúrgueres que cresceram ouvindo o soul e o funk de Motown e se perguntaram em um dado momento, se eles podem, porque nós não? E sim, eles puderam. Soul, funk e rock dosados em medidas perfeitas.

Já o prefeito de Mayer Hawthorne & the County, mais uma vez confirmando os bons augúrios que brindam bandas de nome composto, apresentou um soul delicioso de fazer inveja a Al Green, de pegada milkshake sabor América, que uivava anos 1960 por todos os lados. Música para fazer amor com sua velha senhora em um domingo à noite, após uma taça de vinho e uma pizza da Braz.

Após passar pelo excelente e solar show de Florence & The Machine (a esta altura eu confiava apenas em bandas de nome composto), cuja carismática vocalista arrebatou toda a audiência de sua estrumbada tenda, me dirigi ao rock elegante e competente da banda Spoon, que pontuava guitarras ardidas com metais de levada ska e distorções eletrônicas, montando uma deliciosa papa sonora. Dali, decidido a não ver mais uma guitarra diante de mim, me dirigi ao crepúsculo do Coachella: a tenda onde se apresentaria Orbital e Richie Hawtin aka Plastikman.

Orbital: os anos 1990 estão entre nós (ou eu sei que você foi um raver)

No início da apresentação do Orbital algo de inacreditável aconteceu: centenas, milhares de tubinhos flúor, daqueles que os ravers distribuíam pelo corpo nos anos 1990, saltaram do chão da tenda, como fogos de artifício lisérgicos. Na sequência, a pancaria ritmada de beats fez um gang bang nos meus tímpanos e a audiência passou a saltar como se TODAS as drogas consumidas pela mesma tivessem batido em uníssono, como se esta formasse um grande Big Ben feito de carne. 

O Orbital não parou de disparar beats até carburar o último neurônio do último adolescente crispado por anfetaminas. Fiquei de joelhos e pensei que não agüentaria mais um timbre que fosse, e de joelhos voltei a ficar depois da apresentação de Richie Hawtin, não mais pedindo por clemência, mas em salve.

Richie Hawtin e a música eletrônica clássica

Se Tiësto é uma pochete para os apreciadores da boa música eletrônica, o ex-franjinha responsável por renovar o techno e um dos precursores da sua vertente mininalista poderia ser representado por um tubinho Channel preto. Richie Hawtin apresentou um dos seus primeiros discos atrás de uma cortina de video em forma de um cilindro cindido ao meio cujas imagens eram de descolar mandíbulas, como que saídas de microscópios e do tubo catódico da TV protagonista do filme Poltergeist. Atrás dela, Hawtin orquestrou uma opereta eletrônica que poderia ser de Stockhausen ou do ano 2057, atemporal portanto, e de timbres tão díspares que não poderiam ser rotulados por nenhum dos gêneros de musica eletrônica.

No final da apresentação, na tela de seu cilindro finalmente foi apresentada a armada responsável pelo milagre que acabara de ouvir: 303, 707, 909, 606, números dos synths e baterias que criaram a história da música eletrônica. Para encurtar a história, a melhor apresentação de música eletrônica que tive o prazer de ouvir em quase 20 anos. Prostrado de joelhos, olhei para os lados em busca de cumplicidade e vi dezenas de pessoas de olhos coriscantes que me diziam sim, eu vi isso.

Saldo do Coachella?

Curto e grosso: dobre suas horas extras. Aplique golpes. Faça regime para economizar suas idas a restaurantes. Fique abstêmio por todo o ano de 2010, mas ano que vem não deixe de vir para o Coachella. Trata-se de uma experiência estética única. Venha para cá aconteça o que acontecer. Isso é uma ordem.

Fim.

Facundo Guerra é pós-graduado em jornalismo e sócio das casas Lions e Vegas e dos bares Volt e Z-Carniceria, em São Paulo.

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