No dia que eu cheguei aqui, há quase duas semanas, percebi que Copenhague sorri para os que vieram. Já se percebe isso no aeroporto – e sorri de um tanto que a pessoa no balcão de informações do aeroporto me ajudou a colocar meu chip dinamarquês no celular, e o taxista ficou me ensinando qual a melhor pronúncia para a rua onde eu estou hospedada apenas em caso eu me perca.

Outra coisa: decidi ficar em uma casa de família dinamarquesa, e logo na minha primeira noite dinamarquesa já conheci os amigos deles e tive um jantar especial. Ótimo. Ser bem-recebida é o primeiro passo para confirmar minhas expectativas de duas semanas espetaculares pela frente.

Segunda feira, dia 07 de dezembro, o caos reinava no Bella Center, local onde aconteceram as reuniões oficiais da cúpula sobre mudança climática. Fiquei quatro horas na fila apenas para obter a credencial de ONG e ter acesso às dependências da Conferência. E quando eu finalmente entrei, demorei, sem brincadeira, uns três dias para entender o que acontecia lá dentro. Qual a agenda dos eventos paralelos, qual a agenda de negociações, onde cada uma dessas coisas acontecem, onde encontrar as pessoas certas, onde comer uma comidinha rápida, boa, e não excessivamente cara.

Mas além da bagunça, o Bella Center foi o lugar de acontecimentos: nos corredores, ou nas salas de negociações, ou nos auditórios de eventos paralelos o debate rolava solto. Debate altamente qualificado, com pessoas altamente qualificadas. Por mais que interesses diferentes limitassem muito o alcance das reuniões, principalmente nas salas de reunião, de qualquer forma ali no Bella Center alguma coisa grande estava acontecendo: nossos diplomatas e líderes de Estado conversavam sobre qual planeta Terra deixaremos para as próximas gerações. E, além disso, os olhos do mundo estavam voltados para cá.

Em dezembro de 2009 Copenhague foi “A Cidade” para se estar. E eu estive aqui. Vivendo cada uma de todas as coisas acontecendo intensamente. Para além da desorganização que limitou o acesso de ONGs ao Bella Center, Copenhague estava inteira viva e em sintonia com as negociações. Sabemos que chegou o prazo final e que nem um milagre salvará a Conferência desse fracasso absurdo de não termos acordo. Mesmo assim, parece que as pessoas estão mobilizadas para mudanças. Essa é a sensação de quem vive o que está se vivendo aqui. Então no final das contas, o que prevalece após quase duas semanas de Dinamarca é esperança na humanidade – talvez não nos líderes globais, mas na humanidade como um todo, nas pessoas, essa esperança sim prevalece.

E é lindo, eu só posso dizer isso. É lindo participar desse momento da nossa história, é lindo ver a neve cair, é tudo renovar a fé nas pessoas e no poder que vem do coletivo. Por isso que acabo esse relato com uma frase curta e certa, que ouvi semana passada do Mario Mantovani (SOS Mata Atlântica): “A primeira COP a gente nunca esquece”. De fato, eu nunca esquecerei.

Sem mais artigos