Durante dois anos, Stephan Doitschinoff viveu em Lençóis, cidade com 10 mil habitantes no interior da Bahia, onde criou uma série de grafites chamados de site specific – tipo de obra de arte criada para um espaço/ suporte/ lugar determinado. Por lá, o grafiteiro, apelidado de Calma, coloriu a cidade, onde pintou casas, muros, o cemitério local e até capelas e igrejas.

Por lá, Stephan morou no vilarejo quilombola da Bahia e construiu uma estreita relação com os moradores, além de incorporar a cultura local em suas obras, que mesclam imagens sacras e de cultura regional a caveiras e símbolos alquimistas.

O resultado disso tudo pode ser conferido no livro-monografia Calma – The Art of Stephan Doitschinoff , que reúne grande parte dos grafites do artista e mostra o impacto de sua arte na pequena cidade.

Junto ao recém-lançado livro, também foi produzido o curta-metragem Temporal -The Art of Stephan Doitschinoff (confira abaixo). Com cerca de 13 minutos de duração, o vídeo documenta a experiência artística de Stephan, que relata suas impressões, desafios e êxitos neste projeto. O filme também conta com a trilha sonora do grupo paulistano Hurtmold.

Leia a entrevista que o Virgula fez com Stephan Doitschinoff e conheça melhor o trabalho do eclético grafiteiro, que até já fez ilustrações para o Black Sabbath e Sepultura.

Virgula: Por que escolheu Lençóis? E como surgiu a ideia de se dedicar ao site specific?

Stephan Doitschinhoff: Escolhi Lençois primeiramente porque minha irmã mora lá e por isso eu já teria um ponto de apoio para começar, e também pela rica herança cultural da região – que ainda é bem preservada.

Como você descreveria os desenhos que criou para a cidade?

Criei uma série de pinturas murais e site specific, um pouco mantendo a temática que é recorrente no meu trabalho. Mas também me apropriando dos elementos da cultura local do Garimpo, que ainda é muito presente na região.

Você passou dois anos em Lençóis, grafitando por diversos locais. Qual foi o impacto dos moradores, que provavelmente não estão acostumados com estes tipos de intervenções, e o que você aprendeu durante a estadia?

Algumas vezes a reação foi bem intensa, como no caso do mural chamado “As Sete Dispensações”, que tem um anjo e duas igrejas afundando… Só que tinha gente que via e achava que era o capeta, o beuzebú.

E naquela mesma rua também tinha uma igrejinha evangélica e, num dia que cheguei para terminar a pintura, tinha um monte de buracos na parede e me falaram que foram crianças evangélicas que saíram do culto e começaram a apedrejar o mural e gritavam “sai beuzebú! sai satanás!”, tentando arrancar o reboco da parede com a mão.

Grande parte do seu livro é dedicado ao trabalho que realizou na cidade. Além disso, o que mais podemos conhecer através de seu livro?

O livro cobre a minha produção de 2006 a 2008. Sendo que metade dos trabalhos são as telas e desenhos e a outra metade são os trabalhos feitos na Bahia. Além disso tem cinco contos que eu escrevi; uma introdução escrita pelo critico Americano Carlo McCormick; uma entrevista feita por Tristan Manco; as fotos de Nicole Heiniger, Sonia Onate e Calil Neto; mais a direção de arte e tipografia que Pedro Inoue criou para o livro.

Você também se envolve com projetos gráficos para bandas, como as ilustrações que fez para Sepultura e Black Sabbath. Atualmente, com a popularização do MP3, vários grupos estão investindo na arte de seus discos ou posters. Acha que um novo mercado está nascendo ou se expandindo para quem se dedica a arte visual?

O último e maior trabalho que eu fiz com banda foi para o Sepultura em 2005. Foram dez telas inspiradas no texto da Divina Comédia, de Dante. Também trabalhei com algumas bandas americanas como Saves the Day e Hot Rod Circuit.

Para o Black Sabbath foi um trabalho de cenografia na época que eu trabalhava em festivais de rock. Hoje em dia, meu foco mudou bastante e não estou mais tão envolvido com música. Mas existem artistas que desenvolvem trabalhos incríveis em parcerias com bandas, com pôsteres e capa de discos, como os de Tara McPherson, Usugrow e Pushead.

>> Confira o documentário Temporal -The Art of Stephan Doitschinoff:

TEMPORAL : The Art of Stephan Doitschinoff (aka Calma) from Jonathan LeVine Gallery on Vimeo.

“Fui apedrejado por evangélicos”, diz grafiteiro que viveu dois anos na Bahia

Sem mais artigos