No início do mês, o presidente da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira, foi assassinado por integrantes do Exército. O fato aconteceu após a morte do general Tagmé Na Wai, supostamente executado por ordem de Vieira. Os crimes recolocaram o país nas principais manchetes sangrentas no Brasil e no mundo e evidenciaram a precária situação política do país.

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Nos últimos anos, Guiné-Bissau se transformou em centro da rota do tráfico de cocaína da América do Sul para a Europa. Altos cargos do governo e chefes militares são acusados de participar deste negócio ilegal. Com instituições e leis enfraquecidas, e traficantes colombianos dando as cartas e comprando quem for preciso, Guiné-Bissau pode ser considerado o primeiro narcoestado do mundo.

Guiné-Bissau é o exemplo mais extremo de um país inteiro a serviço do tráfico. Mas existem muitas outras regiões do planeta onde o narconegócio é quem manda. Veja algumas delas:

AFEGANISTÃO
O Afeganistão é responsável pela produção de 93% do ópio e da heroína consumida no mundo. Segundo o relatório anual sobre “Estratégia para o Controle Internacional de Narcóticos”, do Departamento de Estado norte-americano, praticamente todo o cultivo é produzido em áreas onde os radicais islâmicos do Taleban tomam conta. Quando esteve no poder, entre 1996 e 2001, o Taleban proibiu o plantio da papoula (a planta de onde o ópio e a heroína são obtidos) no país. Mas, na prática, a produção da droga só aumentou desde então. Em 2008, a produção de drogas gerou US$ 3,4 bilhões, o que corresponde a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) do Afeganistão, de US$ 16,3 bilhões.

MARROCOS
A maconha tem produção difundida nos quatro cantos do mundo. Entretanto, o Marrocos, na África, ostenta o título de maior produtor mundial de maconha (e de sua resina denominada haxixe). O Afeganistão também está no topo da lista, mas ainda não há estudos conclusivos que garantam o país como maior produtor. Sendo assim, o haxixe marroquino, apelidado de “chocolate”, segue como. O plantio e o cultivo da cannabis ocorrem no norte do Marrocos, nas zonas de Rif e Yebala, e cobrem uma área de cerca de 200 mil hectares. A maconha rende US$ 10 bilhões por ano aos produtores do país. Cerca de 1,5 milhão de marroquinos estão envolvidos na produção e na venda, num país de quase 29 milhões de habitantes. A droga é destinada ao mercado europeu e não chega ao Brasil.

PERNAMBUCO
O Vale do São Francisco, em Pernambuco, compreende uma das localidades mais perigosas do Brasil. Conhecida como Polígono da Maconha, a área de cerca de 70 mil metros quadrados é praticamente uma região sem lei, controlada por traficantes e produtores de maconha que obrigam sertanejos a trabalhar nas lavouras ilegais. A região é conhecida pela produção de maconha há mais de 30 anos e a droga cultivada é transportada para as principais cidades do país.

MIANMAR
Mianmar, antiga Birmânia, é o segundo maior produtor de ópio do mundo. As plantações de papoula aumentaram significativamente na região a partir do final dos anos 60. Grupos raciais e organizações políticas (como o Partido Comunista Birmanês) concentraram a produção no norte do país. Ao lado de Tailândia e Laos, Mianmar chegou a compor o chamado Triângulo Dourado, nos anos 70 e 80, em referência a elevada produção de ópio na região. Sob domínio dos militares há quase 50 anos, a produção da droga permanece em alta devido aos problemas político-econômicos e à inexistência de uma Justiça eficiente.

COLÔMBIA
Quando o assunto é cocaína, a Colômbia é referência global. Em 1997, o país passou o Peru e se tornou o maior produtor do gênero, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC, na sigla em inglês). Autoridades dizem que grande parte da produção, do refino e da distribuição de cocaína está a cargo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que atua nas selvas do país, nasceu como guerrilha comunista, mas hoje está envolvida no crime organizado. O atual presidente Álvaro Uribe adotou uma política de não-negociação com as FARC. O presidente anterior, Andrés Pastrana Arango, foi durante criticado ao desmilitarizar uma área de 42 mil km², que ficou sob o controle da guerrilha.

RIO DE JANEIRO
Desde o início do século XX, os morros e periferias do Rio de Janeiro já tinham forte influência de um poder paralelo: os bicheiros, controladores do jogo do bicho. Mas, a partir da década de 70 e 80, os traficantes ganharam espaço nos morros com o lucrativo comércio de narcóticos. Segundo historiadores, muitos bicheiros deixaram o decante jogo para se dedicarem ao narcotráfico. Quem insistiu no bicho se deu mal e teve que ceder espaço aos traficantes. Altamente organizado e militarizado, o tráfico adquiriu status de Estado paralelo a partir de 2002, quando passou a intimidar fortemente a população e os governantes numa concorrência desenfreada entre facções para controlar a venda de drogas em determinadas regiões. Recentemente, em periferias onde as facções não têm tanta influência, milícias passaram a exercer a segurança através da extorsão de dinheiro de residentes e comerciantes.

MÉXICO
Há tempos que o México é importante rota do narcotráfico. A maioria da droga que vai para os Estados Unidos passa pelo território mexicano. Mas o país deixou de ser uma simples rota e tem aumentado a consideravelmente a produção e o consumo de maconha e de ópio. Nas cidades de Tijuana e Juárez, próximas da fronteira com os EUA, milhares de pessoas morreram em 2008 por causa do narcotráfico. As cidades são dominadas pelo poder paralelo dos cartéis de traficantes e o Estado tem perdido o controle sobre a região. Ainda assim, com o apoio do Estados Unidos, o México é o país com as maiores quantidades de drogas apreendidas anualmente. A crise institucional mexicana é tão intensa que o Exército foi para as ruas numa ação classificada pelo presidente Felipe Calderón de “guerra ao narcotráfico”. Até mesmo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, estuda deslocar a Guarda Nacional norte-americana para ajudar os mexicanos no combate ao tráfico.

PERU E BOLÍVIA
A folha de coca é usada tradicionalmente por peruanos e bolivianos. Os dois governos não consideram a coca ilegal, mas procuram regulamentar as fazendas e evitar a produção ilegal de coca (e, consequentemente, da cocaína). Nos anos 90, os governos do Peru e da Bolívia conseguiram reduzir consideravelmente a produção ilegal da droga. Mas, nos últimos anos, os dois países aumentaram a quantidade de plantações ilegais em virtude da demanda do narcotráfico. Atualmente, o Peru é o segundo maior produtor de cocaína, atrás apenas da Colômbia. Após anos de inatividade, o Sandero Luminoso, grupo guerrilheiro que por quase três décadas aterrorizou o país, teria voltado a atuar em suas bases camponesas onde administra o comércio da pasta de coca, a primeira etapa do refino para se obter a cocaína.

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