O Natura Nós About Us encerrou na noite de hoje (22) sua série de eventos, que ocuparam a Chácara do Jockey durante dois dias com shows e atividades ligadas à sustentabilidade.

O festival começou por volta das 14h30, com as apresentações de AfroReggae, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Embora o público – que foi tímido e esparso até mesmo durante o show da atração principal da noite, o cantor Sting – ainda estivesse chegando à Chácara do Jockey, os brasileiros fizeram belas apresentações e conseguiram agitar os primeiros espectadores. O destaque foi para Carlinhos Brown, que não se intimidou diante de um problema com o som (que não chegava ao público) e conseguiu levantar a platéia com uma performance energética e divertida, que contou com músicas como Carnavália, Carlito Marrón, Uma Brasileira e Velha Infância.

Logo em seguida, Lenine entrou no palco para uma rápida apresentação – neste momento, o público já se aglomerava perto do palco para se preparar para o show de Jason Mraz. O músico fez um show simples, sem fazer arranjos especiais ou modificar a melodia de canções como Último Pôr do Sol, Atirador e Lavadeira do Rio.

E foi no show de Lenine que a platéia começou a aceitar que não havia mais jeito: como o terreno da Chácara do Jockey – um descampado repleto de terra – já havia sido castigado pela chuva que caiu torrencialmente durante o show do The Killers na noite de ontem (21), o jeito era se contentar em desviar das armadilhas formadas por gigantescas poças de lama.

Jason Mraz

O músico norte-americano, pela primeira vez tocando em solo brasileiro, entrou no palco despretensioso, como quem tem a certeza de que o público já está ganho. De fato, na grade da área Vip não eram poucas as garotas que sabiam de cor as letras de todas as suas canções – e o músico percebeu com rapidez que faixas pop como I’m Yours, Butterfly, The Dynamo of Volition e Coyotes estavam na ponta da língua de seus fãs.

Balançando as mãos em uma coreografia previamente ensaiada (acompanhada em uníssono, claro, pelas fãs), o músico começou o show animado, com a tríade The Dynamo of Volition, Anything You Want e Coyotes, mostrando de cara que o show seria baseado em seu álbum mais recente, We Sing, We Dance, We Steal Things. Entretanto, o que parecia ser um show pop e repleto de hits para o público cantar junto se transformou rapidamente em um show acústico, no qual o músico evidenciou sua potência vocal e a beleza dos arranjos executados por sua competente banda.

Mas a beleza nem sempre é suficiente. O palco imponente da Chácara do Jockey, auxiliado por uma expectativa dos fãs em verem um set mais pesado e dançante, se transformou em um local estranho para um show tão intimista. Em pouco tempo, apenas os fãs mais fervorosos (e que estavam perto do palco) continuavam acompanhando o show do cantor, que fez uma apresentação de aproximadamente uma hora.

A tão falada participação da cantora Sandy, que cantou com Mraz o hit Lucky, foi tão apagada que praticamente não fez diferença alguma – o músico poderia ter executado a canção sozinho tranquilamente.

Sting

Ao contrário de Jason Mraz, Sting chegou ao palco mostrando logo de cara para o público que a idéia era fazer uma noite voltada para o rock e os clássicos. O músico de 58 anos de idade acaba de lançar o álbum If on a Winter’s Night, que lida com a temática do inverno. O novo trabalho, por ser mais introspectivo, não foi apresentado ao público brasileiro no show desta noite – segundo o músico, o clima intimista do álbum não combina com um público tão “solar”.

Se ele tem razão ou não, nunca iremos saber – entretanto, uma coisa ficou clara no show deste domingo: a voz de Sting e seu comando em relação às músicas clássicas de seu repertório continuam impecáveis. Mesmo em notas difíceis, o músico não errava, e conseguiu cantar com emoção cada uma das 18 músicas de seu setlist, impressionando o público que aguentou uma chuva pesada e muita lama durante seu show só para reviver o sentimento de ouvir hits como Roxanne novamente.

A apresentação de Sting contou com diversas músicas do repertório do The Police, como Message In a Bottle, Tea in The Sahara, Wrapped Around Your Finger, Roxanne, King Of Pain e Every Breath You Take, além de algumas faixas de sua carreira solo, como Englishman in New York e If You Love Somebody Set Them Free.

Curiosamente, a execução impecável de Sting e sua banda de hits consagrados pelo The Police não foi o suficiente para fazer o público se manifestar com a intensidade esperada de um show de rock. Mesmo em hits reverenciados, como Roxanne, o público dançava com timidez, entoando sem força os versos da canção. E foi a partir desânimo em frente a um bom show que foi possível constatar que, por mais que o músico seja competente, seu show já está datado. As canções formam um bloco que traz a sensação de que o show poderia ser visto tranquilamente do sofá de casa em um DVD de melhores hits ao vivo. Faltou a energia eufórica que caracteriza aqueles shows imemoriais, que parecem não envelhecer nunca.

Muita lama e preços nada razoáveis

Embora o Natura Nós About Us tenha sido impecável no quesito pontualidade – todos os shows começaram com uma margem mínima de atraso -, alguns aspectos ainda precisam ser discutidos. A escolha da Chácara do Jockey, por exemplo, continua sendo complicada, considerando que o local se torna intransitável quando chove e que não existem estacionamentos nos arredores. Entretanto, este é um problema mais amplo, já que São Paulo carece de locais devidamente estruturados para abrigar shows de grande porte.

Já os ingressos e o line-up são questões que o festival de fato precisará repensar – os tickets para a área vip custavam R$500 (inteira), um preço salgado para um festival que não traz muitas atrações internacionais (o Planeta Terra, com um line-up que contava com artistas como Sonic Youth e Iggy Pop & The Stooges, disponibilizou ingressos por no máximo R$200). Já o line-up pecou por sua falta de homogeneidade: é difícil imaginar que o público alvo de shows como AfroReggae, Lenine, Carlinhos Brown e Jason Mraz seja o mesmo.

Sem mais artigos