Foram enterrados no final da manhã deste sábado no Cemitério Gethsêmani Anhanguera, em Osasco, os corpos do cartunista Glauco Villas Boas, conhecido como Glauco, de 53 anos, e de seu filho, Raoni, de 25, assassinados na noite de quinta-feira na residência da família, também na cidade da Grande São Paulo.

Cinco testemunhas já foram ouvidas no Setor de Investigações Gerais da Delegacia Seccional de Osasco, e os oficiais continuam em busca do universitário Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos que, após dizer que era Jesus Cristo, matou o cartunista e seu filho. O jovem tentava se recuperar das drogas e buscou a cura na igreja Céu de Maria, fundada por Glauco Villas Boas.

Desde agosto do ano passado o universitário parou de ir as palestras, porque continuava utilizando drogas, segundo os frequentadores da igreja. Na noite de quinta-feira, a enteada do cartunista, Juliana Veniss, chegava da faculdade quando foi abordada por Carlos Eduardo ou Cadu, como ele era conhecido entre os amigos, que já estava armado e mandou a moça abrir a porta da casa para ele conversar com Glauco.

O cartunista ouviu a conversa e foi para a frente da casa para saber o que estava acontecendo. O jovem rendeu Glauco e queria leva-lo até a casa onde mora, no bairro Alto de Pinheiros, para que o cartunista testemunhasse, para a mãe do estudante, que Cadu não era um estudante apenas e, sim, o próprio Jesus Cristo.

Houve uma discussão entre os dois e o rapaz deu uma coronhada no nariz do cartunista. Nesse momento, chegou ao imóvel Raoni Villas Boas, de 25 anos, filho de Glauco, que, ao ver o pai ensanguentado, gritou com o universitário. Carlos Eduardo disparou 10 vezes e acertou quatro tiros em cada uma das vítimas.

Glauco foi atingido por um tiro no rosto, outro no tórax e mais dois no abdômen, enquanto Raoni foi assassinado com três tiros na região do abdômen e outro no peito. Archimedes Cassão Junior, o delegado responsável pelas investigações, está convencido de que o universitário estava alterado no momento do crime.

Cadu tinha passagem pela polícia por porte de drogas e os familiares dele afirmam que ele era usuário. Carlos Eduardo já cursou 4 faculdades diferentes, e não terminou nenhuma. A Polícia Civil não acredita que o universitário sofra de algum distúrbio mental, mas diz que no momento do crime ele estava muito alterado.

O pai e o avô de Cadu prestaram depoimento e contaram que ele não costumava ser agressivo. Outras quatro testemunhas reconheceram Carlos Eduardo como o autor do crime. A dúvida agora é a motivação, pois Glauco é conhecido por muitos como um conselheiro, principalmente dos usuários de drogas.

Santo Daime

O cartunista comungava o Santo Daime, doutrina criada pelo Padrinho Sebastião no Acre, no século passado e que se se espalhou da selva para as cidades. Há 15 anos, o responsável pela criação de personagens como “Geraldão” fundou a Igreja Céu de Maria, em frente a sua casa, em Osasco.

Os frequentadores bebem a ayuhasca, a bebida sagrada dos incas, que consiste na mistura do cipó mariri com a folhagem chamada chacrona. Em janeiro de 2010, o governo brasileiro formalizou o uso religioso da planta nas cerimônias do daime. Nesse caso, o Palácio do Planalto seguiu decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que considerou legal o uso religioso do vegetal.

Para o toxicologista do Hospital das Clínicas, Anthony Wong, foi um erro, pois a substância pode desenvolver problemas psicóticos em algumas pessoas.

Ricardo Handro, advogado da família de Glauco Villas Boas, alegou que Carlos Eduardo Sundfeld Nunes estava em um surto psicótico. Para ele, o universitário quis atingir todo o grupo religioso ao matar o seu líder.

Velório

O velório dos corpos de Glauco Villas Boas e de seu filho Raoni ocorreu na Igreja Céu de Maria, na Estrada Alpina, em um condomínio de Osasco. Um dos primeiros a chegar foi o diretor editorial da Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, que não escondeu sua admiração pelo cartunista:

Outro cartunista da Folha se emociona ao falar da arte de Glauco Villas Boas. Angeli sublinhou que ele fazia um humor especial com um traço inimitável. 

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