“Culturalmente, uma pessoa passa a ser admirada por aquilo que consome. É uma cultura massificante, inclusive pelas propagandas, pela TV e o número de crianças consumistas está cada vez mais elevado.” Esse é o balanço que a psicóloga Suzy Camacho faz do consumismo que domina a nossa sociedade.

É o caso da estudante de artes cênicas, Gisele Cruz de Carvalho, 22, que é compulsiva por compras. “Eu compro principalmente roupa e sapato. Se tenho dinheiro, eu compro, e se for por boleto ou em parcelas eu também compro. Eu já me endividei horrores porque gasto muito mesmo. Já cheguei a pedir um empréstimo, mas tem tanta gente fazendo empréstimo para pagar contas e eu aqui fazendo empréstimo para comprar roupas”, diz.

Suzy Camacho, autora do livro Guia Prático dos Pais, que tem um capítulo dedicado ao consumo, diz que exagerar nas compras é uma forma de satisfação imediata dos consumidores compulsivos. “Às vezes a pessoa está passando por um momento difícil e, para esquecer os problemas, ela compensa por meio das compras. Mas também pode ser um sinal de transtorno bipolar, que é mais comum em pessoas do sexo feminino. O transtorno pode ficar evidente quando a mulher está com sintomas menstruais ou algum tipo de euforia e ela sente a necessidade de comprar para se sentir bem.”

Porém, Gisele afirma que não vê esse consumo exagerado como uma doença: “Nunca pensei em fazer tratamento, já ouvi falar que é doença. Muitas pessoas falam, mas eu acho que sou muito influenciada pelo o que eu vejo. Tem aquelas modelos, por exemplo, com uma roupa legal ou na faculdade mesmo, quando eu gosto da roupa de alguém eu procuro saber onde ela comprou e vou atrás de uma parecida”.

Ela reconhece que compra coisas desnecessárias. “Às vezes eu penso assim: eu vi agora esta roupa, não vou ver nunca mais, então preciso ter. Eu compro por impulso… Aí eu compro sapato e roupa, mas também penso que não posso repetir os acessórios, então procuro uma bolsa e bijuterias. Uma vez comprei um vestido de mais ou menos R$ 200 e usei uma vez só. Eu não sou de sair muito e era um vestido pra noite, então acabei usando em casa mesmo, acho que foi no Natal. Tem roupas que eu compro e fico um ano sem usar. Eu compro, depois olho direito e não gosto, mas tenho que usar pelo menos uma vez antes de passar pra frente.”

Para a psicóloga, no momento em que a pessoa está se endividando e quando ela sabe que os gastos são totalmente desnecessários, é preciso iniciar uma terapia cognitiva-comportamental, que serve para orientar a pessoa a obter prazer de outras formas e não através das compras. “O tratamento do transtorno bipolar dura em média seis meses por causa da medicação. Já o de compulsão, de três a quatro meses. Mas tudo depende do comprometimento.”

Hoje, a estudante diz que está mais “racional” em relação aos gastos: “Minha mãe tinha dois cartões de conta conjunta, aí eu fui passando do limite e ela cortou. Então eu comecei a trabalhar pra pagar o que eu gasto. Gasto quase todo o salário e separo o dinheiro do almoço. Uma vez abri uma conta poupança, mas eu via o dinheiro lá e não agüentava, gastava tudo. Porém, agora estou mais controlada do que antes, apesar de toda semana comprar alguma coisa”.

Sem mais artigos