O trote já é uma tradição nas faculdades brasileiras. As listas dos aprovados nos grandes vestibulares sempre aparecem acompanhadas de várias matérias sobre essa prática. Infelizmente, a maioria delas é sobre o caráter violento que esse rito de passagem vem tomando nos últimos tempos.

A tradição já causa polêmica há pelo menos dez anos quando, no dia 22 de fevereiro de 1999, o calouro do curso de medicina da USP Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado na piscina do campus.

Em um dos fatos mais recentes, as principais notícias foram sobre o trote do curso de medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Na ocasião, os calouros foram espancados com peixes, receberam cuspidas na cara, tiveram que beijar um fígado de boi podre e, ainda, foram amarrados a uma cruz onde foram alvos de ovos podres. Nesse caso, providências foram tomadas: a UMC divulgou, hoje, que resolveu suspender quatro veteranos envolvidos.

Outro caso muito falado foi o do calouro Bruno César Ferreira, que foi aprovado no curso de veterinária da Faculdade Anhanguera de Leme, interior de SP. Ele e outros “bixos” rolaram em uma lona com animais mortos e fezes. Depois, o garoto de 21 anos foi obrigado a beber cachaça e acabou entrando em coma alcoólico.

A prática do trote é proibida e desencorajada pelas faculdades, mas as instituições não conseguem controlar o que os alunos fazem fora dos limites do campus. Para preencher esse vazio, a USP conta com o Grupo de Trabalho Pró-Calouro que orienta a recepção dos novatos e o Disque-Trote, uma espécie de disque-denúncia das práticas violentas.

Para o Prof. Dr. Oswaldo Crivello Junior, coordenador do Grupo, as iniciativas da USP em relação à recepção aos calouros demonstram a importância que a Universidade dá ao momento do ingresso do novo aluno. “Essa recepção deve ser realizada em conjunto entre a unidade e as entidades estudantis”, afirma. “Há limites a serem respeitados.”

Para proteger e delinear esses limites, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) conta, desde 1999, com uma resolução que pune qualquer ato vexatório e violento contra os calouros. Este ano, na unidade de Arquitetura, Artes e Comunicação de Bauru, os veteranos receberam folhetos de orientação que alertavam para as medidas acadêmicas de punição e os riscos do uso de tintas, tesouras e bebidas alcoólicas.

Cabe ao aluno procurar por esse tipo de serviço, o que nem sempre acontece. “Em relação ao número total de ligações, o percentual de denúncias, de 2006 a 2010, tem ficado entre 5% a 8%. Em números absolutos a média fica entre 20 a 30 ligações durante as 4 semanas de funcionamento do Disque-Trote”, conta Crivello.

Outra opção que vem conquistando cada vez mais espaço entre as instituições é o Trote Solidário. Nessa prática, os calouros trocam a tesoura e a tinta por atividades de cunho social. Assim, “bixos” e veteranos se reúnem para doar sangue, visitar asilos e creches, arrecadar alimentos ou até apagar as anotações dos livros da biblioteca do campus, como fizeram os calouros do curso de psicologia da USP. Bem melhor do que apanhar com um peixe podre.

Trote violento dá lugar a ações de cidadania

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