O que você faria se tivesse R$ 50,00 para gastar todo mês para ir ao cinema, teatro, shows ou até mesmo para comprar livros, CDs e DVDs? Pois é isso que o novo Projeto de Lei do governo vai garantir aos trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos mensais. Com um cartão magnético, o empregado terá o direito de consumir os bens e produtos culturais que bem desejar.

Conforme a medida, o empregador terá abatimento de imposto ao disponibilizar o Vale-Cultura para seus trabalhadores, assim como acontece com o Vale-Transporte e Refeição. Segundo o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o projeto que prevê a criação do benefício chega ao Congresso Nacional ainda nesta semana para ser analisado e votado.

Ainda de acordo com informações do ministério, apenas 13% da população brasileira têm acesso a manifestações culturais e o Vale-Cultura poderá incluir de 12 a 14 milhões de pessoas no mercado de consumo cultural. No auge da discussão, muita gente ainda não sabe se o novo projeto vai estimular de fato a cultura do país. Por isso o Virgula foi conversar com quem mais entende de cultura: os artistas que disseram o que pensam sobre a nova medida.

“Sempre se ouve falar que, em tempos difíceis, um dos primeiros itens a serem cortados é o lazer, a cultura”, lembra Fernanda Takai. “Acho que um Vale-Cultura será algo surpreendente. Tomara que dê certo”, diz a vocalista do grupo Patu Fu. O ator e dramaturgo Gero Camilo acredita que qualquer atitude que possibilite a aproximação do público com a arte e a cultura de seu país é muito benéfica.

“Esse é um momento de crise, por isso é urgente essa aproximação das pessoas com a cultura. Fazer com que elas tenham acesso à cultura é fundamental”, diz o artista. Se para alguns a questão de como o trabalhador vai gastar seu dinheiro é preocupante – afinal, a verba sairá do bolso do contribuinte – para Gero Camilo, a pessoa deve ter o direito de decidir o que deseja consumir de arte.

“Não é possível criar um GPS para descobrir se o trabalhador vai ao pagode, funk ou ópera”, diz o ator. “O importante é criar a acessibilidade, porque pior é a pessoa nem ter acesso a isso e ficar em casa deprimido porque ganha um salário que não lhe dá condições financeiras de usufruir de sua cultura”, conclui.

O diretor de teatro Ruy Cortez (Rosa de Vidro e Lázaro) acredita que “qualquer iniciativa de valorização da cultura é bem-vinda”. Entretanto, o dramaturgo ressalta que a maior questão não é o que as pessoas vão escolher, mas sim quais bens estão disponíveis para elas. “Existe uma preocupação com a produção, mas muitas vezes sofremos com a difusão da cultura. Isso acaba criando um beco sem saída”, diz Cortez. “O governo também tem que voltar sua atenção para isso”, conclui.

Apesar de acreditar que o Vale-Cultura será um incentivo para a população ver filmes, peças, comprar livros e mais, o roteirista e diretor de filmes Fabio Camarneiro (Assombração Urbana e Na Estrada) também ressalta a necessidade de políticas públicas para a formação do público.

“É importante formar gente que pensa a cultura e que sabe lidar com a informação cultural e não apenas gente que consome a cultura”, diz Camarneiro. “Vale-Cultura, por enquanto, só forma consumidores. Se a coisa toda ficar por aí, e não tivermos políticas de formação de público, o benefício será apenas da indústria cultural, e não da cultura brasileira”, afirma.

Já para Baixo Ribeiro, curador e um dos donos da galeria Choque Cultural, “toda a sociedade deve ter mais acesso à cultura, mas acho que o caminho é incentivar mais a produção cultural”. “O Vale-cultura pode acabar simplesmente promovendo uma competição por eventos mais populares e apelativos”, conclui.
 
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