“Esse cara deve estar doido”, pensei quando soube que um amigo, o publicitário Rodrigo Cisman, 30 anos, pedalaria sua bicicleta de Socorro (SP) rumo ao México, 45 mil km continente adentro, ao longo de três anos. Afinal, o que leva uma pessoa com emprego fixo, apartamento, amigos e namorada a largar tanta coisa para uma empreitada tão cansativa? Falei com o cara, que nunca havia viajado de bike antes, uma semana depois de ele começar sua jornada, no fim de setembro. Ele tem a convicção de estar realizando um grande sonho.

Rodrigo me falou de outras pessoas que fazem ou fizeram grande viagens em duas rodas: um arquiteto que deu a volta pelo mundo inteiro ensinando crianças de diferentes países, um fotógrafo que está pedalando o Brasil para clicar pessoas em suas bicicletas e um casal ativista que percorreu a América do Sul por dois anos.

Eles deram seus depoimentos para esta reportagem e entendi que, para essa galera de bicicleta na estrada e sonhos na cabeça, o mais importante é o percurso, o contato com gentes e mundos, não a chegada. Aqui embaixo, vão as histórias que eles contaram.

Rodrigo Cisman, do projeto Bike America
Sem nenhuma experiência de viagem anterior (nem sequer uma cicloviagem de fim de semana), Rodrigo abraçou o projeto de ir até o México de bicicleta. Ele partiu no fim de setembro e calcula que levará três anos para concluir a jornada. Ele mantém um blog em que conta suas aventuras.

“O Bike America é, em primeiro lugar, um projeto de vida. Estava cansado de morar em São Paulo e levar aquele velho estilo de vida, casa-trabalho-casa.

Em um mochilão que fiz em 2012, conheci um norte-americano que havia acabado de completar uma viagem de bicicleta, atravessando a América de ponta a ponta. Depois disso, comecei a considerar uma viagem de bicicleta. Fiz alguns cursos, pesquisei e conversei com quem já havia feito.

Um dos meus objetivos de viagem é fazer um ensaio fotográfico sobre a interação homem-mar, nossas interferências, os resultados, a vida marinha. Outro é fazer um mapeamento das comunidades caiçaras ao longo de todo o litoral, com fotos e textos.

Viajar de bicicleta permite aproveitar cada momento, cada paisagem, cada metro percorrido. É um ótimo exercício. Dá pra viajar com pouco dinheiro. Não polui. Não faz barulho. Faz bem para a mente. Estou dormindo e acordando com muito mais facilidade.

Além disso, a aproximação das pessoas é muito legal. Muitos motoristas, seja de caminhão, carro ou moto, buzinam, cumprimentam, param pra conversar, desejam boa viagem. Muitos mesmo. Chutando por cima, recebo ao menos 20 buzinadas cada dia que estou na estrada.”

Argus Caruso, do Projeto Pedalando e Educando
O arquiteto viajou por 28 países dos cinco continentes entre 2001 e 2005. Ele passou por rotas históricas e regiões geograficamente interessantes para registrar a experiência em fotos e textos e ensinar crianças mundo afora. Além de visitar salas de aula em quase todos os países em que esteve, Argus narrou suas aventuras em seu site.

“Conheci muita gente bacana na jornada, me deparei com professores e pessoas interessadas que me levaram às salas de aula, para falar sobre minha viagem. Na maioria das vezes, eu entrava com a bicicleta dentro das escolas, e as crianças sentiam que participavam da minha aventura. Para elas, eu era um herói viajando o mundo, um professor que contava histórias sobre o que viveu e não sobre o que leu.

Eu visitei escolas caríssimas, superequipadas, mas também lugares muito pobres. No Cambodja, crianças saíram correndo atrás de mim, na rua, pedindo que eu as ensinasse. Elas queriam aprender, mas não havia professores para dar aula, já que quase todas as pessoas que sabiam ler e escrever haviam sido mortas pelo governo de Pol Pot.

A bicicleta foi a melhor escolha para viajar. A velocidade é boa, você consegue observar as coisas e conversar com pessoas. Há a facilidade de atravessar fronteiras que um carro não teria. Alguns policiais até ofereceram comida e bebida para mim. As pessoas percebem o seu esforço e são simpáticas com você.

O mais importante que aprendi na viagem foi viver com pouco. Na bicicleta, você tem de carregar o mínimo possível, e eu conseguia ser muito feliz tendo pouquíssimas coisas materiais. Isso eu carrego para a vida.”

Felipe Baenninger, do projeto Transite
O fotógrafo está na estrada clicando brasileiros que utilizam a bicicleta como meio de transporte. Felipe, que planeja rodar todos os estados brasileiros , já passou por nove. Ao fim da jornada, daqui a pouco mais de um ano, ele produzirá um livro com relatos e imagens de suas aventuras.

“O Transite é uma documentação fotográfica sobre a cultura da bicicleta no Brasil. Planejei tudo por cinco meses e, para custear a viagem, criei um projeto de financiamento coletivo do fotolivro, em que serão contadas as histórias dos personagens que eu tenho conhecido.

Na estrada, você experimenta sensações como o estresse corporal e a falta de regularidade, mas tudo é compensado pelas experiências vividas.

Eu utilizo a internet para encontrar pessoas que simpatizam com o meu projeto e que me cedem espaço para descansar, tomar banho e lavar a roupa. Tomar café da manhã com diferentes pessoas e ouvir sobre a vida delas é uma experiência muito gratificante.

A bicicleta é, acima de tudo, um instrumento para conectar pessoas. Eu sou de São Paulo, e, desde que a bicicleta entrou em minha vida, passei a ressignificar muita coisa.Comecei a enxergar a cidade de forma diferente e a interagir mais com pessoas no meu caminho.”

Andre Costa e Ana Vivian, do projeto Pedarilhos
O casal Ana Vivian (que dá seu relato de viagem aqui embaixo) e Andre Costa inaugurou a primeira loja virtual especializada em cicloturismo no Brasil. Depois de realizarem algumas viagens mais curtas, eles decidiram pegar a estrada sem datas e sem metas. Passaram dois anos atravessando seis países da América do Sul, e contando sobre a experiência em um blog.

“Para poder viajar desta maneira, tivemos de abrir mão de muitas coisas. Esvaziamos nosso apartamento, vendemos muitos objetos, doamos muitas coisas, deixamos para trás conforto e nos separamos temporariamente do convívio com a família e amigos.

É difícil escolher momentos mais marcantes da viagem, porque cada dia é muito diferente. Nos lembramos exatamente de como foi cada dia da viagem, e isso é algo que consideramos muito belo, o mais especial em uma viagem de bicicleta.

Somos muito gratos a todas as pessoas que cruzaram nosso caminho. Uma vez, encontramos um senhor próximo a Natal (RN) que parou no acostamento em uma moto e fez sinal para nós. Ele queria nos convidar para almoçar em sua casa, disse que era ciclista profissional e que sabia como era estar na estrada. Ele vivia de maneira muito simples com sua família. Passamos a noite lá, armamos nossa rede na varanda e ouvimos suas histórias. Foi uma grande lição de confiança e gratidão.

No blog, mais do que apenas contar nossa história, queremos falar para as pessoas: ‘Olha, viajar de bicicleta é pura diversão, saúde, esforço, belas experiências. Nós vivemos isso, qualquer pessoa disposta pode viver isso à sua maneira. Não é nada complicado, nem caro’.

Com a viagem, passamos a valorizar mais o contato diário com a natureza. É uma maneira de nos lembrarmos todos os dias que estamos aqui brevemente, e que é preciso aproveitar todos os dias fazendo coisas em que acreditamos.”

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