Com tambores, cantos, bailes e, principalmente, muitas cores, os indianos tomam às ruas nesta quarta-feira (27) para dar as boas-vindas à primavera com o Festival de Holi, a celebração mais divertida e ensandecida do país.

Com o desejo de comemorar a chegada do bom tempo e de afugentar os maus espíritos, milhões de indianos de todas as idades vão às ruas para travar uma intensa batalha de água e pós multicoloridos, exaltando uma rica mistura de cores e pessoas.

“É uma festa de felicidade e esperança perante a chegada da época da fertilidade”, disse Rohan, um morador de Nova Délhi que trazia o rosto pintado com tons de amarelo, verde, azul e vermelho.

O chamado festival da cor, que paralisa a Índia e atrai cada vez mais turistas do mundo todo, é celebrado na primeira lua cheia de março, sendo que suas origens se remetem a diferentes lendas mitológicas dos hindus.

De acordo com uma tradicional narrativa hindu, a origem da festividade possui uma ligação com o rei dos demônios Jirania Kashipú, que tentou matar seu filho Prajlad várias vezes por causa da devoção do mesmo ao deus Vishnu, tendo em vista que só Kashipú podia ser venerado em seus domínios.

Diante de suas frustradas tentativas de matar Prajlad, Kashipú ordenou que sua filha Hólika, imune ao fogo, entrasse junto com seu irmão em uma fogueira para queimá-lo.

No entanto, a filha do rei acabou ardendo na fogueira, enquanto Prajlad seguia vivo. A moral da história gira em torno da vitória do bem sobre o mal, mas hoje acaba sendo reconvertida em uma agitada e divertida celebração.

Outra lenda aponta que o deus Krishna, por causa de seu imortal amor por Radha, lançou cores no rosto da mesma para escurecê-la, já que ela tinha a pela mais clara do que a dele.

Assim, Krishna daria início a festa da cor, a qual consegue atenuar momentaneamente as gruitantes diferenças sociais da rígida sociedade indiana, já que essa é a única celebração que envolve todo país.

“É precioso. O povo se pinta e arremessa pós coloridos como se conhecessem seu suposto oponente a vida toda”, afirmou Andrea, uma turista espanhola que aproveito a ocasião para conhecer Nova Délhi.

Além da guerra de cores, os jovens indianos também aproveitam a festividade para paquerar. Isso porque, nesta data, as conservadoras normas sociais indianas acabam relaxando um pouco, enquanto o uso do “bhang”, uma bebida de leite com maconha, ajuda a quebrar a timidez.

Além da habitual guerra colorida, o Festival de Holi deste ano terá um componente reivindicativo em Vrindavan, lar de aproximadamente 15 mil viúvas abandonadas por suas famílias, as quais esperam a morte na cidade em que Khrisna iniciou a festividade, para escapar do círculo de reencarnações da vida e da morte.

Pela primeira vez no festival, aproximadamente 800 viúvas desta cidade do norte da Índia realizarão o Holi com flores e bailes, uma prática vetada pela tradição hindu, que proíbe que estas mulheres de participar de expressões festivas e, inclusive, o uso de joias.

“As viúvas querem ser normais. Elas também têm aspirações que desejam cumprir”, afirmou ao jornal “The Times of Índia Bindeshwar Pathak, diretor da ONG Sulabh International, que organizava o evento entre as viúvas.

Em Maharashtra, no entanto, as celebrações foram contidas perante o pedido das autoridades de economizar, já que este estado ocidental da Índia sofre sua pior seca desde 1972. Aliás, esse pedido chegou a ser encabeçado por estrelas de Bollywood e outras celebridades.

“Seca em Maharashtra? E só estamos em março. Que ocorrerá em março? Economize água, jogue um Holi seco!!”, afirmou a estrela cinematográfica Amitabh Bachchan.

Além do aviso referente à economia de água, as autoridades indianas, assim como todos os anos, também alertam sobre os riscos dos pós coloridos, que, em algumas ocasiões, são fabricados com metais ou tinturas industriais que podem causar intoxicações.

“Muitos dos pós têm uma base alcalina que pode causar problemas na visão”, assegurou um porta-voz da Clean Índia, uma ONG meio ambiental em seu site. 

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