O “wingsuit“, esporte de alto risco que consiste em planar sobre o contorno de uma montanha a cerca de 160 km/h com um traje que incorpora membranas como se fossem asas, provocou polêmica na França após a morte de cinco desses homens-pássaro apenas neste verão.

“É muito espetacular, produz imagens muito bonitas, mas é muito perigoso”, resume Jean-Michel Poulet, diretor técnico da Federação Francesa de paraquedismo, organismo que não reconhece o “wingsuit” entre suas disciplinas.

Nesta sexta-feira (23), a polícia de Berna, na Suíça, confirmou a morte de um espanhol de 51 anos durante um salto de “wingsuit” por causa de uma falha no equipamento de vôo.

O nome da vítima não foi divulgado, em obediência à legislação suíça, mas a imprensa espanhola diz se tratar do aventureiro e apresentador Álvaro Bultó, de Barcelona.

A vítima estava acompanhada de vários praticantes. O traje “não abriu por razões indeterminadas e a vítima efetuou assim um salto mortal”, afirma o comunicado da polícia. “Os serviços de socorro foram enviados imediatamente, mas só puderam constatar sua morte”, acrescentaram.

Além do espanhol, um alemão, um polonês, um britânico e dois franceses morreram na França desde o dia 26 de julho, assim como o paraquedista que deu vida ao agente secreto James Bond na cerimônia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, Mark Sutton.

O dublê de 007 se chocou no dia 14 de agosto contra uma colina rochosa dos Alpes suíços, após saltar de um helicóptero a três mil metros de altura, o que causou dúvidas sobre um esporte desconhecido para o grande público e que causa pelo menos duas dezenas de mortes ao ano no mundo todo.

Os planadores de “wingsuit” praticam o salto em queda livre de um ponto fixo, ou seja, se jogam de um morro ou penhasco vestidos em um traje que faz com que pareçam morcegos e que custa de US$ 650, o modelo mais simples, até US$ 2 mil um profissional.

Parte da beleza do salto, que dura cerca de dois minutos em velocidades que podem alcançar 200 km/h, está em voar muito perto do contorno da montanha por vários quilômetros antes de aterrissar com um paraquedas.

“Voa-se muito perto do solo e das árvores, como os pássaros”, explica Poulet, que insiste que é uma disciplina muito perigosa e só reservada a paraquedistas especialistas.

O “wingsuit” só é permitido para quem tem uma sólida experiência como paraquedista, com pelo menos 500 saltos de queda livre convencional ou 200 saltos nos últimos 18 meses.

Pelo menos, para quem se importar em fazê-lo de um avião autorizado pela Federação Francesa, que não realiza saltos de falésias e penhascos, onde se registram a maioria dos acidentes.

A origem do “wingsuit” remonta a 1930, mas a prática moderna foi inventada na metade dos anos 90 pelo francês Patrick de Gayardon, morto no Havaí em 1998 durante o teste de uma nova versão de seu traje. Desde então foi ganhando adeptos. Na França estima-se que haja 300 praticantes.

Alguns deles buscam saltos em outros países, como Suíça, Noruega, China, Estados Unidos e Espanha, onde também é praticado.

“Há dois ou três anos aumentou o número de gente interessada. Agora está estável”, acrescenta o diretor técnico da Federação Francesa de paraquedismo, que lamenta haver inclusive “gente que não passa pelo paraquedismo, compra um traje e começa no ‘wingsuit’, o que provoca muitos acidentes”.

Parte do atrativo deste esporte passa por voar com uma pequena câmera junto ao corpo e gravar o salto para depois publicá-lo na internet.

As imagens prendem o fôlego pelo perigo que mostram, mas enfeitiçam também pela beleza das quedas, com gravações de planadores que quase roçam nas árvores e que, inclusive, se lançam no vazio com uma lata fumegante nos pés para marcar o trajeto.

No entanto, especialistas concordam que se trata de uma prática muito técnica e a comparam à Fórmula 1, onde qualquer falha pode ser fatal.

Thomas Malahel, instrutor de queda livre nos Alpes que conta com 10.600 saltos no currículo, embora “só” 200 a partir de montanhas ou penhascos, relaciona a atração do “wingsuit” com esportes como o alpinismo, acrescentando a beleza do salto.

“Mas passar a dez metros do solo é uma idiotice”, sentencia Malahel, que considera que há muitas chances de algo dar errado a uma velocidade tão alta e tão próximo da montanha.

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