Se tudo tivesse saído como o planejado, Omid teria morrido junto com a carga que seria explodida contra um comboio militar no Afeganistão, mas o jovem pensou melhor e fugiu do centro talibã onde era treinado.

Este afegão de 18 anos, natural da província de Herat, rebatizado pelos talibãs como “Wahidulá“, foi recrutado pelo grupo terrorista, que o treinou para participar de uma “missão suicida”, segundo contou em entrevista à “Agência Efe”.

“Recebi um treino diferente, mas também ideológico. Alguns mulás paquistaneses chegaram a me dizer que iria para o paraíso depois de cometer o atentado suicida”, lembrou o jovem.

Os talibãs costumam recorrer a ataques suicidas em sua luta contra as tropas internacionais desdobradas no país, a fim de derrubar o governo do presidente Hamid Karzai e implantar um regime fundamentalista islâmico, como já fizeram entre 1996 e 2001.

Para este tipo de ataques, no entanto, costumam utilizar jovens humildes que são treinados em áreas sobre controle do próprio Afeganistão ou do Paquistão, como aconteceu com Omid, que foi levado a Quetta.

Omid, que hoje se veste com roupas características de populações ocidentais – calça jeans e camisa cinza – foi acolhido pelo Programa Afegão para a Paz e Reintegração (APRP), que procurar reinserir os talibãs que abandonam as armas e resolvem voltar à sociedade.

Porém, de sua experiência com os insurgentes, Omid conserva apenas medo de que os talibãs queiram se vingar por conta de sua fuga, por isso se nega a ser fotografado.

“Os talibãs sabem que passei para o lado do processo de paz e se me encontrarem, serei morto”, diz Omid, que teve que fugir da casa de sua família.

Omid foi capturado por um comandante do talibã local, conhecido como Aminulá, que segundo o ex-recrutado ofereceu para que ele trabalhasse em sua associação “de caráter cultural”. Porém, após vários meses como “mensageiro”, pediram que Omid viajasse para Quetta.

“Ali, havia um mulá de barba cumprida que me deu as boas-vindas de uma maneira muito agradável. Fiquei surpreso em saber que eles tinham todas as informações sobre mim. Depois, começaram os treinamentos. Fiquei lá por cinco meses”, contou o jovem.

“É óbvio que ninguém quer se suicidar, exceto aqueles em que eles fazem lavagem cerebral. Eles escutam o que os talibãs falam, que nós iremos para o paraíso após cometer os atentados e que devemos ajudar a salvar o islã dos invasores”, acrescentou.

De acordo com Omid, os jovens treinavam em um recinto em Quetta que era protegido por muros muito altos e isolados de contato com o exterior. Ali, entre outras coisas, nos mostravam vídeos nos quais ‘infiéis matavam muçulmanos de diferentes países”.

“Em um lugar assim, é difícil pensar que possam estar te guiando de forma incorreta. Felizmente eu não cheguei à fase do ataque suicida”, disse o jovem.

Omid voltou a Herat para tratar de alguns problemas de saúde e ali, seu pai, após espionar, descobriu o tipo de formação que seu filho estava recebendo e lhe enviou a alguns clérigos de Herat para que eles tentassem convencer Omid de “ser um menino normal, como os outros afegãos”.

“Após voltar de Quetta, demorei dois meses para compreender que tinha tomado o rumo errado e que deveria repensar as coisas”, disse Omid.

Hoje em dia, poucas coisas indicam que Omid já fez parte desta organização terrorista. Em janeiro de 2011, o jovem se uniu ao programa de reintegração, voltou à escola e espera ter a sorte de receber uma bolsa de estudos.

“Quero ser engenheiro no futuro, porque sou bom em matemática e pretendo servir a meu país. Essa é a responsabilidade de todo afegão”, sonha Omid.

De tempo em tempo, reconhece, recebe ameaças dos talibãs locais, e quando seu telefone recebe chamadas que não são locais, não atende.

“Antes tinha medo, mas agora não me importa tanto. Estou acostumado”, disse. 

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