Lembra daquelas meias de lurex coloridas de ‘Dancing Days’ ou então o anel-pulseira que a Jade usava na novela ‘O Clone’ que você foi correndo até a 25 de março para comprar? Foi a figurinista Marília Carneiro (70 anos), da TV Globo, quem assinou a criação desses e de muitos outros “modismos de novela”, que como mágica, viraram febre e se espalharam pelas ruas do Brasil. 

Em conversa com o Virgula Lifestyle, Marília, que desde o início da década de 70 cuida dos figurinos das tramas da emissora, explicou o processo de construção dos visuais de personagens, revelou qual foi seu trabalho mais desafiador e nos contou outras cositas más sobre os bastidores das novelas. Dá uma olhada no nosso bate-papo: 

Como é o processo de construção dos figurinos e quanto tempo leva? 

Em primeiro lugar, lendo a sinopse. Você precisa saber se a personagem é de classe média, classe alta ou pobre. Depois disso, você estuda a personalidade dela e a partir disso constrói seu visual. Muitas vezes eu penso até no signo que a personagem teria. O físico do ator também pode me inspirar. Eu levo três meses para construção dos figurinos. Mas se for necessário, vou mudando algumas coisasao ongo da novela. 

Você lembra qual foi o maior “modismo de novela” já lançado por você?

Com certeza a meia de lurex colorida usada por Sônia Braga em “Dancing Days” que virou uma febre no Brasil. Fiquei espantada como aquilo se tornou uniforme das mulheres naquela época. Outro acessório foi o anel-pulseira que a Jade, interpretada pela Giovanna Antonelli, usava. Eu lembro que logo depois que apareceu na TV você já via a maioria das meninas usando o acessório na rua.

Qual figurino de novela foi mais desafiador na sua carreira?

Todos os trabalhos são desafiadores, mas a novela “Gabriela” foi um susto para mim. Eu achava que não ia conseguir cumprir o meu trabalho. Naquela época não tinha internet, então eu precisei ir até o Sertão estudar de perto como aquelas pessoas viviam, como se comportavam e o que vestiam. Eu era uma mocinha de Ipanema que precisou ir conhecer um outro mundo para trabalhar no figurino da trama. Esse contato foi enriquecedor e ao mesmo tempo desafiador.


O Rebu (1974)/ Dancing Days (1978)/ Gabriela (1975) 

Algum artista se opõe a vestir algo?

Sempre tem um ou outro que gosta de dar palpite. Mas quando isso acontece, nós sentamos e cada um levanta seu ponto de vista, afinal, é uma parceria. Às vezes eles têm razão, então eu acabo cedendo.

Se o público não gosta de alguma coisa, o retorno é rápido?

É imediato. A gente recebe ligações e muitos e-mails. Na novela “Em Família”, a Giovanna Antonelli estava de franjinha e a rejeição foi de A a Z. Tive que dar um jeito de tirar a franja dela no dia seguinte. A mudança também precisar ser imediata. 

Você reutiliza figurinos de uma novela para outra?

As roupas que vêm da loja, nós compramos com uma verba chamada “de implantação”. Depois, vem o processo de “manutenção”. É nele que nós reutilizamos as roupas de uma novela para outra. Eu renovo, corto a manga ou tinjo de outra cor. É um processo bem gostoso.

Você sente saudades de algum trabalho?

Eu sinto muita saudade do”O Clone”. Eu amei fazer o figurino da Giovanna Antonelli. Ela tava no auge da beleza e a parceria com o Murilo Benício encantando as pessoas. Para compor o figurino eu me inspirei nas coleções de Yves Saint Laurent, que é louco pela cultura do Marrocos. Tudo deu muito certo na novela, foi um momento mágico. Não é à toa que seu figurino foi um dos mais copiados da história. 

Para você que atua na área já algum tempo, sente que o trabalho é diferente hoje em dia? 

Antigamente tudo era mais permissível e talvez por isso hoje em dia seja menos emocionante. Na pesquisa dos tempos atuais, por exemplo, você não vai muito a fundo. Com internet você acaba tendo tudo em mãos muito rápido. Nos anos 70 eu tinha que ralar, ir atrás de informação.

Veja na galeria acima mais alguns dos figurinos de Marília Carneiro! 
 

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