Especial Mês do Rock: A nova cara do rock nacional

Fresno

Na segunda parte do especial A Nova Cara do Rock Nacional, que investiga os novos caminhos do rock produzido no Brasil, o Virgula Música entrevista Tim Bernardes, vocalista e principal compositor da banda paulistana O Terno

O trio, completado pelo baixista Guilherme Peixe e pelo baterista Victor Chaves, não é dos mais fáceis de se digerir. Com arranjos instrumentais complexos e letras que falam da paixão fogosa de um casal de assassinos – entre outros temas igualmente esquisitos – O Terno ganhou espaço pela internet, e menos de um mês após o lançamento do álbum de estreia, 66, já é considerado uma das grandes promessas do cenário musical brasileiro.

Desencantado com o rock previsível da geração oitenta e apaixonados pelo experimentalismo dos sessenta – “somos fanáticos pelos Mutantes” – , Tim Bernardes é ao mesmo tempo o crítico e o objeto da crítica afiada da faixa-título do álbum, que ganhou um dos clipes mais criativos e bem produzidos da história recente da MPB.

“Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar se até cantar sobre ‘Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar?’ já foi cantado por alguém?”, pergunta Tim na canção, de sorriso aberto e figurino que parece adquirido em um brechó.

Admirador de Tulipa Ruiz, KassinRafael Castro – “o Frank Zappa de Lençóis Paulistas” -, Tim foi influenciado pelo próprio pai, o compositor, cantor e saxofonista Maurício Pereira. A parceria familiar é abundante em 66: Maurício escreveu metade das canções no álbum, e canta na maioria delas. Mas Tim destaca que, apesar da aliança entre gerações, o foco d’O Terno está permanentemente voltado para as novidades e, ao mesmo tempo, para os lugares incomuns da música pop.

Virgula Música – Na letra de 66 você fala sobre a dualidade do rock atual, em que bandas repetem o que já foi feito nas décadas passadas para criar algo novo. Qual foi sua intenção ao escrever sobre isso? Foi um conflito pessoal ao tentar definir a sonoridade d’O Terno?

Tim Bernardes – Essa música é anterior à banda, depois resolvemos tocá-la com O Terno. Ela fala não só sobre o rock, mas sobre toda a cena atual. Tem pessoas que dizem “se não for dos anos sessenta eu não vou gostar”, e ao mesmo tempo tem aqueles amigos que vão estar em uma onda do tipo “não, tem que ser uma coisa nova, tem que dar continuidade à linha evolutiva da MPB”. Então não importa o que você fizer que alguém vai cair metralhando. Teve um tempo em que eu queria fazer música mas não conseguia, porque se eu fizesse de um jeito, iam responder assim, e aí de repente eu fui escrevendo tudo o que eu tava pensando. Ultimamente esse cenário indie tem crescido, essa coisa de ser hype ou não ser hype, sabe? Essa coisa da moda ser coisa antiga. Depois que saiu o clipe veio um monte de gente fazer análises da letra, e agora que eu parei para pensar no que eu quis dizer. Na hora foi meio espontâneo.

VM – Mas no fim das contas O Terno é uma banda que tenta fazer algo novo com influência das coisas antigas, é isso?

TB – É (risos). É sim.

VM – O instrumental de vocês é muito trabalhado, e as letras abordam temas inusitados, como o amor entre dois serial killers em Zé, O Assassino Compulsivo. Em algum momento você pensou que o som d’O Terno seria muito difícil para o mercado em geral?

TB – Na verdade eu pensei até no contrário. Uma letra normal já passa batido, pelo menos para mim. Quis fazer uma letra chocante para alguém prestar atenção, sabe? Tem muita mesmice, dá vontade de matar todo mundo nas músicas (risos).

VM – Você acha que as grandes bandas do rock nacional, que estouraram anos e anos atrás e permanecem no circuito mainstream, ainda insistem nas mesmas fórmulas de sempre?

TB – Acho que rola, mas não sei exatamente se eles se acomodaram ou se foram as gravadoras pediram para eles ficarem nessa – o que eu acho uma besteira, porque aí não sai nada novo, não vai para frente. Essas bandas tiveram o lance de tocar muito no rádio, de atingir muita gente. Agora vamos ver se a internet é grande o suficiente para mudar isso.

VM – A internet facilitou o acesso a material antigo pelas gerações mais novas, e as próprias bandas de hoje vão buscar referências lá atrás. Você acha que esse fascínio pelas décadas passadas dificulta entender o som que se faz hoje em dia?

TB – Acho que a internet é muito boa tanto para conhecermos as coisas antigas quanto para divulgar as coisas novas. Acho que essa geração pós-internet ainda está tomando forma, depois de passar por um limbo nos anos noventa quando a internet não era tão forte. Ainda tá para chegar muita coisa legal.

VM – Além de ser uma questão de tempo – após esse limbo que você citou, o que falta para o rock nacional voltar às graças do grande público, como nos anos oitenta e noventa?

TB – Não sei direito. Nunca parou de ter bandas boas de rock, e cada década meio que teve um estilo principal. Nos anos setenta ainda havia bastante rock, e os anos oitenta eu acho meio triste – jabá dominando, música pop comercial com uma coisa ou outra que se salva. Até a geração que falam do rock brasileiro dos anos oitenta eu acho meio ruim. Os anos noventa foram meio perdidos, e agora que tá rolando essa coisa um pouco mais da década de sessenta podem aparecer mais bandas. E os rótulos também mudaram. Tem o Cidadão Instigado, por exemplo, que é do Ceará, e é esquisitão, não sei se dá para chamar de rock.

VM – Como você vê a relação que as bandas de hoje precisam ter com a internet, mantendo contato direto com os fãs? 

TB – Eu acho uma bela de uma salvação! Imagina quando era só rádio, TV, e sei lá. Uma banda independente não tinha muito como sobreviver. Acho que é importante sim, e às vezes é a única opção [para os artistas] no começo, e uma opção boa. Tem seus prós e seus contras, mas é melhor do que não usar. Também há muito mais bandas, né? Acho que deu uma diluída, também.

VM – Você acredita que a internet permitiu que as bandas novas, como O Terno, deixassem de depender da grande imprensa, como as gerações anteriores?

TB – De uma certa forma sim, mas a grande imprensa e a indústria fonográfica ainda são muito fortes. Não acho que a internet é suficiente para as bandas independentes conseguirem competir com as bandas que ainda estão em grandes gravadoras, mas já tá bem melhor. O Calypso, por exemplo (risos). Os caras são independentes e são uma banda gigantesca.

VM – O clipe de 66 “viralizou”, e em dois meses tem mais de 50 mil visualizações no YouTube. Você vai se sentir incomodado se O Terno virar uma banda hype?

TB – Não (risos). Ia me incomodar se a gente se acomodasse, ficasse curtindo “ser hype”. Mas se taxassem a gente de hype, eu ia querer fazer um monte de música bizarra para as pessoas gostarem de música diferente.

A Nova Cara do Rock Nacional - Ao seguir pelo caminho mais difícil, O Terno quer tirar a música do marasmo: "Tem muita mesmice"

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