Na terceira parte da série A Nova Cara do Rock Nacional, que investiga o presente e o futuro do rock produzido no Brasil, o Virgula Música entrevista Tiago Abrahão, da banda gaúcha Wannabe Jalva.

Com letras em inglês de levadas dançantes, o Wannabe Jalva muitas vezes lembra mais grupos ingleses ou norte-americanos do que os daqui. Formada em 2010, a banda é figurinha certa no circuito de shows e festivais independentes Brasil afora, e com uma velocidade impressionante, tornou-se referência na cena atual do rock tupiniquim.

Com apenas um EP no currículo (Welcome to Jalva, 2011), os gaúchos foram escolhidos no ano passado para tocar diante de milhares de pessoas no Estádio Zequinha, na abertura do show do Pearl Jam em Porto Alegre. “Foi um grande desafio. A gente achou que iria tomar uma p**a de uma vaia (risos)”, confessa Tiago. “A gente é rock, mas não é o Pearl Jam, né, bicho? Mas na real foi bem o contrário, a galera gostou”.

Pouco mais de seis meses depois, foi a presença misteriosa em uma lista de possíveis atrações do festival Planeta Terra que fez as páginas do grupo nas redes sociais explodirem de comemorações e questionamentos. Até agora, a banda não foi confirmada, e Tiago jura que eles não tiveram nada a ver com isso.

“Não sei de onde surgiu aquela lista. Ficamos bem surpresos, a gente não sabia de nada”, jura o guitarrista e baixista do grupo. “Mas esperamos que a gente consiga tocar”.


Virgula Música – O Wannabe Jalva surgiu em um momento em que, no cenário mainstream, há pouquíssimas novidades na linha do rock. Quase não se ouve mais guitarras nas grandes rádios. O que aconteceu com o rock nacional?

Tiago Abrahão – Eu acho que é uma consequência de vários movimentos. Tem um pouco das bandas se limitarem a terem menos guitarras, e tem do público também. É um jogo de toma-lá-dá-cá, eu acho. Mas eu vejo como uma coisa normal, ainda mais no Brasil, que é um mercado bem “esquisito”. Aqui fica tudo muito preso nesse rótulo de rock, e o que que é rock? Tem que ter guitarra para ser rock? A [Wannabe] Jalva tem guitarra, tem rock, mas não se limita ao rock – é um movimento de renovação. Na época do Nx Zero, da Fresno – que são nossos amigos – essas bandas usavam bastante guitarra, e usam até hoje, mas talvez por não se renovarem, não tenha surgido muitas coisas novas que dê para chamarmos de rock. Falta uma renovação do rock feito no Brasil.

VM – Mas ainda há espaço para o rock?

TA – Certamente. É um espaço obviamente menor do que o oferecido para os grandes artistas de outros estilos, como o sertanejo. Se um contratante chama o Wannabe Jalva, claro que não terá tanto retorno quanto o Thiaguinho lá, do pagode. Mas a gente não quer chegar aonde o cara chegou porque a gente sabe que, pra chegar lá, a gente tem que “massificar” o nosso som. Mas acho que se tu tiveres um trabalho bacana, um trabalho bem feito, você consegue bons lugares pra tocar, bons contratantes… É saber se colocar no mercado. Quanto mais você sabe quem você é, o que você faz, quem é o seu público, melhor vai ser a sua visão. Talvez esse seja um trunfo nosso. Desde o início a gente sabe o que tem, e para quem tocar.

VM – Muitas bandas novas aliam a influência de bandas do rock tradicional com outras sonoridades, às vezes bem distantes do rock. A nova cara do rock nacional pode surgir dessa mistura?

TA – Eu acho que que sim. Acho que temos que nos renovar, e quanto mais a galera misturar, mais essa identidade vai se formar. Não sei se é a identidade do rock, não sei olhar de fora. Mas o rock feito no Brasil tem que começar a olhar pros lados. Só assim dá para criar coisas novas.

VM – Se ainda há tantas bandas e tanto público, o que impede o “novo rock” produzido aqui de estar entre os mais vendidos, entre os sucessos de mercado, como em anos anteriores?

TA – É uma pergunta bem ampla… Tudo isso depende de um movimento conjunto. E a cena forte do Brasil tem um teto, né? Dificilmente você vai ter um movimento tão grande quanto o sertanejo. Mas acho legal também não saber muito bem o que você está fazendo, não calcular muito. Na época em que o Raimundos dominava a cena nacional, por exemplo, eu tenho certeza de que eles não tinham a menor noção do que estavam fazendo. Acho que é essa espontaneidade que faz a coisa acontecer.

VM – Então falta espontaneidade no rock nacional?

TA –  Talvez falte um pouco. Vejo bastante gente espontânea, muita gente fazendo som novo, mas por falta de organização da galera o som não chega às rádios, aos grandes festivais.  Também falta organização por parte das bandas.

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