Especial Mês do Rock: A nova cara do rock nacional

Fresno

Em pleno 2012, o rock nacional parece estar na UTI. As guitarras, que nunca dominaram as rádios, hoje praticamente só aparecem para compor os arranjos afiados de adocicadas canções pop. Fãs de todos os cantos do país correm às redes sociais para declarar o estilo morto, e bradar as saudades de um “tempo que não volta mais”. No entanto, há quem diga que o rock segue vivo e muito mais forte; basta apenas olhar de um outro ponto de vista.

No mês que comemora o Dia Mundial do Rock (13 de julho), o Virgula Música decidiu listar, na série A Nova Cara do Rock Nacional, alguns dos grupos que mantém o rock vivo, explícita ou sutilmente, sem medo dos holofotes do cenário mainstream. O primeiro deles é o Rancore.

Formado em São Paulo há cerca de dez anos, o quinteto não é exatamente novo. A banda criou raízes no hardcore melódico, e aos poucos deixou mais evidente as influências de rock clássico e música brasileira, atingindo, ano após ano, um público ainda mais amplo e diversificado.

Mas ao contrário de contemporâneos como Nx Zero ou Fresno, o Rancore nunca passou por um momento de “virada”. Mesmo chamando atenção de parte da mídia especializada e com apoio milhares de fãs em todo o país, a banda ainda é desconhecida de boa parte do público que aposta no rock para encher seus MP3 players.

Em entrevista exclusiva ao Virgula Música, o vocalista e principal letrista da banda, Teco Martins, vocifera contra o jabá, ressalta a crença na vitalidade do rock produzido no Brasil, e desconsidera as críticas de quem insiste a buscar novos artistas por caminhos antigos: “A maioria das pessoas prefere viver no passado”.

Virgula Música – O Rancore é uma das poucas bandas de rock nascidas na última década que ainda consegue angariar fãs e mais fãs à medida do tempo, sem atravessar um período de estagnação. Atingir o mainstream sempre foi um objetivo de vocês?

Teco Martins – Não, cara. A gente começou na época de escola, na 8ª série, como uma brincadeira. Caímos na estrada, e tinha show que a gente ia fazer que tinha dez, vinte pessoas, e com passos de formiguinha fomos conquistando mais gente. Em 2008 a gente lançou o Liberta, nosso segundo disco, que nos consolidou no underground. Começamos a lotar as casas, e o pessoal começou até a tatuar o nosso símbolo. Aí a [gravadora] Deckdisc veio atrás da gente e lançamos o Seiva [terceiro disco da banda, lançado em 2011]. Eles não pediram para a gente mudar o nosso som, pelo contrário; eles queriam que a gente fizesse algo em que a gente acreditasse, que a gente quisesse mesmo. Isso, aliado ao respaldo do underground, fez com que algumas portas da grande mídia começassem a se abrir. O Rancore nunca teve uma explosão pop, foi uma coisa bem natural, um a um, mesmo.

VM – Muita gente reclama que o rock nacional sumiu das rádios, e algumas pessoas até acreditam que há poucas bandas novas fazendo rock no Brasil. O que você acha que aconteceu com o rock nacional, e o que precisa acontecer para o rock feito no país voltar a ter destaque no mainstream?

TM – Tem bastante banda de rock muito viva por aí, então falar que o rock não existe hoje é ser saudosista demais, é não enxergar o que está acontecendo. Tenho certeza que daqui a dez anos várias bandas que estão tocando hoje serão muito mais adoradas. Foi assim com Os Mutantes, que hoje em dia são uma das referências do rock nacional. Tenho um tio que é muito fã deles, e diz que viu Os Mutantes tocando para menos de 400 pessoas. A maioria das pessoas prefere viver no passado, e acho que isso vai acontecer com várias bandas de hoje daqui a uns anos, talvez com o próprio Rancore.

VM – O Rancore mantém uma atividade constante nas redes sociais, um contato sempre intenso com os fãs. Você acha que hoje, tendo essa possibilidade de contato direto via internet, as bandas ainda precisam do apoio das TVs, do rádio, da chamada “velha imprensa”?

TM – Ah, toda ajuda é bem-vinda. Tudo que fizer você chegar pelo menos a uma pessoa a mais, já valeu a pena. Mas não é a falta disso que vai fazer uma banda sobreviver ou morrer. Tem casos de artistas que tocaram o tempo todo na rádio por um mês e não deu em nada, assim como tem bandas que nunca tocaram nas rádios e estão em festivais, lançando DVDs. Tem muitas bandas boas por aí lotando shows, muitas bandas novas, de rock, às vezes enchendo mais as casas que muita bandas que aparecem na rádio, e sem muito apoio midiático. Acho que a internet ajudou muito nisso. Uma rádio, por exemplo, pediu R$ 25 mil para tocar a nossa música três vezes por dia durante um mês. A gente, por uma questão ética e também por nem ter grana pra isso, não aceitou, e mesmo assim estamos vivendo bem. Não aparecemos tanto no rádio, não tocamos para 200 mil pessoas, mas em todas as cidades que vamos, tocamos para casa cheia, com shows cada vez melhores.

VM – O line-up nacional de vários dos grandes festivais realizados no Brasil ainda insistem nos mesmos nomes, às vezes bandas que não lançam material novo há tempos. Na sua opinião, falta iniciativa dos produtores de eventos para fazer o rock nacional deslanchar outra vez?

TM – Não sei, cara. Eu não vou ficar chorando aqui, falando que não tenho apoio. Estou fazendo o meu ‘corre’, o que for aparecendo a gente vai tocando. Não gosto dessa postura de que o ‘Brasil é aquilo’, sabe aquela galera que fica reclamando do país? É do it yourself [“faça você mesmo”]. É um tema punk que a gente carrega com a gente até hoje.

VM – Então o segredo para é ser espontâneo e correr atrás, simples assim?

TM – Com certeza.

A Nova Cara do Rock Nacional - Rancore desafia quem acredita na morte do rock: "É não enxergar o que está acontecendo"

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