Ale Sater lança EP “Fantasmas”

Quantas coisas deixamos para trás com o passar do tempo? Com mudanças e novas versões, alguns detalhes ficam pelo caminho e pairam sobre nós. Em novo trabalho lançado na sexta-feira (19), Ale Sater reuniu todos seus fantasmas e os deu um novo sentido em seu segundo EP solo.

Com músicas feitas em diferentes anos, Sater olhou para o passado e percebeu muitas coisas que não havia notado. Para liberar esses fantasmas, e abrir caminhos para novas coisas, ele reuniu as faixas em um trabalho coeso e sensível. Ale traz um EP bucólico e intimista com uma grande participação do violão e elementos eletrônicos.

Ale Sater é compositor, vocalista e baixista da banda Terno Rei. Além dos trabalhos com o grupo, o artista conta com o EP “Japão” (2016) e o recém lançado “Fantasmas”. Com 4 músicas e um álbum visual, “Fantasmas” foi lançado pelo selo Balaclava Records, produzido por Gustavo Schirmer, mixado por Gabriel Nathan, capa, fotos e design por Thaís Jacoponi e álbum visual por Gabriel Rolim e Karla Salvoni.

Sobre “Fantasmas”, novos hábitos da quarentena e o novo álbum da Terno Rei, confira abaixo a entrevista completa com Ale Sater:

Daniela de Jesus: Ale, para começar, você se lembra qual foi a sua primeira conexão com a música?

Ale Sater: Lembro sim, quando eu era bem criança. Eu não lembro que novela era, mas quando eu tinha uns 4 ou 5 anos, tocava aquela música “Falando de Amor” do Tom Jobim. Essa foi a primeira vez que eu me lembro, tanto que fiquei anos sem ouvir a música e quando fui escutar com 17 anos eu me lembrei dela. Eu pesquisei e vi que era uma abertura de novela. Ela é uma música muito terna, muito doce e acho que foi a primeira vez que eu fiquei de cara.

D: A música fez parte de uma novela, né? E você é de assistir?

A: Eu não assisto, nessa época eu morava no Rio e teve umas novelas que foram muito grandes. Eu lembro de “Vamp”, “A Próxima Vítima”, “Rei do Gado”. Teve algumas que todo mundo acompanhou e naquela época não tinha tanto conteúdo. Então era mais fácil estar acompanhando a novela.

D: Agora falando do “Fantasmas”, como foi produzir o EP nessa situação que estamos vivendo?

A: Foi um processo que não deu tanto trabalho, a gravação mesmo aconteceu em dois dias e meio. Mas foi mais longo que o normal, de certa forma foi penoso. Tinha momentos que eu queria muito soltar o EP e tinha momentos que eu nem queria soltar, por todo esse desânimo da situação.

D: Rolou muito isso no começo da quarentena, do pessoal ficar meio apreensivo de soltar os novos trabalhos…

A: Então, eu toco com a banda (Terno Rei) e estamos segurando até a gravação por conta dessa situação. No meu caso é melhor eu acho, porque estou sozinho e tudo mais. Então acho que faz sentido eu soltar mesmo que no meio da pandemia.

D: Como funcionou a criação do EP, porque tem algumas músicas que foram feitas em 2013, né?

A: Sim! Todas as músicas desse EP são bem antigas. Talvez a mais nova seja “Peu”, que é a minha favorita, normalmente quando você lança um trabalho a favorita sempre é a mais nova (risos) porque é mais fresco. Acho que “Peu” é de 2017/2018. Tanto tempo se passou e eu continuei gostando delas, então achei pertinente lançá-las. Até para eu abrir espaço para fazer uma coisa nova mesmo, um disco inteiro, vamos ver. Se eu tiver energia e criatividade para isso seria legal fazer um disco inteiro.

D: Era até uma coisa que eu ia te perguntar, se você tem mais músicas guardadas e se pensa em fazer um álbum.

A: Eu penso, tem bastante coisa. O que eu faço é gravar todas as minhas ideias em um celular. Às vezes quando eu estou em uma viagem mais longa, que eu estou distante de casa, ou quando a própria viagem de carro demora bastante, eu pego o celular e ouço tudo para ver se tem alguma coisa que tem valor e ficou para trás. Tem bastante coisa e eu não revisitei ainda para fazer uma nova leva. Mas tem, eu conseguiria. Por outro lado eu também gostaria de fazer umas coisas novas que não estão gravadas ainda, coisas que tenham um frescor.

D: Às vezes voltar e olhar a música com um distanciamento dá para perceber letras que você não tinha notado no passado.

A: Sim, às vezes pode chamar atenção depois mesmo. Nesse disco que vamos gravar (Terno Rei) tem uma música que foi exatamente isso. Eu fiz a música e letra, uma música feliz, fiz ela no dia 15 de março de 2020. Um dia depois da gente se trancar. Outro dia eu fui escutar e nem me lembrava dela. No final ela entrou no disco, ensaiamos 2 vezes e decidimos colocar e foi pela letra, foi a letra que me pegou.

D: Comparado com “Japão”, “Fantasmas” está com uma sonoridade bem diferente. Mas algumas composições são da época e até antes de “Japão”. Eu queria saber como funcionou esse processo de criar a identidade de cada trabalho?

A: Na prática muitas das músicas que eu lancei agora eu já tinha na época do “Japão”. Naquela época eu pensei em fazer um trabalho super coeso, essas ficaram de fora porque elas não entravam no conceito que era aquele EP. Porque era uma coisa mais fraternal, mais biográfica, de confissão. Elas ficaram de fora porque elas não tinham essas características. Elas ficaram soltas e agora estão juntas (risos) são fantasminhas.

D: Você falou que “Peu” é a sua faixa favorita, e foi uma que me chamou muito atenção também. Conta um pouco sobre ela. Foi inspirada em uma história real, alguma coisa que você viu?

A: Uma coisa legal de “Peu” é que ela não é real, é uma ficção e alegoria. Como dá para perceber é um pai falando com o filho e eu nem sou pai (risos) então não daria para ser eu. Nem foi uma conversa que eu tive com o meu pai, é mais uma coisa alegórica. Também teve a letra, quando eu fiz eu ficava nessas “indas vindas do oceano”, “Ilhas, Ilhas, Ilhas”, esses sons assim. Palavras que também são sons que é uma coisa meio meditativa, ela faz uma onda e isso era uma coisa que me encantava. Isso também facilitou muito a música, eu gostava tanto disso e desabrochou muito fácil.

D: Para você como compositor e artista, como é quando você percebe o quanto sua música impacta nas pessoas?

A: Para mim é um misto de alegria com estranhamento. Metade alegre e metade estranho, no primeiro segundo é muito gostoso porque você faz arte justamente para elucidar um sentimento. Mas, por vezes, eu sinto que quem está ouvindo ultrapassa o gosto pela coisa e às vezes passa do ponto, isso que me causa um pouco de estranhamento. Eu penso ‘é uma música, vamos para próxima’. Porque essa é coisa legal da música, ela é um pequeno universo, quando ela acaba você pode ir para outra.

D: Qual foi o maior estranhamento que você já teve?

A: Ah, você sabe que as músicas são quase sempre tristes e melancólicas. Não é nada festivo, eu nunca consegui fazer nada festivo. Então naturalmente acaba pegando um pouco mais esse lado azul e deprezinho. Então teve muitas vezes que os fãs entraram em contato comigo pedindo por ajuda, dizendo que a música salvou eles, teve umas duas ou três vezes que mães de fãs falaram comigo. Então é uma situação que impressiona, porque a pessoa está passando mal e você tem que ajudar. Mas ao mesmo tempo deveria ter um distanciamento, então é uma coisa bem complicada.

D: Acaba gerando uma grande responsabilidade.

A: Exato! Tem horas que você se sente co-responsável pelo conforto ou desconforto de alguém, isso que causa estranhamento.

D: Além da parte sonora, você também lançou um álbum visual. Como surgiu a ideia?

A: Nessa parte visual teve dois trampos que foram feitos. Um foi pela Thata, minha namorada. Ela fez a capa, as fotos, e usou o conceito da dupla exposição por ser uma coisa que tem a ver com fantasmas. Até o primeiro teaser que eu soltei no reels foi ela que montou. Em paralelo, trabalhei com o Rolim no clipe de “Peu”. Ele teve a ideia de fazer o álbum visual, com coisas bem estáticas e paradas. Ontem eu estava até escutando Fleet Foxes, eles lançaram um álbum novo e também lançaram um álbum visual que está muito lindo. Então foi isso, foram essas duas partes dos trampos visuais. O EP inteiro teve pouca gente envolvida. Foi eu, um produtor musical, um técnico de som que mixou, minha namorada com a parte de design gráfico e o Rolim que fez o clipe. No EP tem eu e o produtor que tocamos e cantamos. Foi uma equipe pequena, equipe COVID (risos).

D: Um disco sempre nos transporta para algum lugar, quando você escutou “Fantasmas” pronto pela primeira vez para onde você foi transportado?

A: Eu acho que as duas últimas músicas, “Caminhão” e “Nós”, tem muito esse negócio do movimento, da estrada e do andar. Eu gosto muito de fazer trilha, então eu me transportei para alguma das chapadas, Chapada dos Veadeiros, da Diamantina. Eu acho que é uma coisa que combina. Mas, toda essa parte de fotos e clipe, foram no sítio em Campos do Jordão, então combina e me transporta. Agora com tudo lançado talvez seja o lugar que faça mais sentido.

D: E qual é o disco que você escuta e sempre é transportado para outro lugar?

A: Eu estou ouvindo esse disco agora, que tem uma coisa bem imagética que é uma coisa que eu busco nas minhas músicas. Da Cat Power, o disco “Moon Pix” de 98, esse disco é bem bicudinho com guitarra e voz praticamente, ele me leva para lugares vazios a noite com aquelas luzes amarelas, ele é bem bom.

D: Ale, com toda essa situação que estamos vivendo, o que você tem feito nesses tempos que tem te deixado mais tranquilo?

A: Eu estou aprendendo umas coisas novas, me dedicando mais a casa, deixando tudo limpo, cozinhando. Uma coisa que eu fiz também é andar de bike, que eu nem sabia direito e agora tô indo bastante. Porque eu vou de noite então é vazio e bem gostoso. Também estou aprendendo umas coisas de gravação aos poucos, fazendo música, tocando, trabalhando, porque também trabalho fora da música. Então estou fazendo um pouco de tudo.

D: Você também está gravando o novo álbum com a Terno Rei, como estão as gravações e o que você pode adiantar do novo álbum?

A: Está tudo muito incerto, eu imagino que esse momento dramático deve passar entre 3 á 8 semanas. Depois disso vamos começar a gravar, já produzimos tudo só falta partir para gravação. Esse álbum vai ser o mais eclético que fizemos, ele está mais ousado nesse sentido. Ele está com uma cara de 98 à 2006. Temos uma fase muito forte dos anos 90 com Sonic Youth, Nirvana e uma fase muito forte oitentista com The Cure, The Smiths. Agora estamos andando uns anos para frente em referência, está uma coisa mais viva em comparação aos outros.

 

Sem mais artigos