Apresentada com pompa por seu “criador” Carlinhos Brown e a presidente Dilma Rousseff, a caxirola enfrenta dificuldades para emplacar como sucessor da vuzuzela na Copa de 2014, basta lembrar o episódio da “revolta das caxirolas” em que torcedores do Bahia a usaram como arma.

E se depender de percussionistas ouvidos pelo Virgula Música, como instrumento musical, a caxirola, de plástico, não traz nenhuma vantagem em relação ao caxixi, objeto que inspirou seu design. A diferença é que o caxixi é feito com material orgânico, como palha e cabaça, com arroz ou sementes dentro.

Além disso, a Marketing Store, empresa norte-americana por trás do negócio, pretende vender a caxirola a R$ 29,90, enquanto um caxixi do mesmo tamanho custa, em média, R$ 10, nas lojas. “Talvez vire apenas um objeto de modismo passageiro ou mais um souvenir para ser comercializado aos turistas sendo vendido caro demais para a maioria das nossas crianças carentes terem acesso”, afirma James Mü, músico com carreira internacional e de grupos como Funk Como Le Gusta e da banda do produtor Eduardo BiD, do projeto Bambas & Biritas.

“Atualmente muitos instrumentos que antigamente eram confeccionados com material orgânico passaram a ser feitos com material sintético, isso aconteceu com vários instrumentos aumentando a durabilidade e muitas vezes o próprio volume sonoro. Em outros casos perderam sua originalidade e mudaram sua sonoridade virando outro instrumento com timbre menos harmônico e sem muita dinâmica”, contextualiza.

Afonsinho Menino, coordenador da ONG Ylu Brasil, que dá aulas de percussão para crianças, lembra que o caxixi era originalmente usado junto com o berimbau, e destaca o trabalho com o instrumento feito por nomes como Uakti, Fernando Sardo, Naná Vasconcelos, Gustavo de Dalva e Trio Manari. Para o músico e educador, o caxixi de plástico é apenas a ponta do iceberg do desconhecimento envolvendo a cultura brasileira de raíz.

“A Copa é um grande produto comercial. Mas infelizmente creio que mundialmente o Brasil não ganhará novos tons e cores musicais. Acredito que só reforçará os ritmos já conhecidos em outros continentes como é o caso do samba e do olodum. O Brasil é rico demais em música, e muitas vezes nem mesmo os brasileiros conhecem todos seus ritmos e seus instrumentos. Talvez porque ainda não temos ensino musical de verdade nas escolas”, aponta Afonsinho.

Mas há bambas que veem o lado positivo na caxirola, como o percussionista Dalua, também com uma carreira internacional e uma história ao lado de nomes como Lenine, Luciana Mello, Jair Rodrigues, Ana Carolina e Maria Rita, entre outros. “Já acho melhor do que a vuvuzela. Sabemos que se trata de um caxixi de plástico, no qual ainda não tive oportunidade de tocar, mas pode dar um som bonito e ser usado de várias maneiras, dependendo da criatividade de quem toca”, pondera.

Dalua, no entanto, não vê um caminho fácil para a cultura popular. “O mercado fonográfico impõe produtos musicais de gosto duvidoso, e ainda estão exportando muita coisa que fica bem longe da musica de raíz. Tenho esperança, sim, de que muita coisa boa do Brasil ganhe destaque e reconhecimento merecido, com todo este movimento de Copa e Olimpíadas”. 

Mü também vê uma oportunidade, mas com ressalvas: “A Copa com certeza chamará a atenção para a cultura brasileira, que é muito diversificada e rica. É importante a divulgação de nossa nação multicultural e etnicamente diversa para todos os povos do mundo e também para que o nosso próprio povo tenha ciência, orgulho e mais respeito por ela”, aponta.

O percussionista, no entanto, também levanta a questão do “Brazil não conhecer o Brasil”, como cantava Elis Regina. “Mas também atrairá todo tipo de marketing que estará sendo explorado agressivamente em torno do acontecimento esportivo como sempre. Interessante seria não ficarem tentando fazer um cover estereotipado de nós mesmos e sim aproveitar a oportunidade para a divulgação e valorização de nossa verdadeira música e instrumentos autênticos muitas vezes até desconhecidos de grande parte da população brasileira”, completa.

Durante o programa Tabelinha, da TV UOL, no dia 29/4, Juca Kfouri disparou contra Carlinhos Brown. “É perna de pau o Carlinhos Brown. Ele inventou uma coisa que ele não inventou. Ele plagiou ali do caxixi. Ele arrumou um sócio americano e disse que vão vender milhões. Pra quê? Para imitar a vuvuzela, que foi um porre na África do Sul. Não dava para conversar com o cara do lado. Agora, a vuvuzela ainda tinha a justificativa de ser algo tradicional, que a Fifa achou que não podia intervir. Sei que a caxirola a Fifa não vai deixar entrar na Copa do Mundo”, afirmou Kfouri.

Carlinhos Brown ensina a tocar a caxirola

Dalua no programa A Noite é uma Criança, de Otávio Mesquita



Veja James Mü no clipe de Bambas Dois, Cauê (Nativos Originais)



Oficina de percussão do Ylu Brasil, de Afonsinho Menino



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