Todo mundo é DJ? Para o primeiro DJ do Brasil, Osvaldo Pereira, não é bem assim. Aos 79 anos, ele não acha que as mudanças tecnológicas tenham tornado o ofício mais fácil. “Acho que ainda continua sendo uma coisa difícil, porque é uma técnica que você tem de adquirir, aquele feeling para fazer o pessoal dançar”, opina.

Muita coisa rolou desde que, em 1958, seu Osvaldo usou seus conhecimentos de técnico de som para construir um sistema de som e ligar um toca-disco a ele para se tornar o primeiro DJ do Brasil.

Para ele, não causa surpresa que músicas de orquestra, samba de gafieira, samba-rock, que estão em seu set há décadas, estejam voltando às festas e rádios e caindo no gosto dos jovens. “Os DJs de agora estão sempre pesquisando as músicas passadas e tem muita música muito bonita que atende ao ouvinte de agora, independente da idade. Quando a música é bonita, ela acaba conquistando a todos”, defende.

Aos 79 anos, ele já foi tema de reportagens no Fantástico, deu entrevista ao lado do top DJ Fatboy Slim, esteve no Metrópolis, foi capa do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Agora, ele será a principal atração da Sambarbudo Project nesta sexta-feira (12), no Estúdio Emme, em Pinheiros. “Descoberto” pela jornalista e escritora Claudia Assef nas pesquisas para o livro Todo DJ Já Sambou (Conrad), seu Osvaldo mostra que o amor pela música e discotecagem podem ser hereditários: 28 pessoas de sua família, entre filhos e sobrinhos, são DJs. 

A festa dedicada ao funk, soul, samba e afins tem como slogan “ache seu groove”. Os DJs Marcos Lauro (sons internacionais) e Peu Araújo (nacionais) também se apresentam. Para Lauro, os sons dos anos 50 e 60 representados por seu Osvaldo passam por um momento de redescoberta. “Existe sim essa valorização. Ela acontece em nível mundial, com novas cantoras que trazem a música e a moda da época pro mainstream de hoje em dia e, consequentemente, cantoras e grupos da época acabam voltando juntos para os holofotes”, comenta, ressaltando que o grande nome dessa volta da soul music (ou da nu soul) foi Amy Winehouse.

Leia entrevista com seu Osvaldo, em que ele conta que o último disco que comprou foi do Marvin Gaye e elogia Pixinguinha. Mexe com a criança…

O que senhor acha dos sons dos anos 50 e 60 estarem passando por um momento de redescoberta?

De um modo geral, eu sempre faço um set musical que é começando com orquestra, que é minha praia dos anos 50. Depois eu vou variando, o samba-rock agora está em alta, tem alguns que eu apresento. Eu tenho também bastante samba, do tipo gafieira, que eu também gosto de executar. Gosto muito da linha do Ray Conniff, dos anos 60. E, às vezes, peço também a opinião para os meus filhos, que estão mais na ativa, e eles incrementam com alguma coisa da atualidade.

Mas o senhor esperava que este tipo de som fosse voltar e pudesse atrair os jovens?

Na verdade tem muita coisa que voltou, mas agora há uma modernidade muito grande, você tem a salsa, o merengue, tem uma variação grande de artistas nacionais e internacionais, mas muitas músicas antigas são considerada imortais. Então, elas estão sempre em pauta.

Os DJs de agora estão sempre pesquisando as músicas passadas e tem muita música muito bonita e ela atende ao ouvinte de agora, independente da idade. Quando a música é bonita, ela acaba conquistando a todos.

Hoje em dia é mais fácil ser DJ?

Não, eu acho que ainda continua sendo uma coisa difícil porque é uma técnica que você tem que adquirir aquele “feeling” para fazer o pessoal dançar. E varia de festa para festa. Então, você às vezes precisa pesquisar um pouquinho a festa com os discos que você tem, com o musical que você está preparando, para agradar. Mas de um modo geral, ainda acho que não é tão fácil.

Como é para o senhor ser reconhecido com uma certa idade?

É muito gratificante. Nunca poderia imaginar que na minha idade poderia estar na ativa e, de uma certa forma, na maior parte dos casos, agradando às pessoas. Mas acho que isso está na alma de cada um, porque o que envelhece é o corpo, o espírito permanece vivo naquilo que é bom, útil, para o nosso próprio bem. A música é muito gratificante para todos em geral.

Quantos DJs há na sua família?

Nós somos acho que mais ou menos 28, quase 30 DJs. É o máximo, uma herança grande. Desde que eu comecei a fazer festa, os meus filhos e sobrinhos sempre estavam aqui em casa, quando eu não estava eles ligavam o aparelho, ficavam escutando as músicas. Eles gostaram e depois foram aprimorando. Hoje tem vários da família que estão na ativa.

Tem algum que segue o seu estilo?

Eu diria que só uns três, meus filhos e tem alguns sobrinhos que seguem. Porque tem uma variedade de música, que a gente diz, mais do passado, que está em evidência agora. E alguns sobrinhos meus, que viveram a minha época, sempre colocam essas músicas.

Qual foi o último disco que o senhor comprou?

Do Marvin Gaye. Como meu filho tem bastante disco, eu pego com ele, mas de vez em quando eu compro algum para incrementar. Mas agora eu vou renovar a minha discoteca, tem uma lista aí, estou encomendando alguns discos, vamos ver.

É nesta linha black que o senhor tem pesquisado?

É. Mais soul e black music.

Dos músicos atuais, tem algum de que o senhor gosta? 

No momento não me passa algum na minha ideia para te falar, mas tem músicos bons também. Com certeza tem, sempre tem e sempre terá.

O que um bom DJ precisa ter?

Eu diria assim que ele precisa, primeiramente, estar na noite, observando os musicais, o público, como ele se comporta em determinadas músicas. Adquirir aparelhagem e depois treinar e ir para baile. Ir para a pista. 

O que motiva o senhor, aos 79 anos, a querer estar na ativa e ir no meio da garotada?

Na verdade, graças a Deus, Deus tem me proporcionado muita saúde e música é uma coisa com a qual desde muito criança eu sempre fui muito envolvido. Eu diria que pode ser uma frustração não ter sido músico na verdade.

Eu gostava de vários instrumentos quando eu tinha 9, 10 anos, como clarinete, saxofone, pistão, mesmo as flautas. Mas não tive essa oportunidade. Mas fico muito feliz de sempre ter vivido no meio da música com os discos, a gente pode ouvir os grandes artistas, como, por exemplo, o Pixinguinha. Outro dia desses adquiri um best-seller dele numa banca de revista. Ele tem um repertório muito bonito.

Então eu acho que é assim, muita coisa que a gente às vezes não conseguiu fazer de criança, hoje vive isso. E a música é uma coisa que para mim… Às vezes eu vou nas festas a convite e gosto de permanecer.

Eu estive em uma festa lá no Corinthians, cheguei lá com meus filhos. Eles sempre me acompanham, um deles pelo menos me acompanha. E eu cheguei lá meia-noite e meia e fiquei até as quatro da manhã, e o baile ia terminar às cinco. Então, é uma coisa que me segura mesmo. A gente fica pensando na idade, mas graças a Deus eu ainda aguento bem. O motor está cansado, mas ainda aguenta.

Serviço

Sambarbudo Project com seu Osvaldo, sexta 12/4 – 23h
Estúdio Emme, rua Pedroso de Morais, 1036 – Pinheiros
Ingressos: R$ 40 (R$ 20 preenchendo o formulário em sambarbudo.com/lista)
A casa aceita cartões de crédito e débito, possui vallet, tem acesso para cadeirantes
Informações sobre a casa http://www.estudioemme.com.br, e-mail para contato@estudioemme.com.br ou ligue 3031-3290
Informações sobre a festa, mande e-mail para sambarbudoproject@gmail.com

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