“É um prazer tocar em casa. São Paulo é uma possível extensão de Brasília. Quando a gente toca aqui, sabe que tudo vai dar certo”, disse Dinho Ouro Preto ao cumprimentar o público que lotava o Citibank Hall neste sábado (30) para mais um show do Capital Inicial. O espetáculo, de duas horas, aconteceu para marcar o lançamento do EP Viva a Revolução. Perguntei a um casal de meia idade se eles estavam lá por causa do EP ou por que é o Capital. ‘Porque é o Capital’, eles me responderam empolgados e em uníssono.

A banda,que já tem 32 anos de estrada, deu uma tacada de mestre para a divulgação de seu novo trabalho. Quem comprasse o ingresso para o show de lançamento ganhava um EP no ato. O público, atraído pelo carisma e pela energia que o Capital mostra no palco, além do imenso e consagrado repertório da banda, compareceu em peso e bem disposto para o show. E pôde colocar o Viva a Revolução como trilha sonora enquanto voltava para casa, ainda envolvidos na atmosfera do espetáculo fornecido pela maior banda de rock do país. Talvez, assim, o Capital Inicial tenha mostrado qual é a saída para a indústria da música: divulgue as novas músicas, que elas sejam dadas gratuitamente — é só se garantir no palco que a equação terminará de forma positiva pra todo mundo.

E se tem uma coisa que a banda formada em Brasília sabe é fazer um show bem feito.

A competência de Dinho Ouro Preto no palco já se tornou lendária. O vocalista, de 50 anos, pula o show inteiro, anda de um lado para o outro, comandada o público como um encantador de serpentes. Ele é do tipo de artista que parece se alimentar da energia que vem de quem o assiste, estabelecendo uma simbiose com a plateia. Bom, também podemos dizer que ele é do tipo de artista que causa terror nos seguranças. “Eu quero ir até o fundo”, ele declara com uma alegria de criança depois de uma tentativa de crowdsurfing durante a música O Bem, o Mal e o Indiferente. O público atende seu pedido e Dinho perde completamente o compasso da música. Mas isso não importa. Yves Passarell e Fê Lemos, respectivamente guitarrista e baterista da banda, também tem energia de sobra. Yves percorre o palco e levanta a guitarra para os fãs, enquanto Fê enloquece com suas baquetas no fundo do palco. Flávio Lemos, o baxista, parece ser tímido e não interage tanto com o público, mas também tem seus momentos de glória absoluta quando o resto da banda chama a atenção do público para a sua performance em Como Se Sente. Robledo Silva e Fabiano Carelli, músicos de apoio que estão na estrada com o Capital Inicial há anos, também não ficam atrás, nem em talento, nem em animação.

Do EP Viva a Revolução, apenas três músicas foram cantadas: Tarde Demais, Viva a Revolução (em que Dinho usou uma distorção no microfone sobre a qual eu ainda não tenho uma opinião formada) e Melhor do que Ontem, primeiro single do trabalho. Esta foi recebida com entusiasmo pela plateia, que a cantou em coro e emocionou o vocalista, por ter “uma multidão desse tamanho cantando uma música que você lançou há um mês”. “Eu acho que é bacana você poder escrever sobre otimismo. Sobre acreditar”, disse Dinho para a plateia ao fim da execução da faixa. “Quer dizer, de alguma forma que não soe piegas ou inocente demais. Acho que o Brasil precisa disso, alguma fé, alguma inspiração para acreditar em dias melhores”.

Mas o otimismo que o vocalista tem em relação ao futuro não se estende à classe política. Em ano de eleições presidenciais, seria surpreendente se ele não fizesse um dos discursos contra os nossos governantes que já parecem ser uma marca registrada do músico. Mas, desta vez, antes de começar, ele fez uma ressalva: “O Flávio tá no meu pé porque eu generalizo demais”, ele contou. “Eu sei que tem bons nomes, mas eles são tão poucos que se perdem em um oceano de crápulas”. E continuou: “Espero que dessa vez apareça alguém que possa nos inspira, nos fazer acreditar, que possa liderar o Brasil para uma nova era de prosperidade. Vocês acham que não tem? Quem sabe é a Marina [Silva]?, quem sabe”, ele concluiu no que foi seguido por gritos de “Hey, Dilma, vai tomar no c…” de uma parcela do público ali presente.

Uma pequena homenagem ao Aborto Elétrico também foi feita no show. Dinho notou que boa parte do público estava com camisetas da Legião Urbana ou então segurava camisetas da lendária banda punk de Brasília (camisetas essas que estavam sendo vendidas na lojinha montada no saguão do Citibank Hall, diga-se de passagem). Eles tocaram Veraneio Vascaína, Que País É Esse (da Legião) e Fátima, e concluíram com Mulher de Fases, música famosa de outra banda punk de Brasília, os Raimundos.

“Deixem só a gente combinar o que vai tocar, não saiam dos seus lugares”, disse Dinho ao sair do palco no intervalo para o bis. Duas adolescentes surgiram do meu lado. Uma dizia “acordei às sete da manhã, tô com enxaqueca e vim”, ao que a outra respondeu: “Eu estava doente, mas nada me tira daqui”. Na minha frete, um casal com seu par de filhos revoltavam quem estava atrás deles por ficarem sentados na grade de proteção das câmeras que transmitiam o show ao vivo pela Sky. No bis, uma garota com não mais do que 15 anos foi puxada para o palco por Dinho. Ela estava em lágrimas, e foi levada para os bastidores. Um homem com notável calvice disse para a esposa: “Ah, mas ele não tem a mesma energia de antes. Também, já está com cinquenta anos…” Some esses exemplos ao espetáculo que se via no palco e à casa lotada. Não tenha dúvidas. O Capital Inicial é a maior banda de rock do país.

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