“Somos nós que decidimos tudo. Sem nenhuma interferência, sem palpites, sem ouvir que o som está pesado demais, sem pedidos pra mudar a letra. Nada paga essa liberdade”. É assim que Rodrigo Campos, ou melhor, Digão, vocalista e guitarrista da banda Raimundos, justifica a decisão de não trabalhar com gravadoras e pedir ajuda aos fãs, via crowdfunding (financiamento coletivo), para gravar um novo álbum independente.

Com o objetivo de angariar 55 mil reais, verba parar bancar as passagens aos Estados Unidos, além dos custos de estúdio e remuneração do produtor, a banda lançou em agosto uma campanha no site Catarse. Em pouco mais de um mês, arrecadou um total de 121.603 mil reais. “Estávamos morrendo de medo de ser um fiasco e não funcionar. Nós somos humildes, cara. Se não desse certo seria um vexame”, brinca o guitarrista. 

O grupo brasiliense, que conhece como poucos as reviravoltas da indústria fonográfica, foi sensação na década de 90. Figurinha tarimbada na televisão, presença garantida em grandes festivais – como o Hollywood Rock e o Monsters of Rock, ambos de 1996 – o Raimundos emplacou dezenas de hits e vendeu mais de três milhões de álbuns em sete anos de carreira. 

Em 2001, quando a banda estava no auge da fama, o vocalista Rodolfo, que ao lado de Digão deu vida aos Raimundos, decidiu investir em outros projetos e abandonou o grupo. A banda continuou sem o vocalista e lançou três álbuns – Éramos 4 (2001) e Kavookavala (2002) -, mas nem de longe conseguiu a mesma repercussão.

“Muitos fãs me criticaram por continuar com a banda. É necessário ter a cabeça no lugar para seguir em frente. O sucesso é extremamente relativo. Um dia se está no topo e no seguinte no limbo. Passamos por um momento muito difícil, de muita confusão. Precisamos passar esses anos todos comendo poeira pra realmente pegar a mão da coisa. Não deixar a gravadora mudar o som da banda para agradar um público que não é o nosso”, explica Digão.

Doze anos após a saída de Rodolfo, o Raimundos segue na estrada. Da primeira formação restaram Digão e o baixista Canisso, que agora são acompanhados pelo guitarrista Marquim e o baterista Caio. Neste momento, o grupo está em Los Angeles gravando o álbum Cantigas de Roda, com produção de Billy Graziadei, do Biohazard, e 100% financiado pelos fãs. “O público flutuante não nos interessa. Vamos lançar esse álbum com ajuda de quem realmente queremos agradar, os nossos fãs”, diz Digão.

Em entrevista ao Virgula Música, Digão e Canisso falaram sobre a ressureição dos Raimundos, a indústria da música no Brasil e o disco Cantigas de Roda. Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Virgula – O Raimundos está ressurgindo de um período sombrio, muitos acreditavam que a banda tinha acabado. Como está a nova fase?

Digão – Passamos por um momento muito difícil, de muita confusão. Precisamos passar esses anos todos comendo poeira pra realmente pegar a mão da coisa. Mas os nossos fãs nunca nos abandonaram. Sempre pedem shows, mandam recados nas redes sociais. É uma coisa que faz muita diferença. É por isso que estamos aqui.

Virgula – Vocês estão produzindo o álbum Cantigas de Roda, que se tornou realidade através de uma campanha de crowdfunding. De onde veio essa ideia?

Digão – Quando começamos a trabalhar no disco nós pensamos em mostrar para as gravadoras, mas toda hora topávamos com essa história de crowdfunding. Então, resolvemos arriscar. Hoje as gravadoras só querem artistas como o Naldo e a Anitta, nós somos feios e tocamos hardcore, não dá mais pra gente não.

Canisso – Nós priorizamos a liberdade de tocar de uma maneira que acreditamos ter a cara do disco dos Raimundos. Quando você tem um contrato com uma gravadora vão querer mudar algumas coisas, como colocar uma blusa amarela em um, rosa no outro. Esse tipo de interferência faz sumir a essência da banda. 

Virgula – Vocês tiveram medo de não conseguir arrecadar a meta de R$ 55 mil no crowdfunding?

Digão – Estávamos morrendo de medo de ser um fiasco e não funcionar. Nós somos humildes, cara. Se não desse certo seria um vexame. A mídia noticiou que o Raimundos estava fazendo ‘vaquinha’ na web. Rapaz, vaquinha é a mãe do cara que escreveu isso. Nós estamos vendendo antecipado o nosso álbum, vamos entregar em casa, autografado. Existe uma contrapartida, não estamos pedindo nada pra ninguém.

Canisso – Aqui não é Igreja, que você dá o dinheiro e não recebe nada em troca. Não é doação, não é vaquinha. Realmente tivemos medo, mas em 15 dias conseguimos alcançar a meta. Arrecadamos um total de R$ 121 mil. Vai dar pra cobrir os custos da viagem para gravar em Los Angeles e todo o resto. Nós íamos tirar do nosso bolso para completar o projeto, mas os fãs nos ajudaram a realizar esse álbum e não teremos interferência alguma.

Virgula – Não seria assim se o Raimundos tivesse um contrato com uma gravadora?

Canisso – Nós temos uma vantagem muito grande, lançamos o primeiro disco em uma plataforma praticamente independente, era um selo, então não tivemos ingerência externa, escolhemos como seria o som dos Raimundos e funcionou. Então hoje, ninguém pode dar palpite. As gravadoras nos enviaram propostas nada interessantes, querendo morder uma grande porcentagem, pedindo aquele comodismo de Mulher de Faces e ter obrigatoriamente um single pra estourar na rádio.

Digão – Também rola o lance da censura. Não poder falar palavrão para tocar no rádio. As pessoas tem esse medo de tomar uma posição e fica aquela coisa sempre morna, sem tempero. Vai tocar no rádio? Vai. Mas não tem relevância, não tem legado, não tem legitimidade. Nós não queremos ganhar dinheiro – claro que isso é uma consequência do sucesso, mas a gente não está aqui só para isso. Todo o amor que você tem pela sua música acaba se transformando em um produto. Essa não é a nossa prioridade.

Virgula – Muitos fãs da banda reclamaram da mudança do som em faixas como Mulher de Fases e A Mais Pedida e os acusaram de trocar a qualidade por dinheiro …

Canisso – Existe uma linha muito tênue entre você ser um vendido e acertar na veia. Eu acho que o Raimundos sempre viveu no limite. Nós enfrentamos as revolta dos fãs com o disco Só No Forevis, eles não gostaram. Há um monte de faixas pesadas no álbum, mas neguinho só vai olhar pra bunda que tem lá na capa. Eu ouvi muitas bandas nos criticando, e depois tiveram que passar pelo mesmo processo. Ficam arrotando arrogância e distorção, mas na hora que as portas do sucesso se abrem, são os primeiros a fazer playback e participar de programa de auditório. Isso é uma coisa do mercado, ninguém consegue fugir.

Virgula – Como o Raimundos, que na década de 90 vendeu milhões de álbuns e viveu a época de ouro do rock nacional, enxerga o cenário fonográfico atual em que as gravadoras continuam procurando o lucro e lutando contra a pirataria?

Digão – Pra lançar um trabalho novo hoje é muito mais difícil do que na nossa época. Não tem como a gravadora ter lucro, por isso só lançam o que é certo que vá dar retorno. Existe um custo muito grande de divulgação e arcar com isso é quase impossível. Cada vez mais as bandas precisam se coçar para aparecer. Isso de certa forma aumenta a qualidade.

Virgula – É mais difícil para uma banda de rock se sustentar no mainstream?

Digão – O rock sempre vem pela beiradinha. Não precisa disputar espaço com funk ou sertanejo, é uma tribo separada. É difícil uma banda de rock disputar com outros estilos, talvez a própria mídia não dê o espaço que o rock merece.

Canisso – Essa história que o rock morreu já foi falada tantas vezes, o próprio John Lennon dizia isso. A gente está fora da mídia, mas nossos shows lotam e a galera está sempre animada. Pra gente, esse público flutuante não interessa. Nós queremos os fãs nos shows. Nosso objetivo é manter a banda na estrada, é a consolidação do trabalho, não é virar moda.

Digão – Quem sai de casa pra curtir um show é molecada. Tem que ter disposição. Pra entrar em uma roda e pra se quebrar todinho, tem que ser jovem. Nós respeitamos os fãs antigos, mas a maioria deles hoje não vai pra um show passar perrengue. O nosso público se renova constantemente, isso é uma coisa muito legal.

Virgula – O novo álbum, Cantigas de Roda, vai agradar aos novos fãs ou aos antigos?

Digão – Continuamos bebendo nas nossas fontes e isso está claro no álbum. Nós nos revisitamos. Voltamos ao ‘forró-core’, que é o estilo que começamos, e poderíamos até chamar o álbum de ‘roots’. Estamos ensaiando na casa do meu pai, que foi onde a banda começou. Ouvindo muito Zenilton [cantor de forró pernambucano que compôs O Pão da Minha Prima]. No que é pra ser pesado, tem que ser pesado. No que é mais balada, tem que ter clima de balada. Nós sempre tivemos as baladas, desde o primeiro álbum com Selim. Vai agradar todo mundo.

Virgula – E sobre o single Politics, a faixa surgiu após as manifestação que tomaram o país em junho?

Canisso – A música ficou pronta em dezembro, foi uma das primeiras que trabalhamos no estúdio. Estávamos indignados quando o Renan Calheiros virou presidente do e pensamos ‘Raimundos precisa se manifestar´. Já tínhamos essa ideia e queríamos estimular a galera a reagir. Botar mais lenha pra queimar nessa fogueira que eles acenderam na nomeação. Então, quando tudo explodiu, a faixa estava pronta, guardada, e estava lá para ser lançada junto com o CD, no final do ano.

Digão – Mas aí quando rolou a onda de protestos, decidimos lançar. Teve gente que disse que nós somos oportunistas, mas a música estava pronta. Precisamos até mudar a letra que dizia algo como ‘aonde foi parar a decência do bando que nos governa e a vontade do povo que paralisado já não protesta’ e mudamos para ‘e o povo que não aceita’. Foi a melhor mudança de letra que já fizemos, afinal vimos que o povo cansou de engolir tudo calado.

Virgula – Vocês acreditam que os protestos realmente contribuíram para mudanças politicas no país?

Canisso – Vamos ver nas urnas o resultado. Eu acho que o primeiro passo já foi dado, que é mostrar a insatisfação. Agora os políticos precisam mostrar resultados e propostas concretas. O povo não vai mais aceitar qualquer tipo de abuso de poder.

Digão – Temos é que protestar mesmo na paz, mas não atendeu? Porrada! A violência é parte do processo de reivindicação, da rebeldia.

Canisso – O cidadão médio só recebe as notícias pela mídia tradicional. A mídia também faz parte desse jogo, também é o inimigo. Ela quer que a população se amedronte, veja apenas o aspecto negativo das manifestações. Você sempre vai ver cenas de vandalismo, edições que favorecem a violência. O caminho é esse e finalmente o gigante acordou, nem que seja apenas pra dar uma volta na [avenida] Paulista, mas mostrou que existe e tem força.

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