Primeiro foram os remixes, depois vieram os mash-ups e agora são os edits. Desde a emergência da música eletrônica do Brasil, nos anos 90, a MPB sempre foi uma inspiração para produtores e DJs em busca de uma cor local ao fubá global. 

O produtor Lcio, dos projetos Lacozta e Gaturamo, explica a diferença entre edit e remix: “No edit, trabalhamos com a faixa inteira e normalmente não é oficial. O remix geralmente é oficial e o artista recebe as partes da faixa original”, esclarece.

Lcio é autor de alguns edits como Construção/Deus Lhe Pague, de Chico Buarque. “Esse edit foi inspiração da Karine, minha mulher, que logo que teve a ideia me passou a faixa… Relutei um pouco pelo trampo de `warpar’ (colocar no tempo) a faixa original, mas assim que comecei a inserir os elementos, adorei. Depois disso, alguns DJs começaram a tocar (Marcio Techjun, Robles e feedbacks bacanas do Jazzanova) e inseri no meu live também”, conta.

Ouça Construção/Deus Lhe Pague, de Chico Buarque, em edit de Lcio

O DJ, apresentador e produtor Rafael Moraes, do Nomumbah e Kizum, o cara por trás do edit de Estrelar, de Marcos Valle, recusa a ideia de que a música brasileira pode derrubar o flow da pista. “Acho que foi-se o tempo em que música brasileira matava pista, né? Vejo cada vez mais a aceitação de misturas em sets eletrônicos, clássicos e referências. Mas, obviamente, cada pista é uma pista, pra tudo tem a hora certa”, pondera.

Marcos Valle, Estrelar, Kizum edit

“Sou brasileiro e faço música eletrônica. Desde as misturas do Nomumbah até coisas mais `ortodoxas´ eletrônicamente falando. Mas curto muito discotecar diferentes gêneros, e acho que is edits são uma forma de ajudar os DJs a tocarem determinados clássicos”, opina.

“Tenho uma lista de faixas que quero editar, uma delas era a Estrelar, que sempre achei ótima, mas que o refrão dá uma matada na pista. Cortei, inverti pedaços, engordei o grave, adicionei uma pandeirola e um kick de leve… E transformei a parte que `matava´ a música num break. Pronto, resolvido o problema”, explica Rafael.

O produtor e DJ Tahira, do edit de Toda Menina Baiana, de Gilberto Gil, já está acostumado a quebrar barreiras para a música brasileira mundialmente. Tahira, que contou com o auxílio do Bixiga 70 para fazer o edit, deu um toque sobre a importância de não mexer demais na estrutura da música.

DJ Tahira chamou o Bixiga 70 para reler Toda Menina Baiana, de Gilberto Gil

Toda Menina Baiana é um clássico em Londres. E uma das músicas mais fortes do Gil no exterior. A mistura de sons africanos com toques de soul music tem tuda a ver com a Europa. Quando fiz o re-edit tentei preservar a alma da música adicionando elementos com que deixasse a música com um apelo mais afro brasileiro no ritmo e com uma estrutura de musica eletrônica. Por isso a introdução de quatro minutos. Estou bem feliz com o resultado. Até agora foram 28 mil plays. Mais de três mil downloads. Inclusive de países que eu nunca ouvi falar. Poder espalhar música boa pelo mundo é uma ótima recompensa”, orgulha-se.

Elis Regina – Aprendendo A Jogar (Ney Faustini Edit)

O produtor e DJ Ney Faustini também desfaz a ideia de que MPB e pista não combinam. “A história da música brasileira é muito rica e existem diversos exemplos de que ela vai bem nas pistas, sim. No meu caso, sempre fui muito ligado aos sons mais grooveados. Nos edits que eu fiz, do Tim Maia e da Elis Regina, mantive a base e o groove original, adicionando alguns poucos elementos e `esticando’ a música”, diz.

Tahira, por fim, dá seu veredicto. “Acho que música brasileira não derruba pista. É lógico que depende do DJ e também do lugar. Mas não acredito nisso. Tanto que a música brasileira é conhecida mundialmente”, complementa.

Tim Maia – Você e Eu, Eu e Você (Ney Faustini edit)

Se a música é boa, a pista aceita. Como dizia o filósofo Tim Maia: “Quem não dança segura a criança”.

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