Qualquer mãe ou pai coruja gosta de exibir os talentos do filho pequeno, mostrando para todos os parentes a coreografia engraçada ou a canção fofa da criança.

Em alguns casos, o orgulho da família vai mais longe. A mãe de Justin Bieber postou no YouTube vídeos do garoto tocando para que familiares em outras cidades pudessem vê-lo. A partir disso, o garoto foi descoberto pelo empresário Scooter Braun, lançou três álbuns e hoje domina as paradas musicais dos EUA.

No caso da garota Rebecca Black, de apenas 13 anos, o resultado foram milhões de views no YouTube, muitos xingamentos, paródias e a oportunidade perfeita para a projeção de uma gravadora especializada em transformar pais corujas em mecenas dos próprios filhos.

O primeiro vídeo de Rebecca, intitulado Friday, se transformou imediatamente em viral na web pelo refrão grudento e pelo uso exagerado de auto-tune. Já ganhou diversas paródias. Na música, ela fala sobre a ansiedade pela chegada do fim de semana e canta “fun fun fun” sorrindo para a câmera.

ARK MUSIC FACTORY

O vídeo de Rebecca Black já teve mais de 12 milhões de views e a garota não sai dos Trending Topics do Twitter há dias. E quem ganha com isso? A Ark Music Factory, produtora que virou uma “fábrica” de hits instantâneos. Seu objetivo maior é encontrar o novo Justin Bieber.

Comandada pelos americanos Patrice Wilson e Clarence Jey, a gravadora não vai atrás dos artistas que quer – são eles, ou melhor, os pais, que procuram (e pagam) a Ark para transformar seus filhos em estrelas da música pop. A gravadora é especializada em artistas de 8 a 17 anos, e seu catálogo parece o de uma fábrica de bonecas: diversas garotas de expressão semelhante transformadas em hits instantâneos por meio do uso exaustivo de auto-tune e investimento pesado na web.

No site da Ark Music, várias outras garotas esperam pela oportunidade de emplacar um hit. As vozes são quase todas iguais (mesmo algumas tendo 8 anos e outras 16), e a temática alterna entre paixão por algum garoto, relacionamentos na web, amigos, escola e diversão. Uma das garotas, CJ Fam, tem apenas oito anos – e lembra as crianças super produzidas pelas mães que povoam concursos de beleza norte-americanos (do tipo mostrado no filme A Pequena Miss Sunshine).

Com uma quantidade crescente de artistas mirins financiados pelos pais (que pagam todos os custos de produção das crianças) e fidelidade máxima à estética American Idol (fazer careta e malabarismos vocais), a Ark Music Factory está faturando pelas beiradas. E pode muito bem vir a emplacar várias Rebeccas Black. É como se a Motown fosse conduzida por Simon Cowell.

AUTENTICIDADE

Com o sucesso do vídeo de Friday, Rebecca Black foi atacada no Twitter e em outras redes sociais pela obviedade da letra (“ontem foi quinta, hoje é sexta”): os xingamentos variavam entre “o pior vídeo do mundo” e “uma das vozes mais irritantes da história”. Em geral, a principal reclamação é a mesma que sempre persegue artistas que usam muito auto-tune: você sabe cantar mesmo ou é só truque de estúdio?

Em entrevista para o programa Good Morning America, Rebecca Black tentou acabar com essa dúvida cantando ao vivo um trecho de Friday (outro vídeo completo da cantora cantando sem ajuda de auto-tune já foi divulgado; assista acima).

Mas o verdadeiro destaque da entrevista é a mãe de Rebecca, que afirmou que “poderia muito bem ter matado” várias pessoas que xingaram a filha na web. Pelo jeito, nem toda a grana que a família investiu na Ark Music Factory protegeu Rebecca de ser “trollada” pelo público. Fora do círculo de corujice e tietagem da família, ser artista é mais difícil do que parece.

Veja aqui a entrevista de Rebecca Black no Good Morning America.

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