Música eletrônica e sertanejo são dois estilos que não combinam em nada, o público é completamente diferente e as batidas não combinam, certo? Errado! Remixes de sucessos da música sertaneja já são prática bem comum em algumas baladas de São Paulo e na programação musical das rádios de todo o país.

A reinvenção do estilo country nacional, que deixou de lado a viola caipira e agora usa e abusa de guitarras, sintetizadores, percussão e metais, retirou do sertanejo o rótulo de “música brega” que recebeu há cerca de 30 anos, quando Chitãozinho & Xororó estouraram nas paradas com a melancólica canção Fio de Cabelo.

De lá para cá muita coisa mudou. “O sertanejo parou de falar só sobre tomar cachaça e ser traído pela mulher. Agora as letras falam sobre coisas triviais do nosso cotidiano. Isso chamou a atenção do público jovem, o estilo invadiu e dominou o mercado”, explicou ao Virgula, Fernando Telles, o DJ que anima as noites sertanejas do Bar Lanterna e do Villa Country em São Paulo.

“HOUSENEJO”

Há anos no comando do programa Peão Nativa, Fernando também é locutor da Rádio Nativa FM, bem conhecida entre o público sertanejo em São Paulo. Quando se deu conta da revolução que o estilo estava promovendo no mercado da música, resolveu deixar a batida eletrônica de lado e investir na nova vertente caipira. “Havia uma diferença muito grande entre o público do sertanejo e o público da música eletrônica, hoje é praticamente o mesmo”, ressalta o locutor.

O sucesso da mistura “housenejo” é tão grande que a SomLivre lançou no final de janeiro o álbum Pista Sertaneja, com remixes dos mais famosos artistas do seguimento. Canções de Luan Santana, Jorge & Matheus e Maria Cecília & Rodolfo ganharam uma nova batida, criada exatamente para invadir as casas noturnas e rádios com programação musical pop de todo o país.  

“A SomLivre me procurou para montar um projeto que tinha o desafio de misturar sertanejo, house e pop. Essa nova fase do sertanejo universitário é bem animada e isso favorece muito a possibilidade da música tocar nas rádios ou em uma balada”, explica Mister Jam, responsável pelos remixes que você ainda vai ouvir nas pistas de dança (e também pela recente guinada eletrônica de Wanessa)

E qual o segredo para mixar dois estilos que não têm nada em comum? “Eu tocava house e dance music e aprendi a mixar. O sertanejo não é um estilo de música feito para ser mixado, por isso pouca gente consegue fazer. A maioria das faixas são gravadas ao vivo e tem muita variação de bpm, ele não é feito para virar, diferente da música eletrônica. Eu aprendi a pegar esse tempo e conseguir mixar”, revela Fernando Telles.

QUEM SABE FAZ AO VIVO

Não demorou muito para o músico Alexandre, da dupla Alexandre Massa & Rafael, ter a ideia de misturar o som de sua dupla sertaneja com os BPMs do DJ Fábio Netto, tudo ao vivo durante os shows do agora trio.

“A ideia veio há um ano. Eu estava no carro, pensando em como fazer para diferenciar o trabalho da dupla. Com tanta gente boa no mercado, teríamos que ter algo diferente, algo que pudesse abrir portas nas rádios e na TV. Um dia perguntei ao meu parceiro ‘O que você acha de misturar eletrônico com sertanejo?’, ele respondeu que eu estava ficando louco. Depois pensou melhor e resolvemos investir”, conta Alexandre.

O resultado você pode conferir no álbum EletroAcústico Ao Vivo, disponível para download no site da dupla

A NOVA CARA DO PÚBLICO

Basta passar em frente ao Villa Country, em uma quinta-feira à noite, para avistar de longe a enorme fila que se forma em frente a mais tradicional e antiga casa sertaneja de São Paulo. Porém, uma coisa mudou. Dá para contar nos dedos as pessoas que estão usando a clássica indumentária dos amantes do country: bota, fivela e chapéu.

A fila pode ser facilmente confundida com uma das boates da Vila Olímpia, bairro que concentra casas de música eletrônica em São Paulo. Para Fernando, a explicação é a aceitação do sertanejo entre a classe média alta: “O auge da Vila Olímpia acabou. O público migrou para o sertanejo. São jovens da classe média alta, entre 18 e 30 anos”.

“Quando estou com os amigos, a gente canta junto. Acho que é isso o que eu mais gosto no sertanejo universitário: poder olhar para alguém do meu lado e cantar junto na balada. Com a música eletrônica não é assim”, explica o estudante Lucas Rossi.

“O sertanejo invadiu e dominou o mercado da música, tanto que rádios pop como a Jovem Pan e a Metropolitana estão tocando Luan Santana. E são rádios que a galera que gosta de dance music tem o hábito de ouvir”, observa Fernando.

Para o animado estudante Lucas Rossi, a questão é simples: “O sertanejo sempre foi pop. O problema é que muita gente achava que o sertanejo era brega. Como tudo o que é brega virou pop, o sertanejo soube aproveitar esse vácuo.”

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