Parecia que era um <<REW, mas é um FF>>. Se você nasceu na era do CD, do MP3 e do renascimento do vinil, talvez nunca tenha apertado o play em uma fita cassete. Artistas do mundo todo estão aderindo ao formato K7 e a onda já bateu no Brasil.

Gravadoras locais independentes como Beatwise Records e MAWW Records vêm apostando nas fitas. Mesmo formato em que a banda goiana Os Boogarins, teve seu álbum de estreia, As Plantas que Curam, lançado pela Burger Records, dos Estados Unidos. MGMT, British Sea Power e She & Him estão entre as bandas gringas conhecidas que lançaram trabalhos em cassete. 

Ouça Beatwise Records

Mas onde tocar essas fitas? Uma breve pesquisa pelo site Mercado Livre nos leva a aparelhos portáteis, no estilo Sony Walkman por valores que vão de R$ 25 a R$ 80. Um toca-fitas classicão, National, chega a R$ 180. Mais ou menos o valor de um conversor USB/cassete.

As fitinhas revolucionaram a maneira como a gente grava <3 e ouve música. Ela permitiu que nos anos 80, os boombox levassem rap, o break, o hip hop, para as ruas. Logo depois, veio a portabilidade assegurada pelo Walkman, o avô do iPod.

Um tempo após de ter se tornado obsoleta e quase extinto, o tape renasce como meio preferencial para artistas indies da eletrônica, do jazz, do rock psicodélico e de diferentes gêneros freaks que despejam colocando música fresca na praça. No dia 27 de setembro, rola a segunda edição do Cassette Store Day na Europa e Estados Unidos, com algumas dezenas de lançamentos e uma cadeia de lojas, gravadoras e selos envolvidos. 

“A fita, por si só, tem uma sonoridade que já comprime e acrescenta uma cara própria ao som. Acho que o formato vem ganhando espaço por ser charmoso, barato e portátil. O vinil voltou muito mais forte, claro, mas o cassete é algo que, com um simples toca-fita e um cabo auxiliar, você liga em qualquer stereo de carro”, afirma Benke, guitarrista dos Boogarins, uma das bandas brasileiras com mais projeção internacional na atualidade. 

“Ainda que eu lance material em MP3, CD, disquete ou o que quer que seja, o ruído da fita está ali no som, e o meu principal objetivo com essa mídia analógica é continuar usando-a no processo de produção, independente da mídia que será distribuída. Não tem por que se limitar, temos um mundo de opções quando somos independente”, afirma Pedro Zopelar, recentemente selecionado para o Red Bull Music Academy, espécie de “acampamento” que reúne lendas da música e jovens produtores do mundo todo para palestras, oficinas e práticas. A edição será em Tóquio, entre 12 de outubro e 14 de novembro.

MAWW Records

Zopelar é dono da MAWW Records, que lançou To Believe, de Érica Alves em fita. “A ideia de distribuir em fita foi apenas uma extensão do nosso processo de produção, já que todo o álbum foi gravado com um multitrack de 8 canais em fita cassete. Pretendo fazer mais lançamentos em K7 mas agora estou reunindo um time de amigos que estão a fim de contribuir em todos os processos de um selo independente. Sozinho foi muito difícil duplicar as fitas, recortar e colar os labels, divulgar, vender. Mas agora já tenho alguma experiência e já estou trabalhando em futuros lançamentos que serão vendidos em fita”, planeja.

O produtor CERSV, da Beatwise Records, defende que as fitas têm um som que casam muito bem com máquinas como SP404 e MPCs. “Creio que as fitas K7, além de voltar ao formato físico, valorizando o artwork, o som magnético tem um caráter de nostalgia que interessa a alguns pesquisadores musicais”, diz.

Os próximos lançamento da Beatwise são Sants, Noite IlustradaSonoTWS, Mocado EP. Ele irão se juntar a SonoTWS (T.W.S) , o primeiro disco do DJ Abud (São Paulo Jazz Impressões) e o último lançamento de CERSV, One Thousand Sleepless Nights, com tiragens de 25 cópias cada. “A cultura de beat tapes sempre esteve atrelada a cena ‘beat’ pela facilidade de gravação, duplicação e distribuição nos anos 90”, afirma o produtor. 

CERSV vê um ciclo recomeçando. “Os beat tapes têm um grande papel na cultura do rap e da música alternativa. Antes do MP3 e outras mídias digitais, os K7s eram a única mídia que possibilitava a divulgação de músicas feitas por produtores pequenos. Minha história com as fitas K7s vem desde os anos 2000, época em que o hardcore estava em seu auge na cidade de SP. Era muito comum o uso de demo tapes essa época. O que estamos fazendo hoje em dia ainda é bem parecido com os moldes da música alternativa daquele tempo”, argumenta.

O produtor constata também que a música digital tem se tornado “vazia”. “O fato de não ser físico, torna os lançamentos voláteis”, diz. “Alguns produtores de beat que utilizam máquinas para suas produções recorrem ao K7 como sua maneira de gravar a mix final por sua praticidade, simplicidade e textura. Portanto, em vários lugares do mundo essa cultura está voltando. A Stones Throw, por exemplo, tem voltado muitos de seus lançamentos para K7. Selos menores como a Bootleg Tapes, Dirty Tapes entre outros estão chamando nossa atenção e sido nossa influência”, afirma.

Zopelar, por sua vez, elogia as fitas do selos Night People, Spring Break Tapes e de selos brasileiros como o 40%foda/maneiríssimo e Beatwise. Ele faz ao coro em relação ao custo reduzido. “Gosto muito da mídia porque é barata. Recentemente, fui procurar por discos em uma banquinha após o show do Mac Demarco em SP e me deparei com LPs e fitas cassetes. Eram dois albuns em vinil e cada um custava R$ 70 reais. Comprei um fita que vinha com os dois album (um em cada lado) por R$ 25″, conta.

Benke também comenta a questão do formato ser mais acessível. “A Burger Records é uma gravadora que trabalha de uma forma bem apaixonada. Como o processo de prensagem em cassete é bem barato, lançam sons novos a todo momento, mesmo que em tiragem reduzidas”, diz.

O guitarrista dos Boogarins elogia as fitas de Lê Almeida, da Transfusão Noise Records. “Fora, nos Estados Unidos, principalmente, é bem comum bandas novas terem seu trampo lançado em cassete. As que mais escutamos, ultimamente, tem sido as cassetes do Mystic Braves, Holy Wave e do Ty Segall“, dá a letra.

Referência da música indepentende, por seu trabalho lançando discos e na curadoria e organização de festivais como o Bananada, o músico, empresário e produtor Fabrício Nobre, da A Construtora Música e Cultura, credita o sucesso do formato à nostalgia. “Confesso que acho o formato K7 nostálgico, mas pouco prático. Estou sem toca-ficas atualmente”, admite. “Acho que é simples nostalgia, mas sim é tendência”, posiciona-se.

Zopelar discorda. “A fita K7 é considerada uma mídia obsoleta, não consigo enxergar uma tendência nisso”, opina. “Não vejo mais gente produzindo em fita ou comprando fitas cassete como na época em que ela realmente era tendencia (80´s 90´s). O que observo é o artista cada vez mais idependente, desviando-se das intenções comerciais da indústria fonográfica de acordo com sua própria vontade ou proposta conceitual. Acredito que quem usa fita, seja pra produzir, gravar ou distribuir sua música o faz por opção, por curtir o resultado sonoro ou simplesmente por apostar em algo que ainda é funcional, apesar de ser considerado algo quase extinto”,  contextualiza.

O produtor, que é uma das metades do Gaturamo, conta, no entanto, que sua queda pelo formato tape talvez seja um de seus segredos para seu atalho até Tóquio, a capital do arquipélago hype. “Todo o material que mandei para o Red Bull Music Academy foi gravado e mixado em fita K7”, conta. 

Se as crianças aprenderam o que era um vinil, por que elas deixariam de sentir a experiência tátil de apertar o play em uma fitinha e sentir a música na ponta dos dedos? Logo vai acontecer. Pode apertar o REC. 

 

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