Depois de cinco anos sem tocar em São Paulo, o mito do jazz Herbie Hancock subiu ao palco do Credicard Hall por volta das 22h15 desta quinta (22) para conduzir uma plateia de fãs ao âmago de suas experimentações, que incluem de longos passeios pelo free jazz até a música eletrônica e o hip hop.

Após um show de abertura com bons momentos de uma Céu pra lá de emocionada, que em várias oportunidades agradeceu pelo fato de estar ali abrindo pra um de seus maiores ídolos, Herbie Hancock e sua incrivelmente competente banda soltaram os primeiros acordes do show para uma plateia que parecia assistir à missa do papa.

Vestindo camisa estampada na linha gringo no Rio, Hancock faz você jurar que está na casa dos 40 anos, tamanho seu vigor e agilidade. Seus 73 anos, porém, se notam em sua habilidade ao piano e, mais, na maneira humilde como se coloca como apenas um dos músicos da banda. À esquerda do palco, no canto, ele deixa o papel de frontman para o ultracompetente baixista James Genus – se morasse no Brasil, certeza que o confundiriam com o Cumpadi Washington, é igual.

No final da primeira música, Hancock troca a primeira ideia com a plateia: “Fazia tempo que não tocava em São Paulo, essa cidade que eu adoro. Vocês são ótimos”, disse, sorrindo, antes de apresentar a banda, que além de Genus tem o baterista Vinnie Colaiuta (“louco”, segundo apresentação de Hancock) e o percussionista indiano Zakir Houssein, um dos destaques do show, tamanha a sua habilidade com a tabla.

Em seguida, Hancock anuncia a próxima música, um mashup de Watermelon Man, de seu primeiro disco, Takin Off, de 1962, com uma música escrita pelo guitarrista Lionel Loueke, chamada 17 Teens, composta em 17 compassos. “Mas como eu não consigo tocar em 17 compassos, vamos tocar em 16, porque é mais fácil”, brincou o mestre do jazz, um cara que sempre esteve um passo à frente na música, até no quesito humildade. Enquanto toca, ele sinaliza com a cabeça os compassos que estava alterando na música, para fazê-la soar mais “fácil”. A plateia, absorta e hipnotizada, ri e, sim, baba com o misto de habilidade e bom humor de Hancock.

Depois ele brinca de rockstar com seu teclado Ax Synth da Roland, daqueles que se usam pendurados, como uma guitarra. A banda, tocando como um relógio suíço, começa a desacelerar o compasso da música e vai diminuindo a intensidade, a ponto de quase não se ouvir o que tocam, dando uma aula prática de dinâmica em pleno Credicard Hall. A plateia acompanha e emudece até o final da execução, para no final explodir em palmas e gritos. Hancock e banda sorriem, emocionados.

O pianista volta a se sentar e anuncia: “Nos anos 70, fui o segundo músico do mundo a usar o vocoder (filtro que deixa a voz robótica). Agora que todo mundo usa, resolvi parar de usar. Mas o vocoder é ótimo pra mim porque, ao contrário da Céu, que fez um show lindo hoje e gravou em meu CD, eu não canto bem”, disse, elogiando a cantora, que participou de seu álbum de 2010, The Imagine Project. Ele então começa a cantar Come Running to Me, usando o vocoder. A música, um jazz funk extremamente futurista, certamente deve ter inspirado gente como Daft Punk. Vale ouvir e comparar. 

A música precede o solo mais longo do show, com Zakir Houssein tocando sua tabla por algo em torno de 10 minutos (talvez mais) sem que a plateia pudesse piscar. Ouço um engraçadinho lembrando o “coelhinho da Duracell”. Mas, no geral, todos entramos na viagem do indiano.

A banda sai para deixar Herbie Hancock sozinho no palco, de novo usando o vocoder, num momento de introspecção total, quase uma reza. Os músicos voltam para juntos tocarem o hit Cantaloupe Island, que ficou famoso no mundo pop com a versão da banda de acid jazz US 3, Cantaloup, lançada em 1993.

Agradeço aos deuses por terem incluído no final uma das músicas da vida desta que voz escreve, Rock It, que chegou no bis, para uma plateia que tentava dançar driblando os seguranças do Credicard Hall. Herbie Hancock e banda fizeram muitas cabeças nesta quinta em São Paulo. Que voltem para abduzir muitas outras ainda.

O pianista se apresenta nesta sexta, em Paraty, e sábado, no Rio de Janeiro. 

SERVIÇO

PARATY

Data, Sexta, 23 de agosto, sexta, às 22h

Quanto: Grátis

O músico será a principal atração da noite de abertura do MIMO Paraty

Site do festival: www.mimo.art.br

RIO DE JANEIRO

Data: Sábado, 24 de agosto de 2013.

Horário: 20h30

Local: Citibank Hall -Av. Ayrton Senna, 3.000 – Shopping Via Parque -Barra da Tijuca

Capacidade: 3.337 lugares

Ingressos: de R$ 70 a R$ 400

Duração: aproximadamente 1h30

Classificação etária: Acima de 15 anos: desacompanhados

Acesso para deficientes

Central de Vendas Tickets For Fun: 4003-5588

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