Se você quiser saber o que o malandro pensa e como ele fala, converse com Germano Mathias. Aos 80 anos, o ícone do samba paulista considera a si mesmo “o último dos moicanos”.

Para entrevistá-lo, o Virgula Música foi ao território onde o malandro reina, o bar. Rodeado por alguns súditos de sorte, que numa quinta-feira à tarde de maio, se depararam com um ensaio de Germano e sua banda.

Assim que o samba parou, Germano sentou-se à uma das mesas do Bar e Armazém Cambuci e falou sobre seu estilo sincopado, o álbum que lança na sexta-feira  (13), com show no Sesc Pompeia, e Copa do Mundo, entre outros assuntos.

“Quando o Lula (o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva) aceitou a Copa no Brasil, eu disse: “Estragaram tudo”. Que quem não tem competência, não se estabelece, o Brasil não tem condições. Você não vê os milhões que estão gastando e os hospitais à míngua. Os trens, o transporte, tudo numa situação ruim porque aceitaram”, opina.

No Sesc, o músico apresenta-se com o conjunto regional Segura o Tombo: Luizinho 7 Cordas (violão), Allan Abbadia (trombone), Rodrigo (cavaquinho), Balto da Silva (surdo), Marcelinho Barro  (pandeiro) e Cassiano Lima (percussão). Leia a conversa com o sambista.

De que maneira a cidade de São Paulo é importante para sua música?

Olha, em São Paulo, o samba tem muito prestígio. O Estado que mais gosta de samba, tirando o Rio de Janeiro, que é a capital da samba. Depois do Rio de Janeiro, é São Paulo.

E a Bahia?

A Bahia desvirtuou muito, ela mudou a característica. Inclusive , com aqueles carros… trio elétrico deturpou muito. Então hoje não tem muito de samba, não. Agora é mais São Paulo e Rio.


Da onde vem sua música, como que você aprendeu?

Ah, isso aí é inato. Eu já nasci com esse dom. Desde criança que eu gosto desse tipo de samba, sincopado, que eu canto, o samba com divisão marcante e bem sincronizado. Então é um samba um pouco diferente de todo samba que tem aí. Esse samba não é fácil de cantar, não. Eu até digo que sou o último dos moicanos.

É verdade?

Pra esse tipo de samba. É um samba gaiato o que eu canto. Misturado com sambas sobre o cotidiano. É esse tipo de samba que eu interpreto, que gosto muito.

Quem são os compositores que formam a base do seu repertório?

Jorge Costa, Elzo Augusto, compositores do Rio, Zé Kéti, Pandeirinho da Mangueira. São compositores que eu gravei muito, que sabem fazer esse tipo de samba que eu canto.

Você esteve envolvido com a origem do samba paulista, com o Largo da Banana?

Sempre, sempre. Eu não cantei muitos sambas do Adoniran (Barbosa) porque os sambas dele eram falados erradamente. Era uma característica. Também do Geraldo Filme só gravei um, que foi o Baiano Capoeira. No mais, eu gravava samba que faziam esse estilo meu, de samba sincopado.

Você percebe que o rap se inspira nesse canto falado?

Não, não. Não tem nada a ver, não tenho esse tipo de coisa.

Mas eu digo o contrário, do senhor inspirar os caras?

Aí que eu não sei, né? Eu, pelo menos dentro da minha característica, sou único nesse estilo de samba. Inclusive, na caracterização, o samba malandreado antigo, que o sambista usava chapéu, usava uma camisa psicodélica, um sapato bico fino.

Esse estilo você desenvolveu sozinho?

Eu me apresento como um sambista da velha guarda, caracterizado.

Você chegou a conviver com esses caras da velha guarda?

Cheguei, principalmente em São Paulo. Cheguei muito. No fim, eu creio que não posso me queixar, não, sempre dá pra contrabalançar no orçamento (risos).

Em que momento da vida o senhor teve certeza que ia ser músico?

Desde criança. Sempre gostei da música brasileira autêntica, aquela que não tem distorção harmônica, nem distorção no ritmo. Falei bonito.

E a história da latinha?

A latinha é o seguinte. Nos sambas da São Paulo antiga, existiam as batucadas dos engraxates, que eram verdadeiro folclore, eram umas batucadas muito bem feitas. E como as escolas de samba usavam frigideira, eles à guisa de uma frigideira, à feição de uma frigideira, eles pegavam as tampas de lata de graxa e faziam o ritmo.

Eu aprendi com eles, me juntava a eles. E depois, quando eu me tornei profissional, resolvi lançar como uma novidade, como um tempero no samba, um condimento. Agora, já não posso mais por causa do meu braço, perdi a coordenação motora.

Mas então o senhor nunca foi engraxate?

Não. Eu frequentava a roda. Ali se fazia um samba duro, chamado tiririca.  Muitos malandros da época frequentavam ali o samba dos engraxates ali e a gente entrava no samba duro. Mas eu nunca fui engraxate, não.

A gente frequentava muita gafieira, escola de samba, clubes. Porque o samba que eu canto era muito bem divulgado há anos atrás. E agora está voltando com toda força.

O que o senhor classifica como malandragem. O que é ser malandro?

Bom, tem a diferença do malandro e do bandido. O malandro é um “bon vivant”, um sujeito que vive de expedientes. Ele vive de jogo, no meu tempo vivia de mulher. Ele vive de 171, de vigarismo, mas ele não derramava o sangue de seu semelhante. O malandro é aquele que vive e a banca dele é pequena. Já o bandido, não. Pro bandido, a civilização não tem nenhum verniz. Ele é um troglodita.

Como o senhor relaciona com a internet, com o Facebook, crê que este advento tenha aumentado seu público?

É minha filha que faz tudo, eu não tenho nem celular.

Por que o senhor acha os jovens gostam do Germano Mathias?

Porque eu sou diferente. Eu sou um sambista diferente. Eu não canto só o samba. Eu faço mímica, eu tenho muito jogo de cena. E eu interpreto o samba com aquela malandragem antiga. O pessoal não faz mais isso hoje. O sambista hoje é muito parado, ele não samba, não faz nada, só canta e acabou.

Inclusive, eu tenho visto que muitos sambas são gravados sem instrumento de sopro. Eu gosto muito de instrumento de sopro, principalmente trombone, sempre gosto de gravar com trombone.

Que é uma coisa da gafieira…

É, uma coisa típica de gafieira. O trombone dá aquele sincopado, aquele suingue que o samba que eu interpreto tem. Meu samba tem muito suingue, uma divisão marcante, não atrasa e é sincronizado. Então essa é uma das vantagens que eu tenho, eu tô sozinho na parada.

O senhor sempre toca com os mesmo músicos?

Eu trabalhava com o conjunto Partido Alto na Cozinha. Mas agora eu troquei, pus o nome Germano Mathias e seu conjunto regional Segura o Tombo (risos). Pra fazer graça, sabe? Eu gosto muito do humor. Uma das coisas que eu mais gosto é ver sorriso nos lábios da pessoa. Então eu faço de tudo para ver ela feliz, pra que ela sorria, porque pra ficar taciturno… conhece essa palavra? (risos)

O senhor considera essa sua missão na música, fazer sorrir?

Perfeitamente. A alegria é indispensável. O samba que eu canto agora se chama samba raiz, tradição. É o que eu mais gosto. 

O senhor vai lançar um CD no Sesc Pompeia…

Isso mesmo, sete sambas só falando de futebol.

Futebol e música dá samba?

Dá (enfático). Haja vista que esse CD eu ganheio cotação ótima no Rio de Janeiro, com o jornalista carioca Tárik de Souza. É um jornalista muito sério. 

(Garçom chega com café).

Ah, aquele meu chá de urubu, obrigado. Bife de chaleira. Você não quer um filé de bule? No Rio de Janeiro chama-se pretinho esperto (imita o sotaque carioca).

Então eu estou muito contente porque estão promovendo bastante o samba. Porque “quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé”. E depois outra, eu gosto porque é da minha terra, eu não sou gringo, vou gostar de música de gringo?

Eu posso até gostar de música de gringo, mas eles fazendo, não eu fazendo. Apreciar o que eles fazem. Cada macaco no seu galho, cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso. Falei bonito não falei?

Falou, falou.

Depois eu quero um reajuste no cachê. (risos)

Agora que o senhor fez esse projeto do samba e futebol. Que outros projetos quer fazer?

Eu já tenho um. Antes desse projeto, o  título do meu CD seria Germano Mathias na Copa. Mas como o pessoal está contra a Copa, tá todo mundo invocado com a Copa, eu fui correndo pro produtor e falei: “Tira esse negócio de Copa, bota assim: Meu Samba de Futebol”. Inclusive, na capa do CD eu estou com a camisa da seleção, chapéu branco, calça azul e uma bandeirinha brasileira na mão. O pessoal da gravadora colou o nome “Nacionalista Exaltado”.

Como que o senhor vê essa questão do pessoal que é contra a Copa?

O culpado disso tudo é o Lula (o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva). Ele não deveria ter aceito. Quando o Lula aceitou a Copa no Brasil, eu disse: “Estragaram tudo”. Que quem não tem competência, não se estabelece. O Brasil não tem condições.

Você não vê os milhões que estão gastando e os hospitais à míngua. Os trens, o transporte, tudo numa situação ruim porque aceitaram. Eles deviam dizer: No momento, não podemos aceitar, nós agradecemos o sorteio, mas não podemos aceitar a Copa do Mundo (nota do repórter: na verdade, não foi sorteio, mas eleição).

Esse dinheiro que eles estão gastando com estádio, com tudo, podia ser aproveitado na saúde, na educação, no salário. Mas aqui no Brasil é tudo ao contrário, aqui é entrada franca e saída a Bangu (risos).

Que momento o senhor considera o ápice da sua carreira?

Eu já tive um ápice bom, agora eu tô voltando. Porque esse CD que eu gravei, eu tive muito sorte, viu? Eu estava em uns dias inspirados, a minha voz tá boa, os sambas são espetaculares, são sete sambas só falando de futebol, eles são engraçados, gaiatos, gravei em um estúdio digital, o som ficou muito bom, a capa ficou bacana. No dia 2 de junho (nota do repórter, a entrevista foi feita antes desse data, no dia 15 de maio) agora eu vou completar 80 anos,  eu tenho o corpo limpo, não tenho varizes, há dois anos, eu afogava o ganso com cara de pavão misterioso (risos).

O que te motiva a continuar cantando, onde você quer chegar?

Você sabe, eu sou muito simples, eu não gosto de nada supérfluo. Eu com pouco dinheiro eu vivo. Acontece que eu sou chamado agora. Inclusive, eu vou contar uma coisa que ninguém acredita, eu tô vendendo disco, sabe lá o que é isso?

Hoje em dia ninguém mais vende disco, só os sertanejos. E eu tô vendendo disco. E sem mídia, hein? Apesar de que eu sou muito conhecido, a polícia toda me conhece (risos).

Que dica o senhor daria para um iniciante?

Tá difícil, viu, tá difícil. Hoje em dia tem pouca cocada pra muito baiano. Todo mundo quer ser cantor ou  jogador de futebol, ninguém quer pegar no guatambu. Então, quer dizer, inflacionou. Eu ainda tenho a felicidade de trabalhar, eu trabalho ainda.

Primeiro porque eu sou diferente e segundo que todo mundo está considerando muito os velhos. Eu digo a todo mundo para tratar bem os velhos que são uma raça que está em extinção.

A idade trouxe alguma coisa nova para sua música?

Você pega muita tarimba, experiência. Muitas coisas que você fez, que não devia fazer, agora você não faz mais, se aprimora.

O senhor, quando jovem, esperava ter esse reconhecimento quando chegasse aos 80 anos?

A gente nunca advinha o futuro. Mas sempre lutei pelo samba, pela música brasileira. Inclusive, agora, eu fiz uma minissérie para a Globo, chama-se Os Atravessadores do Samba. Com um monte de “véio”. O véio mais novo sou eu e isso que eu tô com 80 anos (risos).

Quem estava lá?

O Goulart de Andrade, contracenou comigo, o Zé Maria, um negrão careca gente boa também. O cara do cavaquinho, coitado, tinha que levar ele amparado, quase não anda. O Luizinho Sete Cordas contracenou comigo também.

A minissérie tá muito engraçada. Tem uma cena que eu brigo com um playboy, eu levo um soco e perco dois dentes. E depois, no final, eu sou atropelado, olha o que arrumaram pra mim.

Então a próxima reportagem que eu fizer eu vou falar, pra eu entrar na Globo, eu tive que perder dois dentes e ser atropelado (risos).

Mas virou galã, então?

Ah, eu sou protagonista. Já posso morrer sossegado. Porque Globo é Globo, né, meu filho? Eu não queria, esnobei a Globo. Mas de medo porque eu teria que ser ator. Eu falei, eu não sou ator, eu sou à toa, é diferente. Não, não, você é sim, o único sambista louco pra fazer essas coisas é você. Aí eu digo, será que vai dar certo?

Aí, meu nome estava em jogo, eu me esforcei pra ser ator. Você sabia que deu certo? O Fernando Meirelles, o diretor da série, disse o seguinte: “Estava escondendo o leite, hein malandro? Você se saiu muito bem”. Eu disse, só acredito vendo. Vai ar em julho.

Eu quero ver se, com essa minissérie, eu consolido mais o meu nome, pra eu ter mais valor ainda.

E o senhor beijou alguma mulher na série?     

Não, não. Eu quis beijar uma lá, mas ela disse, que quem gosta de velho é reumatismo (risos, gargalhadas).

SERVIÇO

Germano Mathias – lançamento do disco Meu Samba é de Futebol, na Choperia do Sesc Pompeia
Dia 13 de junho de 2014, sexta-feira, às 21h30.
Ingressos: R$ 3,20 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$ 8,00 (usuário matriculado no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 16,00 (inteira).
Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos.
SESC Pompeia – Rua Clélia, 93.
Telefone para informações: (11) 3871-7700.
Para informações sobre outras programações acesse o portal www.sescsp.org.br/pompeia

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