No tão tão distante palco Interlagos, a multidão foi se adensando enquanto o sol se punha. A decoração se resumia a uma cortina vermelha com ares teatrais ao fundo e apenas um sintetizador e uma bateria figuravam no palco minimalista. Por volta das 18h20, dois homens vestidos de branco se postaram, cada um, em seu lugar demarcado. Pouco depois, uma garota entra no palco.

Primeiro de tudo. Não deixe que a maquiagem pesada (ainda que abandonada neste show) e a voz poderosa te façam pensar o contrário: Ella Yelich-O’Connor não passa de uma garota. Pequena, magra, de calça branca, top preto, um sapato de plataforma e metade dos cachos característicos presos, ela entrou no palco de sorriso tímido. Então a batida começou e ela se transformou em Lorde.

A neozelandesa parece se dividir em duas pessoas diferentes no palco. Quando canta e se deixa dominar pela batida, ela começa os seus já típicos movimentos convulsivos, parece entrar em transe e tenta trazer o público para o mesmo mundo que o seu. Quando conversa com o público, volta a ser a tímida Ella. Com as mãos no bolso da calça, agradece com a sua voz profunda e sorri. “As pessoas da Nova Zelândia não saem muito do país”, ela riu. “E eu sou tão sortuda por vocês terem pagado para nos ver e nos escutar”. “Eu fiz essa música a 14 meses atrás. Eu tenho medo de envelhecer. E desde então eu já estou 14 meses mais velha”, ela disse ao introduzir Ribs. Afinal, esse não é um medo comum em qualquer momento da vida?

No setlist, dois covers: a música Easy, de Son Lux, e Hold My Liquor, de Kanye West. Embora na maior parte dos shows as músicas de outros artistas causem furor da plateia, não foi o caso dessa vez. Mesmo que a cantora parecesse estar passando por um processo de catarse com essas músicas tanto quanto as escritas por ela própria, o que agitou mesmo a plateia foram as músicas presentes em Pure Heroin, único álbum da carreira de Lorde. A ganhadora de Grammys e onipresente Royals, obviamente, foi o momento de maior comoção do público; mas outros sucessos como White Teeth Teens Team também tiveram a sua alta dose de entusiasmo.

E com a mesma regularidade de alternância de personas com que começou, o show acabou. Com as mãos no bolso, Ella deixou o palco que Lorde acabara de dominar.

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