Luiz Caldas pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ser um sujeito pouco produtivo. Este ano, o Rei do Axé planeja lançar 14 álbuns, de diferentes gêneros musicais. Para se ter uma ideia do seu seu ecletismo, logo depois do Carnaval, ele disponibiza um disco de heavy metal.

O músico diz que faz música porque “o coração manda”. “Já ganhei bem para caramba com Axé Music, eu inventei essa porra”, afirma, em entrevista exclusiva ao Virgula Música. Perguntado se o Axé morreu, ele reage. “Veja bem, o caso de uma pessoa estar fraca significa que ela morreu? É a mesma coisa, cara, eu inventei um estilo de música. Little Richard, que fez o rock, vai morrer um dia, Elvis Presley morreu e o rock continua. Eu vou morrer, Claudia Leitte, Ivete (Sangalo), mas o Axé Music, já foi feito, meu irmão, está aí”.

Leia a entevista concedida por telefone, de Salvador, em que ele comenta com franqueza, entre outros assuntos, sobre os artistas que gosta da atual geração, sua visão da canção popular, o Carnaval e a defesa do gosto do brasileiro pelo brega.

Você pretende lançar 250 músicas, que vão se somar a outras 130 que lançou no ano passado…

Na realidade esse projeto é o seguinte. Ele não ia até aí. Nós fizemos há mais ou menos dois anos, este projeto de lançar 130 músicas inéditas, em dez discos. E foi muito legal, teve a participação do André Abujamra, que é meu parceiraço, e vários outros colegas. Aí a gente vê o resultado e começa a pensar, poxa eu fiz tanta coisa e vou virar vagabundo em 2013?

Eu disse não, vou fazer um lance intessante, lançar um disco a cada mês, porque tem um monte de coisa, eu tenho um monte de ideias, muitos parceiros bons e isso me facilita a vida. E o lance de não ter preconceito e tocar todos os instrumentos. Eu toco praticamente todos os instrumentos e todo tipo de música. Na verdade, serão 14 discos em 12 meses, o que vai dar 270 músicas inéditas.

O que te inspira a compor tanto?

Música! Você não trabalha todo dia? Para mim todo dia eu posso fazer uma música ou até mais. 

Quem são seus heróis musicais?

As pessoas que fazem música com o coração e não com o bolso. Estes sim são heróis porque a música sai verdadeira. Soa legal. Muitas vezes você pega uma pessoa que toca sem técnica nenhuma. Eu digo porque eu sou multiinstrumentista, toco piano clássico, violão clássico, toco todos os tipos de instrumento de solo, conheço música bem. Então, eu gravo um disco sozinho tocando todos os instrumentos.

Eu sei a diferença que tem técnica apurada, mas toca pelo bolso e de um músico que pega o instrumento e tira do coração aquele som. Então, meus heróis verdadeiros são esses. Eu não me iludo muito com essa coisa de glamour.

Eu já passei por todas as fases, mas sempre abraçado com a música. Se eu estive lá, eu não forcei a barra, foi a música que me levou. Se eu estou aqui também não tem barra forçada, é a música. Então, eu não creio muito nesta onda. Cada um faz um som legal, mas eu creio nesta coisa, a música com alma, Soul Music.

Dentro da pegada de artista popular, que ingredientes você crê que uma boa música deve ter?

O ingrediente que toda música popular deve ter é alegria. Mas sem precisar tirar sarro de forma escrota com ninguém, sacou? Nem com nenhuma raça, nem com nenhuma situação, nem querer se aproveitar de baixaria, nem este tipo de coisa. Este tipo de lance eu não acho interessante.

Porque um exemplo, quando eu fiz Nega do Cabelo Duro: “Pega ela aí pra passar batom, que cor? De violeta, na boca e na bochecha”. Isso, em comparação com que escrevem hoje em dia são palavras santas, entendeu?

Eu vejo mais deste lado, o que o boa música popular precisa ter é uma dosezinha de gozação, que é normal, mas nada que vá ultrapassar limites. Que fere não só o humor da gente, mas a moral. Não é falso moralismo que eu estou dizendo, mas tem gente que está pegando muito pesado. Tem criança ouvindo música, ouvindo coisas fora de hora.

Da geração atual, de quem você mais gosta?

Pô, tem Baiana System que faz um sonzão, Márcia Castro, são pessoas que já estão fazendo som há um tempão, mas agora estão podendo mostrar com mais força seu trabalho, sacou? E por aí vai, tem aqui Retrofoguetes que já está há um tempão, tem um trabalho muito legal. Eu gosto de Detonautas, do Tico Santa Cruz. Estou lançando depois do Carnaval agora um disco de heavy metal. A gente está organizando para ele estar junto comigo. Já falei com ele, ele está a fim. É um cara que quando eu lancei meu primeiro disco (nesta nova fase), disponibilizando um link do meu site no site dos Detonautas para que as pessoas ouvissem meu disco de rock.

Ou seja, faço música porque estou dando estas músicas de graça. Eu não estou aqui pensando em engambelar ninguém não. Eu estou fazendo música porque meu coração manda, tenho bons colegas e pronto. Já ganhei bem para caramba com Axé Music, eu inventei essa porra, e estou bem. Toco em tudo quanto é lugar. Amanhã (sábado, 2) mesmo estarei em BH, puxando a Banda Mole que é um bloco com 50 mil pessoas na rua. Então para mim está superlegal. O Axé, que eu inventei, me sustenta para eu cantar tudo que eu quero e disponibilizar de graça para galera.

O Axé Music está vivo ainda, ele permanece forte, uma potência?

Veja bem, o caso de uma pessoa estar fraca significa que ela morreu? É a mesma coisa, cara, eu inventei um estilo de música. Little Richards, que fez o rock, ele vai morrer um dia, Elvis Presley morreu e o rock continua. Eu vou morrer, Claudia Leitte, Ivete (Sangalo), mas o Axé Music, já foi feito, meu irmão, está aí.

Olha, o Axé Music está tão em baixa que o menor público de Axé Music é 5 mil, 10 mil pessoas, por show. Algum outro estilo consegue isso com facilidade? Sertanejo porque está em alta, mas o Axé Music continua fazendo o que sempre fez. O Axé Music é música de trio elétrico, meu irmão. Trio elétrico é invenção de multidão, não tem como morrer.

O que você mais gosta do Carnaval?

Eu gosto do Carnaval a liberdade que as pessoas adquirem nestes poucos dias. A liberdade que eu digo é mental porque muita gente se prende demais e o Carnaval às vezes pega aquele cara que é totalmente sisudo e durante o Carnaval ele veste uma minissaia, sacou? É muito legal esta coisa. Infelizmente tem gente que usa o Carnaval só financeiramente. É muito bom ganhar grana, só que com responsabilidade.

É possível conciliar o lado comercial com esta liberdade?

Por que não, rapaz? Eu não estou dizendo que eu sou rico? Eu ganho bem para caramba e só canto o que eu gosto. 

Você já disse que o Brasil é brega, que vantagens isso pode trazer para nossa música?

A vantagem é estar embutida no gosto das pessoas. Eu digo que o gosto é brega porque as pessoas encondem que gostam de música muito fácil, de música superpopular. Quando gosta diz, ah, eu gosto para beber, pra isso e aquilo coisa e tal. Porra nenhuma, gosta mesmo.
 
Então é tipo da coisa, dizer que não se gosta de Amado Batista, de Odair José, de Sidney Magal, de Titãs, de Zeca Baleiro, de Luiz Caldas, de Moraes Moreira. A gente é brega, a gente é brasileiro, a gente faz música legal.

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