David Guetta ou dubstep? A techneira suingada do alemão Sven Vath ou o house bombator da Máfia Sueca? A fanfarra agressiva do Major Lazer ou o electro-pop light de Calvin Harris? Tiesto ou Mad Professor? Hamburger ou nachos? Oompa Loompas ou Teletubbies (calma, já explico…)???

Estes foram alguns dos dilemas enfrentados pelo frequentador do festival Creamfields 2010, situado em campos verdejantes, no meio do caminho entre Liverpool e Manchester, norte da Inglaterra. O evento, que rolou nos dias 28 e 29 de agosto, é hoje um dos maiores festivais europeus focados em DJs e música eletrônica. Em janeiro, ele terá uma edição em Florianópolis, trazido pelo mesmo pessoal que representa a Pacha no Brasil.

Espalhado por um palco principal, seis tendas e outros palquinhos menores, Creamfields 2010 prima pela variedade e pelo incrível empenho do público em se divertir e festejar até as últimas consequências. A impressão geral é que, entre as quase 40 mil pessoas presentes em cada um dos dois dias, ninguém fica parado na pista nem veio pra ficar de marra.

FANTASIANDO

É aqui que entram os Oompa Loompas e os Teletubbies. Uma coisa que chama a atenção de cara é como o povo em Creamfields adora uma fantasia! São turmas e mais turmas incorporando todo todo tipo de personagem: tinha tenistas, astronautas, vacas de pelúcia, bonequinhos de Lego, Wallies, dragões e ETs (e eu estava sóbrio, ok?).

“A gente faz isso porque é divertido, pra dar risada”, conta um animado grupo de Oompa Loompas, todos da cidade próxima de Preston. “E atrai a atenção da mulherada.” Ele não está mentindo: no pouco tempo que falei com eles, duas meninas chegaram pedindo para tirar foto. Eu também ganhei brinde: os Oompas aproveitaram para pintar minha cara de tinta laranja enquanto rolava a conversa.

Já o Teletubbie vinha de Leicester, se chama Mike e trabalha como pedreiro. Tire a fantasia e coloque uma camiseta de time de futebol e dá pra imaginar ele causando no estádio. Ele acha que rola competição entre as fantasias? “Não, não é isso, é só pra deixar a festa mais divertida, se vier todo mundo do mesmo jeito, qual é a graça?”

Quem não está fantasiado, está com a cara pintada, óculos com persiana (a la Kanye West), usando pijama de bolinha ou de galocha cor-de-rosa (galocha vale ouro aqui, já que as chuvas esporádicas vão enlameando o chão ao longo das horas). O espírito aqui é não se levar a sério e entrar no clima da folia eletrônica. Os de roupa básica, normalzinha, são minoria.

MERGULHANDO NO SOM

A música, por outro lado, é papo muito sério em Creamfields. Todos os DJs e shows encontram um público atento e disposto a mergulhar no som. Os brasileiros do Mixhell podem não ter atraído tanta gente, apesar do set excelente, mas quem estava lá bombava como se fosse a última noite da sua vida.

É evidente que quem mais formou multidões foi o pessoal mega-blaster: difícil rivalizar com atrações como Deadmau5, Tiesto, David Guetta (que fez um set mais techno, bem menos pop do que costuma fazer no Brasil; mas, se você é fã, fique tranquilo, ele tocou I Gotta Feeling) ou a Máfia Sueca.

Estes últimos, um trio formado pelos DJs suecos Steve Angello, Sebastian Ingrosso e Axwell, são os nomes de 2010 na ponta mais acessível da dance music. Sua estrumbada residência em Ibiza, suas produções com Kylie Minogue e Pharell Williams, suas caras estampando a capa da revista Mixmag, referência no gênero, resultaram na tenda mais absurdamente entupida do evento. Seguranças tiveram que fechar os acessos por causa da lotação; camadas e mais camadas de pessoas se amontoavam do lado de fora preferindo curtir ali mesmo do que ir atrás de outro palco.

Outros nomes consagrados da cena eletrônica como Sven Vath, Pete Tong, Popof, Eric Prydz e Laidback Luke (que toca numa festa “esquenta” do Creamfields brasileiro, em novembro, ao lado da banda Faithless) fizeram jus a seu status: subiram o gás e jogaram a galera nas alturas. Esta retribuía, urrando e aplaudindo constantemente.

A FORÇA DO DUBSTEP

Mas o legal de Creamfields é que tem muito lado B, e estes fazem bonito também. No primeiro dia, um dos melhores locais da festa foi a tenda dos gêneros de “subgrave”, com o dub estoura-peito do veterano Mad Professor, uma sequência insana de dubstep com Rusko, Caspa e Benga e finalizando com a artilharia drum’n’bass de nomes como Andy C, High Contrast e DJ Hype.

O dubstep merece um comentário à parte. Incrível constatar como esse som é forte na Inglaterra. Além dos sets dos DJs do gênero serem muito bem recebidos (em especial, o performático Rusko, que já produziu M.I.A e trabalhará com Britney Spears), ouviu-se o batidão gordo e arrastado na discotecagem de vários DJs de outras praias: até David Guetta tocou alguns minutos de dubstep! Por essa ninguém esperava.

O projeto Major Lazer, de Diplo (e Switch, mas que não compareceu), tocou em pista menor, apesar da enorme atenção midiática que tem recebido. Botou a galera para pular de braço erguido com seu megamix de farofa de bom gosto (neste caso, não é paradoxo) onde cabe timbre trance, batidão house, referências pop bagaceiras e um MC negro de moicano loiro que parece possuído pelo capeta.

Outro nome muito esperado e que mandou muito bem foi o Leftfield, projeto histórico da eletrônica dos anos 90. Era seu primeiro show desde 2002, início de uma turnê inglesa de retorno. Neil Barnes, cabeça da operação, mostrou seus dotes de multi-instrumentista, tocando teclados, percussão e até berimbau!

A grande escorregada da noite foram os problemas enfrentados pelo excelente live do Plastikman, onde o DJ e produtor Richie Hawtin fica envolvido por um enorme “cubo” de imagens e LEDs lisérgicos. Certa hora, a parafernália tecnológica deu pau e tudo parou. Logo depois voltou. Passou um tempo e parou tudo de novo, e aí não voltou mais. As luzes do palco se acenderam e o povo começou a dispersar. Tecnologia demais às vezes atrapalha. Hawtin teve que terminar seu horário tocando o bom e velho CD mesmo.

Calvin Harris, uma das atrações com maior destaque (abrindo para Tiesto no palco principal), também deixou a desejar. Um show previsível e sem imaginação. Não ajuda também o insosso repertório de seu segundo disco, Ready for the Weekend.

CREAMFIELDS NO BRASIL

A edição brasileira do festival deve acontecer no dia 22 de janeiro. Será um evento para 15 mil pessoas, com três ou quatro pistas, incluindo um palco maior e tendas. Estima-se que o preço dos ingressos será entre R$ 80 e R$ 100.

A combinação de alto verão brasileiro com a atratividade de Floripa é promissora. Nenhuma informação sobre possíveis artistas foi liberada ainda. O que é certo que haverá preferência por coisas que comprovadamente funcionam com o público brasileiro, com algum espaço para experimentação. A conferir.

Só não esqueçam, por favor, de avisar o Teletubbie!

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